Valores econômicos e desempenho nos leilões: o que os números realmente dizem
- Marisa Melo

- há 3 dias
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Leitura crítica dos números, da recorrência e do que os leilões revelam sobre consistência e trajetória.

Falar de valores econômicos e desempenho nos leilões costuma induzir a uma leitura apressada, baseada apenas em recordes ou quedas pontuais. No entanto, o que os dados recentes revelam é um mercado em processo de reorganização, mais seletivo, menos expansivo e, sobretudo, mais atento à consistência das trajetórias do que à retórica dos grandes números.
Relatórios como o The Art Market Report, publicado pela Art Basel em parceria com o UBS, indicam que o mercado global de leilões passa por um período de ajuste estrutural, com retração em segmentos supervalorizados e maior estabilidade nas faixas intermediárias. Isso não representa um colapso, mas uma correção após anos de crescimento acelerado e concentração de valores em poucos nomes.
Os leilões seguem como termômetro econômico do mercado secundário, mas já não funcionam como única referência de valor. Altos resultados pontuais coexistem com quedas significativas em artistas inflados artificialmente, revelando que o mercado passou a punir trajetórias frágeis e a premiar consistência histórica. O dado mais relevante não está nos recordes isolados, mas na dispersão dos resultados.
Estudos complementares do TEFAF Art Market Report mostram que, embora o volume financeiro total dos leilões tenha oscilado nos últimos anos, há uma maior pulverização de vendas e um crescimento relativo de obras em faixas médias de preço. Esse movimento indica uma base de compradores mais ampla e menos dependente de apostas especulativas.
Outro ponto central é a mudança de comportamento dos colecionadores. Análises publicadas pela Artsy apontam que muitos compradores passaram a utilizar os leilões não apenas como espaço de aquisição, mas como ferramenta de observação. Acompanhar resultados tornou-se tão importante quanto comprar, especialmente para avaliar coerência de preços, estabilidade de carreira e resposta do mercado ao longo do tempo.
O desempenho econômico deixa de ser um fim e passa a funcionar como indicador de saúde de um percurso. Obras que mantêm resultados consistentes ao longo dos anos tendem a sustentar valor mesmo em períodos de retração. Já aquelas que dependem de picos pontuais revelam maior vulnerabilidade quando o mercado desacelera.
É importante destacar que o mercado de leilões não representa a totalidade do sistema da arte. Ele reflete dinâmicas específicas do mercado secundário e responde diretamente a ciclos econômicos globais, taxas de juros, liquidez e comportamento de grandes fortunas. Relatórios da OECD sobre economia criativa indicam que o setor cultural, como um todo, passa a operar com maior cautela em cenários de instabilidade econômica, privilegiando ativos com histórico comprovado.
O discurso de crescimento contínuo perde força. O que se observa é um mercado mais criterioso, que separa valor construído de valor inflado. Para artistas, galerias e colecionadores, isso exige leitura mais sofisticada dos números. Não basta acompanhar rankings anuais. É preciso observar recorrência, intervalos entre vendas, evolução de preços e coerência entre mercado primário e secundário.
Os leilões seguem relevantes, mas já não ditam sozinhos o destino de uma obra ou de uma carreira. Funcionam como um dos indicadores possíveis dentro de um sistema mais amplo, que inclui curadoria, crítica, circulação institucional e acompanhamento de trajetória. O valor econômico, quando isolado, diz pouco. Quando contextualizado, revela muito.
O momento atual pede menos euforia e mais análise. Menos cifras e mais atenção aos fundamentos. Em um mercado que se reorganiza, o desempenho nos leilões deixa de ser marco pontual e passa a ser leitura. E saber ler esses números, hoje, é uma das competências mais exigidas no sistema da arte contemporânea.




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