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marisa melo

O erro como forma

  • Foto do escritor: Marisa Melo
    Marisa Melo
  • 16 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 1 de jun.

Durante séculos, o erro foi associado à falha e à falta de técnica. A arte moderna e contemporânea transformou essa percepção ao reconhecer que muitos dos momentos decisivos da criação surgem de desvios, acidentes e acontecimentos que escapam ao controle do artista. Este ensaio investiga o erro como parte do processo artístico e como elemento capaz de abrir novas possibilidades para a forma.




Pintura abstrata com rostos e formas sobre fundo azul e preto, em traços vermelhos, amarelos e cinza, caótica e vibrante.
Os primeiros trabalhos de Pollock são uma emocionante jornada de estudos rápidos. “Figura Estenográfica” (c. 1942) remete a Picasso, Miró e André Masson. Museu de Arte Moderna de Nova York / Fundo Sr. e Sra. Walter Bareiss, 1980 / © 2015 Fundação Pollock-Krasner / Artists Rights Society (ARS), Nova York

A história da arte costuma ser contada como a história da intenção. O artista imagina uma obra, domina uma técnica, desenvolve um projeto e alcança um resultado. Vista dessa maneira, a criação parece um percurso organizado pela vontade e pelo controle. No entanto, basta observar com atenção os ateliês, os cadernos de estudo, os esboços e os processos de trabalho para perceber que a realidade é menos linear. Entre a primeira ideia e a obra concluída existe um caminho repleto de mudanças de direção, decisões inesperadas, impasses e descobertas. Grande parte da arte nasce justamente nos momentos em que algo não acontece como previsto. O erro ocupa um lugar importante nesse processo porque introduz uma possibilidade que não estava presente no plano inicial. Costumamos associá-lo à falha, ao desvio ou à interrupção de um objetivo, mas, na criação artística, sua função pode ser muito mais complexa. Uma cor reage de maneira inesperada, uma matéria produz um efeito diferente do imaginado, uma figura perde a proporção planejada ou uma imagem surge durante o trabalho e altera completamente o rumo da obra. Em muitos casos, aquilo que inicialmente parece um problema acaba abrindo caminhos que dificilmente seriam encontrados por meio da execução de um projeto previamente estabelecido.


Durante séculos, o erro esteve associado à falta de habilidade. A tradição acadêmica valorizava precisão, equilíbrio, perspectiva, acabamento e domínio técnico. O artista era frequentemente avaliado por sua capacidade de aproximar-se de determinados padrões de excelência. A partir do final do século XIX, essa lógica começou a mudar. O interesse da arte deslocou-se da reprodução fiel do mundo para a experiência da percepção, para a singularidade do olhar e para os efeitos produzidos pelo próprio processo de trabalho. Aquilo que antes seria corrigido passou a ser observado. Aquilo que era entendido como falha começou a revelar novas possibilidades formais. Claude Monet não procurava registrar a paisagem com exatidão. As mudanças da luz alteravam continuamente aquilo que via, obrigando a pintura a lidar com instabilidade e variação. Pouco tempo depois, Paul Cézanne transformaria a própria incerteza da observação em método de trabalho. Em suas telas, a forma parece permanecer em construção. O resultado não é a representação de um mundo concluído, mas o registro de um olhar que continua investigando aquilo que vê.


O século XX ampliou ainda mais essa transformação. Os surrealistas passaram a valorizar associações inesperadas, procedimentos automáticos e encontros produzidos pelo acaso. Jackson Pollock abandonou o cavalete tradicional e passou a trabalhar diretamente sobre a superfície da tela, permitindo que derramamentos, respingos e movimentos corporais participassem ativamente da construção da obra. John Cage incorporou operações aleatórias à composição musical e colocou em discussão a própria ideia de controle absoluto do artista sobre o resultado final. Em diferentes linguagens, artistas passaram a reconhecer que a criação não depende apenas da intenção. Ela também depende da capacidade de responder ao que surge durante o percurso. Essa mudança produziu uma consequência importante. O erro deixou de ser entendido apenas como algo que deveria ser eliminado. Em muitos casos, passou a ser compreendido como uma informação. Quando um trabalho se afasta daquilo que havia sido planejado, ele revela algo sobre a matéria, sobre o processo ou sobre o próprio artista. A pergunta deixa de ser “como corrigir o erro?” e passa a ser “o que esse desvio tornou visível?”.


Essa perspectiva continua presente na produção contemporânea. Muitos artistas trabalham sem conhecer completamente o resultado final da obra. O processo torna-se um campo de investigação no qual materiais, imagens e procedimentos permanecem abertos à transformação. Tecnologias produzem resultados inesperados, superfícies reagem de maneiras imprevisíveis, camadas acumulam efeitos que não estavam previstos no projeto inicial. Em vez de interromper o trabalho para restaurar uma ideia original, muitos artistas incorporam essas mudanças ao desenvolvimento da obra. O percurso passa a ter a mesma importância que o resultado. Essa relação também ajuda a compreender por que tantos artistas mantêm cadernos, estudos, maquetes e registros de processo. Eles sabem que a criação raramente acontece de forma linear. Uma tentativa abandonada pode tornar-se o ponto de partida de uma pesquisa futura. Uma solução encontrada por acaso pode transformar-se no centro de um trabalho ainda inexistente. Aquilo que parecia um impasse muitas vezes revela uma possibilidade que ainda não havia sido percebida.


Existe uma diferença importante entre erro e descuido. O erro que participa da criação não nasce da negligência, mas da experimentação. Ele surge quando o artista aceita trabalhar em uma zona onde nem todas as respostas estão definidas antecipadamente. Criar implica assumir esse risco. Significa avançar sem garantia de resultado, permitindo que a obra revele aspectos que ainda não eram conhecidos. Talvez por isso o erro ocupe um lugar tão importante na história da arte. Ele introduz dúvida em sistemas excessivamente fechados, e impede que o processo criativo se transforme em repetição de fórmulas dominadas. A arte não avança apenas pela confirmação do que já sabemos fazer. Ela cresce quando uma expectativa é interrompida, quando uma solução deixa de funcionar ou quando uma imagem surge onde antes existia apenas uma intenção. Em muitos dos momentos decisivos da criação, o erro não aparece como obstáculo. Aparece como forma.

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