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A Coragem de ser quem é

  • Foto do escritor: Andrea Mariano
    Andrea Mariano
  • há 4 horas
  • 6 min de leitura

Andrea Mariano reflete sobre a coragem necessária para preservar a identidade artística diante das expectativas, das críticas e das escolhas que acompanham o processo criativo.



Retrato a óleo de uma mulher em perfil, com cabelo escuro, sobre fundo escuro e sombrio.

 


Aprendemos desde muito cedo que agradar é muito mais simples do que contrariar as expectativas das pessoas. E por esse motivo, que seguimos nesse percurso mais fácil, para sermos aceitos no meio em que vivemos. Mas o que a priori é considerado descomplicado, pode causar grandes transtornos no futuro. Perder completamente a identidade é uma prisão sem grades e suas consequências podem se arrastar por toda a vida. A decisão de sermos verdadeiramente quem somos exige mais que uma vontade, exige coragem. É ela que nos faz crer que o impossível pode acontecer a partir das ideias mais simples, mais originais e repletas de personalidade. Mas não imagine que será uma escolha agradável, pois emergir significa ter força para enfrentar as águas mais profundas, até conseguir chegar à superfície.


 Todo trabalho realizado com amor, seriedade e competência é indubitavelmente mais severo com quem se propõe, por diversas correntes. A princípio, todas as suas energias e o seu tempo são praticamente colocados em direção a concretização do objetivo, para se alcançar a meta e a posteriori, o resultado tão almejado. E se o feito for voltado para uma comunidade, seja ela intelectual ou não, esteja preparado para ser colocado a prova. Depois de todo o arcabouço preparado, cuidadosamente planejado e executado, o ator chega finalmente ao palco investido de seu papel principal: participar, direta ou indiretamente, da vida de sua plateia. É ela, quem dará vida aquele projeto que um dia, foi apenas uma visão na sua mente, um ensaio, talvez uma incerteza e que, por pura teimosia da vida, se concretiza, literalmente, porque precisa se apresentar. Essa visão torna-se realidade, a partir de uma decisão corajosa de acelerar em uma estrada escura, tortuosa e repleta de obstáculos, que lhes são exclusivamente expostos pela escolha de aceitar os desafios de ingressar em um universo desconhecido e totalmente novo. Recusar a recuar, aquietar-se e silenciar, não deve compreender esse mundo inédito e, para muitos, aparentemente inalcançável, cravado por paradigmas fincados pelas crenças inertes, mas sim, abraçados como um recomeço de fé, a descobertas de novas terras.


A coragem de continuar perpetuando o que é sadio na vida de alguém, é verdadeiramente algo que envolve o nosso ser, pois revela o que desejamos representar na existência das pessoas. Muitos fazem absoluta questão de só ser a parte mais obscura do caminho alheio, refletindo, por meio de suas atitudes, a essência de seu próprio coração. Enquanto outros, no entanto, são uma infinidade de riqueza humana, generosidade, acolhimento e direção. Uma inesgotável fonte de luz, que seus raios iluminam tudo a sua volta, chegando a espalhar esperança e beleza por onde passam.


A coragem de ser o que se é, habita da certeza de quem ousa criar, pensar completamente diferente do que se espera e não ter medo de ser questionado ou apontado. É despertar julgamentos de quem acredita que devemos seguir, por modelos prontos ou até, não seguir, o que para muitos, seria mais aceitável. É desafiar as estruturas erguidas sobre velhas certezas de um tempo acinzentado, onde a liberdade de pensar é constantemente ameaçada por ideias engessadas, e porque não dizer, padronizadas e convencionais. Romper esses padrões exige muito mais do que se possa imaginar. A complexidade de enfrentar um ciclo vicioso, requer delicadeza na conduta, solidez em cada passo e, principalmente, sabedoria na condução do valor incontestável do que acreditamos. Fazer disto um aprendizado é superior as adversidades e feridas adquiridas ao longo do trajeto, onde o desânimo jamais será uma opção.


