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A arte é o everest do artista

Sobre o impulso de criar quando não há outra forma de existir


Imagem de montanha envolta por neblina, associada ao texto de Marisa Melo sobre criação artística como necessidade vital e desafio pessoal.


Quando George Mallory foi questionado sobre por que desejava escalar o Everest, respondeu com simplicidade: “porque ele está lá”. A frase atravessou décadas não apenas como resposta à conquista de uma montanha, mas como metáfora daquilo que se torna essencial para alguns e incompreensível para outros. O que move uma vida pode soar absurdo para quem observa de fora. Na arte acontece o mesmo: há quem reduza a obra ao preço que se paga por ela, mas para quem cria, o gesto é inegociável, é razão de ser.


A diversidade humana se manifesta nos modos de expressar emoções, memórias e inquietações. Cada vida carrega experiências irrepetíveis que pedem tradução. Literatura, pintura, teatro, cinema, música ou escultura são linguagens distintas para narrar a mesma urgência de existir. A arte nasce desse impulso de partilha, de dar forma ao que seria inominável. Não é sobre codificar a beleza, mas sobre transmitir intensidade.


Nos estudos de história da arte, detemo-nos nos estilos e técnicas, nas cores vibrantes do impressionismo ou nas geometrias do cubismo. No entanto, antes da forma, o que funda a obra é a sinceridade do gesto. O que guia o traço é perplexidade, encantamento, indignação. Não é uma torre de Babel estética, mas a multiplicidade de vozes que se legitimam quando revelam algo verdadeiro. O observador pode não compreender de imediato, mas se há autenticidade, a obra encontra sua frequência. Ela desperta, mais cedo ou mais tarde, uma ressonância capaz de gerar reconhecimento.


Essa sinceridade perpassa épocas e movimentos. A ira muda contra os desmandos sociais ou contra a destruição da natureza está presente na violência dos traços de Franz Kline, no silêncio perturbador das gavetas de Dalí ou no grito desesperado de Munch. A materialidade pode mudar, da parede urbana ao ambiente digital, mas o sentido da arte como linguagem permanece: provocar, questionar, rasgar certezas. Uma obra não precisa agradar para ter valor. Seu valor está em tensionar nossos pontos de vista, em gerar debate, em expor feridas e propor outras formas de olhar o mundo.


A arte nos reconcilia com a vida porque é capaz de nomear emoções que não cabem em fórmulas racionais. É memória e é futuro, é registro do tempo e ao mesmo tempo negação da sua linearidade. É catártica porque devolve ao corpo social o que nele se cala. Não depende de aplauso nem de cotação. Sua legitimidade está no que provoca, no que transforma, no que revela.


Para o artista, criar não é escolha opcional. É condição de existência. Viver a cada obra é morrer e renascer, num ciclo contínuo de entrega. Por isso, quando perguntamos por que criar, a resposta é tão simples e absoluta quanto a de Mallory: a arte é o Everest do artista.

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