Desconstruindo a teoria das cores
- Marisa Melo

- 24 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
A passagem do pigmento para a luz transformou a experiência da cor e modificou referências que orientaram artistas por séculos. O pensamento de Vilém Flusser ajuda a compreender como essa mudança continua repercutindo na produção contemporânea.

Durante grande parte da história da arte, a cor esteve ligada à matéria. Pigmentos, tintas, afrescos, tecidos e papéis eram os meios pelos quais ela se tornava visível. Hoje, grande parte daquilo que observamos diariamente aparece em telas. Antes de segurar um pincel, uma criança já passou inúmeras horas diante de celulares, computadores, televisões e painéis digitais. Seu repertório cromático foi construído por imagens exibidas em telas que ampliam brilho, contraste e saturação. A mudança parece tecnológica, mas alcança uma questão mais ampla: a maneira como aprendemos a ver.
Ao longo das décadas de 1970 e 1980, o filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser dedicou parte importante de sua obra a investigar os efeitos produzidos pelas novas tecnologias da imagem. Sua reflexão permanece atual porque desloca a atenção dos aparelhos para a percepção. Novos instrumentos não modificam apenas aquilo que vemos, modificam também a forma como construímos nossa relação com as imagens. A observação ajuda a formular uma pergunta relevante para a arte contemporânea: o que acontece com a cor quando ela deixa de depender apenas dos pigmentos e passa a ser produzida pela luz? A questão alcança a pintura, a fotografia, o design, a publicidade e a própria vida cotidiana. Vivemos cercados por imagens numa escala que nenhum artista do século XIX poderia imaginar.
A teoria das cores foi construída em condições muito diferentes das atuais. Ao longo dos séculos, artistas e teóricos procuraram compreender como determinadas combinações produzem efeitos perceptivos e emocionais. Essas investigações foram desenvolvidas num momento em que pigmentos, tintas e superfícies físicas definiam os limites da imagem. O problema é que esse horizonte já não corresponde integralmente ao presente. Hoje convivemos com contrastes amplificados, superfícies retroiluminadas e conteúdos produzidos para disputar atenção de forma permanente. As condições que orientaram as teorias clássicas não desapareceram, Passaram a coexistir com outra realidade visual.
A pintura absorveu essa mudança. Durante séculos, a discussão da cor esteve associada à harmonia, ao equilíbrio e à organização da composição. Cores fluorescentes, tons artificiais e combinações antes consideradas excessivas passaram a fazer parte do cotidiano. Algumas pinturas incorporam diretamente o brilho e a saturação característicos das imagens digitais. Outras desenvolvem superfícies opacas, tonalidades abafadas e pigmentos quebrados que respondem ao excesso visual produzido pelas telas. Em ambos os casos, a cor deixa de atuar apenas como elemento organizador da composição e passa a registrar mudanças culturais mais amplas.
A discussão, portanto, já não pode ser reduzida à escolha de determinadas paletas ou à aplicação de regras de harmonia. A passagem do pigmento para a luz modificou a forma como a cor circula, é observada e incorporada à produção artística. Suas transformações registram mudanças na construção das imagens, nos processos de percepção e na cultura visual de cada época.



Comentários