Reconhecer que a determinação integra a experiência e constitui parte relevante pela busca incessante do bem pretendido, antecipa a sensação de vitória ao cruzar a linha de chegada. Nesse momento, tudo o que ficou para trás, passa a ser considerado ínfimo e sem valor. Então, tracejar outros contornos de um novo trabalho, requer não só habilidade, mas decisão de enxergar horizontes além das fronteiras. Aprendi nos meus anos de mãos dadas com a arte, que toda obra nasce primeiro da iniciativa de alguém que resolveu firmemente não desistir. Da persistência de acreditar que o talento por si só não faz diferença se não for ousado. A habilidade sem a insistência para mim, é como um navio à deriva, sem direção. Então, ao meu ver, o mais prudente, é sempre manter à liberdade da escolha, sem a preocupação descabida de corresponder às expectativas de quem só têm críticas descontruídas a oferecer, mesmo sabendo que elas são necessárias para revelar a nossa autenticidade. Quando o artista permite que a influência de uma contextualização negativa envolva seu trabalho, inegavelmente o que irá ocorrer será a morte de sua essência criativa e inevitavelmente, a transformação medíocre e em constante declive de sua criação. Historicamente, temos um grande exemplo deste fato, ocorrido infelizmente, com uma grande artista plástica brasileira, Anita Malfatti pioneira do modernismo no nosso país em 1917. Ela teve seu trabalho duramente criticado pela elite cultural de São Paulo e, principalmente, por Monteiro Lobato, onde imediatamente retroagiu, limitando-se ao estilo tradicional daquela década. Nunca saberemos o resultado da evolução de seu estilo, se ela não tivesse se deixado levar pelas inoportunas palavras de quem não compreendia aquele talento totalmente adverso ao seu tempo. A indagação que me faz refletir sobre esse fato é a seguinte: Quantos talentos foram ofuscados porque aceitaram como uma verdade as críticas negativas e muitas vezes, de quem nem trabalha com arte? uma crítica de um curioso define o valor da obra ou revela a indignação por não ter talento para o fazer no lugar daquele? A imaturidade de Anita foi condizente com a interrupção abrupta daquele momento ou ela não tinha uma condução de um bom curador que a fortalecesse e fizesse o mesmo com seu trabalho?


A coragem deve inspirar outros a construírem suas próprias histórias, manterem a fidelidade as suas convicções e não retroagir frente às polêmicas que, muitas vezes, acompanham a inovação. A verdadeira eloquência do entendimento que a independência de permanecer firme aos próprios propósitos, exige maturidade. As críticas devem ser interpretadas a partir da visão do criador da obra, com discernimento. Nem toda crítica deve ser absorvida, pois, dependendo do contexto, pode ferir a identidade artística, como aconteceu com aquela artista. Não permita que o mundo molde sua criatividade. Antes de tudo, tenha fé no que faz, sem esquecer de evoluir. O seu crescimento dependerá da postura que irá tomar dentro de suas permissões. Quando me proponho criar, minha primeira providência é impedir interferências externas e, principalmente, quando estas não possuem competência artística para contribuir com o processo criativo. Qualquer tentativa, por menor que seja, de influência que desconsidere esse princípio é, para mim, rapidamente diminuída a insignificância.

Essa atribuição deve ser reservada à curadoria artística, pois só esse profissional é capaz de orientar no seguimento do mercado de arte no Brasil e no exterior, avaliando a obra, sua linguagem e seu estilo. O curador de arte é a bússola que conduz o artista em direção as oportunidades que melhor correspondam a sua identidade artística. Quando o artista compreende isso, percebe que a curadoria de arte é o caminho mais seguro para uma avaliação técnica posicionada e para um direcionamento consistente em sua carreira.


Ao se reconhecer como profissional de valor, o profissional adquire a capacidade de identificar o que deve ou não considerar, direcionar os investimentos de maneira consistente e coerente, aproximando-se do sucesso. Com um trabalho bem orientado nesse ramo, é impossível não alcançar o tão sonhado sucesso. Nada de se prender a pequenos e insignificantes detalhes que resultam em somas frustrantes de detalhes distorcidos, desastrosamente desencontrados e desentendimentos sem nenhum nexo. O interessante da arte é justamente a liberdade de se encontrar com coerência e sincronia entre aquilo que se é, o que se sente e o que cria. Isso é ser verdadeiramente corajoso e não se reduzir a um investigador movido pela busca incessante de imperfeições alheias.


A maior coragem está em permanecer convicto da pessoa que se escolheu ser e contar as histórias para quem realmente quer ouvi-las, da forma exata que foram feitas, construindo um legado com presença forte e identidade autêntica, sem a necessidade corresponder às expectativas de ninguém. O seu trabalho deve ser banhado na essência de sua alma. Deve refletir tudo que acredita ser importante, apoiado em uma linha do tempo de experiência, que transmita a sensibilidade de suas emoções e sempre acompanhado por quem realmente possua competência para lhe orientar corretamente para tal função. Isso é exigente. E por que não seria?

 

 

 

 

 

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