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MANIFESTO DO ARTISTA ERUDITO

 

Um chamado à autonomia criativa, e ao uso da arte como instrumento de transformação, reconstruindo culturas, incentivando a renovação poética, em uma nova sociedade.

                                                           



Pintura de Lenny Hipólito representando o conceito de artista erudito, obra construída a partir de pesquisa, estudo e linguagem pictórica estruturada.
Lenny hipólito - Vibrações II_óleo sobre tela

A arte desenvolvida em uma consciência erudita, se apresenta com mais profundidade e verdade, como uma arquitetura do pensamento manifestada em matéria. Estou compondo estas páginas, não somente como quem pega no pincel delicadamente possuído com tintas de tons diversos, mas como quem entende e reflete, que a tela, não é o princípio, mas o final de um longo e interessante processo de estudos, pesquisas, investigações diversas com pensamentos críticos aplicados principalmente à filosofia com reverência, denotando em respeito com inclinação acentuada em admiração, perpetuando uma homenagem sagrada à criação.


Presenciamos nesse tempo em que estamos vivendo, imagens de obras decorativas construídas velozmente, como se fosse em um processo descartável, tentando vencer e silenciar o que é erudito, que nasce para se eternizar. Em contraposição, o mercado de arte de alto ticket, como grandes galerias, museus, os amantes da arte, colecionadores e investidores, nunca se interessarão pelo que decora uma parede e combina com uma almofada ou adorno qualquer, eles buscam efetivamente e irredutivelmente o que sustenta existências, passando de geração em geração.


Neste manifesto, convido você a refletir, e a se transpor desse patamar de criar o artístico comumente para abraçar, criar vínculos profícuos com a soberania do erudismo. Aconselho ainda, que observemos as nossas criações, não como produtos comuns, porém darmos mais sentido, como linhagens que fazem jus a um tributo. O artista deve se debruçar sobre a sua própria obra com autoridade, permanência de valor e sabedoria para honrá-la, amá-la, se respaldando em todo o tempo investido em estudos, levantamentos diversos, referências bibliográficas, referências na vida, com uma narrativa entusiasmada e segura, tornando-se um personagem principal, um protagonista, e jamais um trabalhador efêmero da estética. Esta é a diferença de quem sabe de onde veio e para onde a sua arte está sendo direcionada, e consolidada pela erudição.  

  

Com todo esse respaldo, o artista se potencializa e se torna o primeiro curador de si mesmo. E nesse caso de se emocionar, fazer um tributo à própria obra, é um registro justo, histórico e divino. Ao documentar a série Santuário Íntimo, que apresento diversas obras com figuras femininas, por exemplo, nesse caso, eu apenas não estou somente catalogando obras de arte diversas, em verdade, estou manifestando e reconhecendo a genealogia, a ascendência de um sentimento, onde a sabedoria da minha alma, retira a obra do campo do imprevisto e a instala no campo da intenção, com propósito e vontade. E como me sinto feliz! Uma obra de Arte é uma Divindade.


Grande maioria dos artistas não são encorajados para exercerem a auto-homenagem, porém, é por meio desse atributo que o público e as pessoas em geral, manifestam respeito ao processo. Ao homenagearmos as nossas exclusivas criações, estamos reconhecendo o valor de cada hora trabalhada no silêncio contido até nos ínfimos fragmentos da nossa alma, as referências depois de infinitas pesquisas buscadas nos nossos mestres de todos os tempos, que os reverenciamos com tanto amor e gratidão, e a coragem de materializar o invisível com uma genialidade criativa imensurável.


E é com essa bagagem e manifesto que a fronteira entre a obra decorativa e a obra erudita, se diferenciam, pois, a decorativa se fragmenta como algo sem estrutura, e se perde, e a erudita ganha força, com o peso do seu intelecto e da sua soberania. É importante ter coragem, visão, capacidade perceptiva para definir a linha que distingue o objeto decorativo da obra de pensamento que é digna e muito bem estruturada. Ao passo que a primeira obra preenche espaços vazios em uma parede, seguramente sem nenhuma outra função, e a obra erudita, preenche lacunas no coração, na alma e no tempo que buscam por vibrações que nos orienta em transformações. Sempre o mercado de arte há de valorizar o intelecto avançado, a erudição, incidentes sobre os processos criativos até os resultados finais, porque há substância disponibilizada, há conteúdo, há história, há essência. Dessa forma, quero sugerir a todos os artistas, indubitavelmente, que somente toquem no pincel depois de ter investido longos tempos e a mente ter percorrido diversas filosofias, histórias, experiências dos mestres, vários livros. Certamente o que dá crédito às pinceladas são as pesquisas, os estudos. Nenhum colecionador, nenhuma galeria e museus investem em tintas sobre a tela. Pois, todos eles sempre adquirirão um repertório, uma bagagem intelectual e uma interação cultural, que de fato a obra se respalda e se sustenta. A erudição é soberana, é o que garante a obra viva, presente solenemente ao decorrer dos séculos.


