top of page

Certificação e due diligence de obras

Por que esse debate deixou de ser opcional



Pintura “Figura em Vigília”, de Marisa Melo, em moldura clássica dourada, exibida junto ao certificado de autenticidade que documenta autoria, técnica e procedência da obra.

Durante décadas, o mercado de arte se apoiou em um pacto implícito de confiança. A obra circulava entre ateliês, galerias e colecionadores com base na palavra, na reputação e na proximidade entre os agentes. Esse modelo funcionou enquanto o sistema era restrito, quase doméstico. Hoje, ele se mostra insuficiente.


A ampliação do mercado, a circulação internacional, o crescimento das vendas online e a entrada de novos perfis de compradores tornaram evidente uma fragilidade estrutural: a ausência de critérios claros de validação. Certificação e due diligence surgem nesse cenário como resposta necessária à complexidade atual.


Certificar uma obra não é um procedimento técnico e documental que estabelece parâmetros verificáveis sobre autoria, datação, técnica, edição quando houver, e vínculo com o percurso do artista. Um certificado sério não é genérico, nem decorativo. Ele precisa estar ancorado em conhecimento de obra, coerência histórica e responsabilidade institucional.


Quando mal compreendida, a certificação vira um papel frágil, facilmente replicável, incapaz de sustentar valor ao longo do tempo. Quando bem conduzida, ela organiza a trajetória do artista, evita contradições futuras e cria lastro para circulação segura da obra em diferentes contextos. A diferença entre uma e outra está no rigor do processo, não no formato do documento.


A due diligence amplia essa lógica. Trata-se de uma investigação prévia que antecede a aquisição ou a entrada da obra em determinado circuito. Ela envolve análise de procedência, histórico de propriedade, coerência entre obra e documentação, registros expositivos, vendas anteriores e eventuais restrições jurídicas. Não é um procedimento de desconfiança, é um exercício de responsabilidade compartilhada.


Em mercados mais consolidados, a due diligence é parte do protocolo básico. No Brasil, ainda encontra resistência, muitas vezes associada à ideia de burocracia desnecessária. Essa leitura ignora o custo real da informalidade. Obras sem procedência clara tendem a enfrentar problemas de revenda, contestação de autoria, dificuldade de entrada em acervos institucionais e barreiras em processos de exportação.


Para o colecionador, a ausência desses cuidados pode comprometer não apenas o investimento financeiro, mas a própria legitimidade do acervo. Para o artista, o risco é ainda mais sensível. Falhas na certificação fragilizam o percurso, geram ruídos entre séries, abrem margem para disputas futuras e enfraquecem a construção de valor ao longo do tempo.


Há também uma dimensão ética nesse debate. Certificar corretamente e realizar due diligence não é apenas proteger ativos, é estabelecer um compromisso com a verdade da obra. É reconhecer que o trabalho artístico não se esgota na imagem, mas envolve história, contexto, decisões e responsabilidades que acompanham sua circulação.


Outro ponto frequentemente negligenciado é o papel das galerias e consultores. Assumir processos de certificação e investigação prévia exige conhecimento, método e posicionamento. Não se trata de transferir responsabilidade ao artista ou ao comprador, mas de construir uma atuação profissional baseada em critérios claros e rastreáveis.


A profissionalização do mercado passa por esse amadurecimento. Um sistema que se sustenta apenas na confiança pessoal tende a se tornar opaco e vulnerável. Um sistema que incorpora documentação, investigação e critérios objetivos cria estabilidade, reduz conflitos e fortalece todos os seus agentes.


Certificação e due diligence não retiram a força da obra. Ao contrário, criam as condições para que ela circule com segurança, legitimidade e valor consistente. O debate não é sobre controle, mas sobre maturidade. E maturidade, no mercado de arte, deixou de ser uma escolha. Tornou-se uma exigência.





Boas práticas em certificação e registro de obras


Certificados de autenticidade e fichas curatoriais existem para validar a obra e organizar sua história material. Não são documentos comerciais. Por esse motivo, informações como nome do colecionador, valor de aquisição ou data de compra não devem constar nesses registros, que acompanham a obra ao longo de sua circulação.

Dados de propriedade pertencem a registros internos e confidenciais, mantidos por artistas, galerias ou consultores, e não devem ser tornados públicos. Essa separação preserva a integridade documental, protege o colecionador e evita conflitos futuros em processos de revenda, empréstimo, institucionalização ou reorganização de acervo.

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.

Assine nossa newsletter

Email enviado!

© 2016 por Marisa Melo

© Copyright
bottom of page