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O Contemporâneo e o Anacronismo

Foto do escritor: Marisa Melo
Marisa Melo
10 de out. de 2025
2 min de leitura


O anacronismo pode explicar por que determinadas pinturas continuam contemporâneas muito além do período em que foram produzidas. Este ensaio parte do pensamento de Giorgio Agamben e da obra de Giorgio de Chirico para discutir essa hipótese.




Praça surrealista com torre listrada, fonte com estátua, dois homens e longas sombras entre edifícios; assinatura G de Chirico.
Giorgio-de-Chirico-The Mystery and Melancholy of a Street (1914)

Grande parte da produção artística é compreendida a partir do período em que foi realizada. Movimentos, estilos e contextos históricos continuam fundamentais para situar uma obra dentro da história da arte. Esse critério, nem sempre explica por que determinadas pinturas atravessam décadas ou séculos, enquanto outras permanecem restritas ao momento em que surgiram. Muitas reúnem referências de épocas diferentes sem perder unidade. O anacronismo ajuda a compreender por que algumas delas preservam sua força muito além de sua origem.



O filósofo italiano Giorgio Agamben, reconhecido por suas reflexões sobre história, política e estética, desenvolve essa questão em O que é o contemporâneo?. Para ele, compreender uma época exige certa distância. Quem permanece inteiramente imerso no presente dificilmente percebe aquilo que ele próprio encobre. Essa reflexão permite pensar o anacronismo para além de um desvio cronológico. Na arte, ele pode ampliar a permanência de uma obra sem anulá-la como expressão do período em que foi criada.





Pintura figurativa com arquitetura geométrica, duas figuras humanas em primeiro plano e um barco à vela sob céu azul esverdeado.
Giorgio-de-Chirico-Lenigma-dellarrivo-e-del-pomeriggio-1911


A pintura de Giorgio de Chirico oferece um exemplo preciso dessa ideia. Em L'enigma dell'arrivo e del pomeriggio, de 1911, edifícios de inspiração clássica, sombras prolongadas, perspectivas rigorosas e figuras humanas em escala reduzida compõem um espaço que resiste a qualquer localização histórica precisa. A arquitetura não conduz a pintura para a Antiguidade, assim como a composição também não a identifica plenamente com o início do século XX. Cada elemento pertence a um repertório próprio, sem que qualquer deles determine sozinho a compreensão da obra. Essa combinação impede que a pintura seja explicada apenas pelo contexto em que foi realizada.



Ao recorrer à arquitetura clássica, De Chirico não procura reconstruir o passado. Utiliza essas formas para construir uma pintura que não se esgota no período em que foi realizada. O anacronismo deixa de indicar um deslocamento histórico e passa a integrar a própria linguagem da obra. Se, como propõe Agamben, compreender uma época exige distância, o anacronismo oferece à pintura essa possibilidade. Talvez seja essa uma das razões pelas quais determinadas obras permanecem contemporâneas muito depois de sua criação.


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