Portfólio em movimento | Arte & Filosofia
- Marisa Melo

- há 5 dias
- 2 min de leitura

Há perguntas que retornam. Encontro algumas nas consultorias, outras diante de uma exposição, outras nos livros que continuo relendo muito depois da última página. Entre elas, uma permanece aberta: o que continua escapando a um portfólio, mesmo quando cada série já encontra seu lugar dentro da pesquisa? É dessa pergunta que nasce esta reflexão.
Um portfólio corresponde a um recorte. A trajetória que lhe dá forma excede o documento que a apresenta. Há uma defasagem entre o que está no papel e o que aconteceu no ateliê. Mudanças de direção, séries interrompidas e investigações retomadas dificilmente aparecem na edição. Certas conexões só se tornam legíveis quando o material é revisitado. As obras selecionadas apresentam uma leitura, enquanto o trabalho continua produzindo sentidos que nenhuma versão consegue reunir por completo.
Aby Warburg, historiador da arte alemão que viveu entre 1866 e 1929, dedicou grande parte de sua vida a investigar como as imagens sobrevivem ao tempo e continuam produzindo relações em contextos diferentes daqueles em que foram criadas. Dessa investigação nasceu o Bilderatlas Mnemosyne. Reproduções de pinturas, fotografias e documentos eram constantemente reorganizados para que novos vínculos surgissem. Warburg não estava arquivando. Estava atento ao que se formava entre os elementos quando postos em contato, as ressonâncias entre obras de períodos distintos, os gestos que retornam. O atlas permaneceu inacabado porque seu propósito consistia em manter o pensamento em movimento. Concluí-lo teria significado fixar o que precisava permanecer aberto.

Gilles Deleuze, filósofo francês cujo pensamento atravessou estética, política e teoria do conhecimento, desloca essa questão ao propor o rizoma como uma estrutura que rompe com a lógica da sequência. Ao contrário da árvore, que cresce a partir de uma raiz central e se organiza hierarquicamente, o rizoma se expande simultaneamente em múltiplas direções. As ramificações permanecem abertas e reconfiguram continuamente o que foi produzido à medida que novos elementos entram em contato. Algumas pesquisas crescem dessa maneira. Uma série modifica a leitura de outra produzida em outra fase. E certas questões reaparecem quando uma nova etapa lhes oferece outra possibilidade.
Nas consultorias, o material que um artista traz raramente coincide com o que emerge na conversa. Quando começa a falar sobre a própria pesquisa, surgem as imagens que ficaram fora, os experimentos sem nome, as séries abandonadas antes de encontrar forma. Pergunto sobre elas. A conversa muda de registro. O que foi deixado de lado por parecer deslocado frequentemente revela conexões que a edição não conseguia mostrar, e é nesse material que a investigação muitas vezes se mostra mais inteira.
Os portfólios que chegam até mim revelam uma mudança importante. Muitos artistas já distribuem sua produção por núcleos de investigação, cada um voltado para um problema específico. Ainda assim, algo escapa entre um recorte e outro: as mudanças de direção, os pontos de inflexão e as fases que resistem raramente aparecem no que chega ao mercado. É nesse espaço que a trajetória aparece com maior nitidez. Cada nova edição desloca o sentido do que foi reunido e oferece outra possibilidade de compreender o que o trabalho foi construindo. Talvez o interesse do portfólio em movimento esteja justamente naquilo que continua surgindo entre as obras, e que nenhuma versão consegue fixar.




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