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Arte acessível e o novo perfil do colecionador

Série “Liturgia Campanária” 2019_óleo sobre tela - 60x80 cm
Série “Liturgia Campanária” 2019_óleo sobre tela - 60x80 cm

Falar de arte acessível costuma gerar desconfiança. Para alguns, a expressão soa como concessão estética. Para outros, como estratégia de mercado disfarçada. Nos últimos anos, porém, essa leitura começa a perder sustentação. O que se observa não é uma diluição da linguagem, mas uma reorganização dos critérios de entrada no mercado de arte, impulsionada por mudanças no perfil do colecionador, nos modos de circulação e na própria relação entre valor, trajetória e preço.


Relatórios recentes do The Art Market Report, publicado pela Art Basel em parceria com o UBS, indicam um crescimento consistente das vendas no mercado primário, especialmente em faixas de preço mais acessíveis. Esse dado não aponta para uma queda de qualidade, mas para um movimento estrutural de ampliação do colecionismo, com maior entrada de novos compradores e diversificação de perfis.


A ideia de que obras em valores mais baixos seriam, por definição, menos consistentes revela um equívoco. Preço não é sinônimo de qualidade, assim como valor simbólico não nasce apenas da raridade ou da validação institucional imediata. A socióloga Raymonde Moulin já apontava que o valor da obra de arte se constrói em camadas, envolvendo linguagem, contexto, circulação e reconhecimento progressivo. O mercado apenas formaliza, em números, um processo que é antes simbólico e social.


Há um novo colecionador em formação, mais atento à construção gradual de um acervo. Esse perfil, amplamente analisado em estudos e relatórios da Artsy, não começa comprando grandes nomes ou obras monumentais. Começa entendendo linguagem, acompanhando processos e criando repertório. Trabalhos sobre papel, fotografia, edições controladas, múltiplos e obras de menor escala passam a ocupar um lugar central nessa entrada, não como alternativa provisória, mas como escolha consciente.


Do lado do artista, essa mudança exige responsabilidade. Produzir obras em faixas de preço mais acessíveis não significa produzir trabalhos apressados ou secundários. Exige método, clareza de intenção e coerência com o conjunto da pesquisa. Quando essa coerência existe, a obra sustenta seu lugar independentemente do valor monetário inicial. Quando não existe, o mercado responde rapidamente. O tempo deixou de ser indulgente com improvisos.


Galerias que compreenderam esse movimento passaram a estruturar melhor suas ofertas. Em vez de inflar preços precocemente ou criar falsas escassezes, organizam trajetórias. Trabalham com séries bem definidas, escalas variadas, transparência de valores e acompanhamento real do desenvolvimento do artista. Essa prática, observada em análises do TEFAF Art Market Report, fortalece a confiança do colecionador e cria relações mais duradouras.


Outro ponto relevante é a revisão da lógica de exclusividade. Durante muito tempo, o mercado operou sob a premissa de que quanto mais restrito o acesso, maior o valor. Essa lógica começa a ser questionada. Não se trata de eliminar a singularidade, mas de compreender que ampliar o acesso ao colecionismo fortalece o sistema como um todo. Um mercado dependente de poucos compradores se fragiliza. Um mercado que forma novos colecionadores se sustenta.


Arte acessível, não é sinônimo de arte simplificada. É arte pensada para circular, para ser vista, adquirida e acompanhada ao longo do tempo. É também uma resposta à saturação de discursos inflados que não se traduzem em prática consistente. O colecionador contemporâneo prefere investir em trabalhos que permitem acompanhamento, compreensão de percurso e reconhecimento de escolhas. O preço inicial deixa de ser um ponto de chegada e passa a ser parte de um processo.


Há ainda um impacto importante no campo educativo. Obras em valores mais acessíveis permitem que novos públicos se relacionem com a arte de forma concreta. Relatórios da UNESCO e da OECD sobre economia criativa indicam que a ampliação do acesso cultural contribui para a formação de repertório, qualificação do olhar e fortalecimento de ecossistemas culturais mais sustentáveis.


É preciso afirmar com clareza: tornar a arte mais acessível não resolve, por si só, todas as questões estruturais do mercado. Não substitui curadoria, crítica, estudo ou compromisso com a linguagem. Mas cria condições mais honestas de entrada. E entrada qualificada é o que sustenta qualquer mercado a médio e longo prazo.


O desafio está em manter o rigor. Evitar que o termo “acessível” se torne apenas etiqueta vazia ou argumento de venda fácil. Arte acessível só se legitima quando nasce de escolhas conscientes, tanto do artista quanto da galeria. Quando há clareza de percurso, organização de produção e responsabilidade na precificação.


O que se desenha é um mercado menos performático e mais funcional. Menos interessado em promessas e mais atento a processos. Nesse cenário, obras de menor preço deixam de ocupar um lugar secundário. Passam a integrar o centro de uma estrutura que entende o colecionismo como construção, não como gesto isolado.


Arte acessível não diminui a arte. Ela testa sua capacidade de ganhar força sem o apoio imediato do impacto midiático. E esse teste, hoje, é um dos critérios mais exigentes do mercado contemporâneo.

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© 2016 por Marisa Melo

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