top of page

O que fica quando a obra desaparece

O que uma obra deixa quando não é feita para durar

Espaço amplo e vazio com aparência industrial, piso de concreto marcado, paredes brancas altas e janelas laterais que deixam entrar luz natural, com alguns objetos e estruturas expositivas ao fundo, sugerindo um ambiente em preparação para montagem de exposição.


Em 1971, Joseph Beuys entrou num quarto com um coiote e ficou lá por três dias. Sem tela, sem escultura, sem nada que pudesse ser embalado e levado para uma coleção. Havia uma situação, um tempo compartilhado entre um homem e um animal, e uma ideia que esse encontro carregava. Quando terminou, a obra acabou. O que restou foi a memória de quem esteve lá, algumas fotografias e um relato que se transformou em referência obrigatória na história da arte contemporânea.


Essa é a natureza da arte efêmera: ela existe para desaparecer.

Instalações que são desmontadas após a exposição, performances que acontecem uma única vez, intervenções urbanas que a chuva apaga, obras feitas de gelo, de areia, de flores. O artista que escolhe trabalhar com esses materiais e formatos sabe, desde o início, que não está construindo algo para durar. Está construindo algo para acontecer.

A pergunta que esse tipo de produção levanta é incômoda para quem pensa arte a partir do objeto: se a obra desaparece, o que ela deixa?


A resposta está na experiência de quem presenciou. Uma instalação que ocupou um galpão inteiro, que alterou a percepção do espaço, que fez o visitante sentir algo que não conseguia nomear, essa instalação não deixa de existir quando é desmontada. Ela passa a existir de outro modo, na memória de quem esteve ali, nas conversas que gerou, no modo como alterou a forma de ver de quem a viveu. O desaparecimento físico não apaga o impacto.

Isso tem consequências diretas para o mercado de arte, e é importante nomeá-las sem romantismo.


A arte efêmera apresenta um desafio real para o colecionismo tradicional. Não é possível pendurar uma performance na parede. Não é possível guardar numa reserva técnica uma instalação feita de sal que se dissolve com a umidade. O que o colecionador adquire, quando adquire esse tipo de trabalho, é o direito de reconstituir a obra, os materiais e as instruções para que ela aconteça novamente, em outro espaço e em outro tempo. O que se compra não é um objeto. É uma ideia com protocolo de execução.


Esse modelo mudou a relação entre artista, obra e colecionador. O artista continua sendo o autor, mesmo que não esteja presente na reconstituição. A obra continua sendo a mesma, mesmo que os materiais sejam novos. A identidade da obra não está na matéria. Está no conceito que a orienta.


Alguns dos trabalhos mais valiosos do mercado internacional funcionam exatamente assim. As instalações de Felix Gonzalez-Torres, por exemplo, são feitas de balas de açúcar ou folhas de papel empilhadas no chão. O visitante pode pegar uma bala, levar para casa, comer. A pilha diminui. E é reposta. A obra nunca é a mesma e é sempre a mesma. O que Gonzalez-Torres propôs não foi um objeto permanente, foi uma situação que se renova cada vez que é ativada.


No Brasil, artistas como Lygia Clark e Hélio Oiticica construíram parte fundamental de suas trajetórias a partir dessa lógica. As Relíquias Tropicais de Oiticica, os Objetos Relacionais de Lygia Clark, obras que precisavam do corpo do outro para existir, que só se completavam no contato, no uso, na experiência compartilhada. Essas obras não podiam ser apenas observadas. Precisavam ser vividas. E essa exigência de presença é exatamente o que as tornou irreplicáveis por qualquer tecnologia de reprodução.


O legado da arte efêmera não está no objeto preservado. Está na documentação, nos registros fotográficos e em vídeo, nos relatos, nos estudos que essas obras geraram. Está também na forma como influenciaram gerações de artistas que vieram depois. Uma performance que aconteceu uma única vez em 1969 pode ter moldado o modo de pensar de um artista que nasceu em 1990 e que jamais teve acesso à obra original, apenas ao seu rastro.

Isso coloca uma questão importante para quem trabalha com arte hoje: o que você está deixando além do objeto?


Um artista que produz apenas para o mercado de objetos colecionáveis está respondendo a uma demanda legítima. Mas um artista que pensa também no que sua obra provoca, no que ela ativa em quem a encontra, está construindo um tipo diferente de permanência. Não a permanência do material, mas a permanência do sentido.


A arte que desaparece ensina algo que a arte que dura nem sempre consegue: que o valor de uma obra não está na sua sobrevivência física. Está na qualidade da experiência que ela foi capaz de gerar enquanto existiu.

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.

Assine nossa newsletter

Email enviado!

© 2016 por Marisa Melo

© Copyright
bottom of page