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Sertão como identidade

O que significa pertencer a um lugar que o mundo ainda não aprendeu a ver



Paisagem do sertão nordestino com solo seco e árido, um mandacaru ao lado de um tronco cortado em primeiro plano, vegetação esparsa ao fundo e céu azul com nuvens dispersas.
Sertão da Paraíba

A invisibilidade do sertão é quase um paradoxo. Por muitos anos foi apresentado e reduzido, apenas como figura de pobreza, escassez, isolamento, fome e seca. Muita seca. O sol escaldante, sua marca mais conhecida, foi um sinal por muito tempo causador de grandes problemas, por ser o principal vilão de tantas dificuldades enfrentadas pelos nordestinos. Onde o povo resistia firme diante do padecimento da dor e da sede, que parecia nunca ter fim, ainda tinha a crença enraizada da injustiça de um lugar esquecido e abandonado até pelas chuvas. Entre as estradas de chão batido e a poeira infindável, sustentavam-se as ideias, de que ali, era necessário sobreviver à própria vida sofrida, limitada e imposta. Esse era o triste padrão atribuído ao personagem chamado sertão, uma narrativa exaustivamente repetida por décadas, onde o retrato daquela situação perpetuava, como se só aquilo fosse digno de ser mostrado. E o sertão, genialmente sábio, enfrentava os seus desafios com força, talento e coragem. Aquela terra seca sempre existiu, porém é incontestavelmente rica, impar e magnífica. A vocação do seu povo sempre esteve fincada como estaca naquele solo castigado do semiárido, considerado tantas vezes como infértil, fruto do desconhecimento e da ignorância de muitos.


 O sertão se reinventa, se transforma, muda de cor e se posiciona, mesmo sem garantias, mas sua riqueza criativa insiste em existir, caminhando com passos fortes e firmes, destemido e armado por uma certeza incondicional de vitória. Contrariando a sua própria realidade que lhe foi associada, o sertão nunca foi um lugar estagnado, vazio e sem direção, brilho ou vida, principalmente em se tratando de cultura. Entender essa realidade se torna tão complexa, quanto enxergar o que verdadeiramente é: um celeiro de talentos, muitas vezes camuflados pelas dificuldades impostas e suas consequências que delas se desdobram. Crescer em uma terra onde a vida nunca foi fácil, é experimentar a identidade da resistência, persistência, resiliência e da criatividade, que sedimentam à sua cultura forte e desbravadora. É se manter de pé, onde tudo demonstra desistência, mas o corpo e a voz do sertanejo custam a aceitar derrotas. É desenvolver a capacidade de fazer o muito com o pouco ou com o nada. Aqui, a fé entra em conflito o tempo inteiro com a realidade, mas jamais se anula. A possibilidade de preparar a terra, plantar os grãos e esperar com uma crença inabalável que a chuva vai chegar, para assim as sementes germinarem, revela a produção extraordinária de uma colheita feita pelas palavras, tintas, pensamentos, danças, sons, cordas de violão e tantas outras expressões culturais enraizadas nesse solo. No sertão ninguém planta com certeza, mas com uma esperança cega e sem medida e com um coração transbordando de gratidão do que há por vir. E porque não dizer que da mesma forma acontece na cultura: representativa, onde transforma escassez em abundância de riqueza criativa e de forma contagiosa, se espalhando rapidamente por onde passa. Sua maior representação está no permanecer.


Permanecer é continuar resistindo, existindo, criando, reinventando e significando. A expressão cultural nordestina é surpreende, repleta de simbologia. As cores são intensas; as festas, barulhentas, o povo sempre vibrante e a comida, uma fartura sem igual, além de muito saborosa e também contam as suas histórias. O sertanejo é fiel as origens e tradições, como raízes profundas de uma árvore centenária, quase impossível de arrancar sem deixar lembranças. A inspiração do sertanejo está nas coisas mais simples, como num contemplar de um pôr do sol, uma brisa sentida na face, no cheiro da terra molhada, na conversa boa com os conhecidos e na valorização no que se tem, do pouco ao muito. Não há espaço para dúvidas, mas para resoluções, chegando até o improviso. Nosso sotaque é forte nas linhas dos cordéis e repentes improvisados, nas entrelinhas das alegrias, dos sorrisos e da humanidade que nos define. Nosso povo é humano e solidário.   


Mas os desafios são reais, concretos, incompreendidos, esquecidos e ignorados. É como viver marcado sempre pela falta d’água: esquecido pela ausência de oportunidade, progresso e ainda julgado pelos estereótipos. Mas esse lugar aprendeu a viver e a resistir incansavelmente, dia após dia, como as raízes do mandacaru: não carece de abundância para existir na grandeza. Modificar a escassez em estratégia é a melhor visão do sertanejo! E ele faz isso muito bem. Reconhecer o essencial, adaptar-se com inteligência e transformar sem jamais se render. Um território de grande simbologia, onde a ausência é anunciada, por um detalhe quase esquecido: o excesso de pluralidade contadas em memórias vivas, histórias, cultura, experiências, espiritualidade, belezas e pertencimento. É um ato poético, um manifesto, uma sabedoria, com firmeza de dignidade construídas por poeira, sol, humor e invenção.


No entanto, as pessoas não aprenderam a ver o sertão em sua totalidade. Enxergam pelas lentes externas de quem ainda não sabe aceitar o óbvio. Estão presas, fechadas a uma crença generalizada, idealizada em uma construção social fortalecida pelos preconceitos de narrativas limitadas a exclusão. De quem faz questão de reduzir o sertão às situações climáticas e suas consequências, sem ao menos perceber a enorme abundância que se mostra em sua volta. E essas são narrativas equivocadas, que carecem ser desconstruídas, pois infelizmente, tentam apagar e lançar no esquecimento o brilho do sertão. Não foi ensinado ao restante do país a relevância de quem nasce da escassez, e mesmo assim, se torna forte, profundo e essencial. Com sede de conhecimento e de saber, se faz fonte inesgotável de inquietação, sonho e conquistas. Quem cresce no sertão sabe, desde cedo, que a vida não é lhe entregue pronta e sem dificuldades, mas ela é construída, alinhada e se multiplica em todos os sentidos. Como Euclides da Cunha trata em seu livro Os sertões, que “o sertanejo é, antes de tudo um forte.” E é nesse cenário, que o sertanejo se faz forte realmente, cresce e aprende a não desprezar as pedras no meio do caminho. Ignorar as grandes e talentosas potencialidades do sertão nordestino, é o mesmo que reduzir ao pó uma construção cultural traduzida em identidade, verdade e afirmação. Mas pertencer a essa identidade sertaneja é ser movimento constante, alegria, integridade, reconhecimento na dureza e intensidade.


Nunca ausência. Jamais. É reconhecer que a resistência vem da busca incessante da persistência, do ânimo, da crença, que não se limita as adversidades. Que as histórias resistem ao tempo, com profundidade e coragem para serem reinventadas.


Então, pertencer a um lugar que o mundo ainda não enxerga é carregar dentro de si uma força invisível e inabalável, como uma fé sólida, acreditando que não é preciso depender das lentes dos outros para esse olhar possa existir, tornar-se inesquecível, digno e grandioso.

 

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© 2016 por Marisa Melo

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