Enfatizo que, sempre a pesquisa será a estrutura de sustentação do artista. O estudo sempre gerará vantagens competitivas, a estética somente se garantirá através dessa ciência. Por exemplo, quando estudo em Monet, a serenidade para analisar a luz, ou em Klimt o simbolismo do ouro aplicado poeticamente em suas obras, não estou à procura da plástica, o meu principal objetivo, é construir autoridade, identidade definida com técnica e filosofia, com amor à sabedoria da arte. O artista erudito manifesta seu conhecimento com maestria, dominando toda a narrativa referente às suas criações.  A exigência exercida do artista erudito é elevada e inegociável, por isso, o rigor supera o amadorismo, algo que se despedaça com facilidade. Manter o diferencial competitivo e com segurança saber expor as suas fontes, verbalizando o motivo das suas escolhas cromáticas e todo o contexto conceptivo da obra, garante um sistema que a obra sempre esteja à frente do tempo, independentemente do viés de modas sazonais. O investidor sempre voltará a sua atenção e focará o seu desejo de aquisição para obras que têm como carimbo de garantia o erudismo. Somente assim, ele se assegura que está diante de algo inextinguível, perpétuo.


Ressalto que, o artista erudito naturalmente ele mantém obrigatoriamente um compromisso além da beleza, pois tem que manter acesa a chama que ilumina uma sociedade exausta de futilidades. Em um universo onde todas as mudanças ocorrem em uma velocidade indizível, nós artistas precisamos oferecer as mais belas reflexões, a calmaria, a quietude, o profundo tocante à parte mais bela da alma de cada apreciador, de cada ser humano.

 

Admitir esse papel transformador de uma sociedade contemporânea exige genuinidade, veracidade e atitude proativa. Manifestar tributos às próprias obras, como Lenny Hipólito (eu), é um jeito de se revelar a todos, dizendo: - essa coleção de obras tem autoridade e poder, pois elas são dotadas de um conteúdo absolutamente verdadeiro, pesquisado, estudado, criteriosamente -. O artista deve se assumir como arquiteto das suas próprias criações, com erudismo, e desempenhar como alguém que saiba provocar o pensar, através do que é belo e tocante como uma sinfonia, que nos propõe reflexões intensas. 


Um modelo de manifesto como este, nos proporciona segurança de posicionamento, como uma proteção, um santuário. Aquela conhecida -síndrome do impostor -, não entra em discussão, quando o artista se posiciona com método, pesquisando, registrando e dignificando a sua trajetória, a sua narrativa. A sua apresentação ao mundo, é como um artista erudito, autor da sua história que entrega propostas consolidadas e eternizadas para transformações de vidas, e jamais será um simples vendedor de quadros.  O colecionador de arte, o investidor, entendem que o tributo se traduz como segurança de uma comunicação autêntica, uma consagração, um altar absoluto em confiança. É por isso, que ele se sente seguro, quando faz investimentos, adquirindo obras de um artista, que cuida da sua própria arte, fazendo reverência, como se fosse a um museu. Você colhe exatamente o que planta. Quando você valoriza o que você faz, o mundo te dará uma resposta igualmente você implantou em seu método, e não encontrará outra escolha, a não ser te valorizar e te enaltecer também.


E nessa jornada intrínseca de alto valor técnico e formal, que se caracteriza por uma densa camada de valores, entendemos que a soberania erudita, não se trata de um enfeite da nossa capacidade mental, do nosso intelecto, mas é a estrutura sólida de uma arte que tem como intenção o sobreviver ao seu autor. Fico muito animada, com essa trajetória desenhada e executada com coragem e atitude inusitada, pois acredito que o artista que tem incondicionalmente a iniciativa de manter as suas pesquisas, que referencia e dedica tributo à sua própria obra, o seu manifesto não é apenas de percorrer com o pincel em uma tela, é escrever e registrar a sua própria estrutura imortal, ou seja, o seu legado como destino irrevogável.

 

 Consequentemente a história se deleita à frente da consistência, do encorajamento, da autenticidade, da precisão rigorosa e da confiança de quem entende e sente que cada pincelada é a reverberação do tempo secular acumulado de conhecimento. Assim cada tela se configura em um santuário e cada tributo ou manifestação em uma oração. Que nós sejamos verdadeiramente artistas eruditos, arquitetos de um novo tempo abundante de significação, na qual o encanto e a graça nunca se direcionam separados da veracidade dos fatos e do estudo proeminente que destaca o sentido ilustre da arte. Afinal, para a arte cumprir o seu papel transformador em uma sociedade, primeiramente ela transforma o artista em um maestro da sua peculiar narrativa.


Finalizo aqui, reconhecendo a minha missão, estimulando-o a reconhecer a sua missão magnânima também. Desse modo quando a forma for materializada pelo pensamento associada à sua técnica, o que será registrado é a gênese de um legado, e jamais de um mero quadro. Permita o seu legado brilhar e dar sentido à sua história com erudição, elegância e alma.



 

Lenny Hipólito

Instagram: @lennyhipolito.art

 

 

 

 

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