A geometria do fio: a produção têxtil de Frida Bell
- Marisa Melo

- há 2 dias
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Atualizado: há 3 horas
A produção têxtil de Frida Bell reúne geometria, cor intensa e diferentes tratamentos do fio em uma pesquisa desenvolvida ao longo de mais de uma década, acompanhando também o novo lugar conquistado pela tapeçaria na arte contemporânea.

Durante muito tempo, o têxtil permaneceu à margem dos debates que definiam a arte moderna. Tapeçaria, bordado, costura e outras práticas vinculadas ao fio carregavam uma história extensa, frequentemente submetida às divisões entre arte, artesanato e design. Nas últimas décadas, esse entendimento começou a mudar. O interesse crescente pela produção têxtil recuperou percursos fundamentais e trouxe maior atenção para artistas que encontraram na fibra recursos para desenvolver investigações ligadas à abstração, à figuração, ao espaço e ao volume.
Museus, galerias e grandes exposições acompanham essa revisão. A complexidade técnica continua sendo parte importante dessas obras, mas deixou de concentrar sua leitura. O fio passou a ser compreendido também por aquilo que permite construir visualmente, pelas relações que estabelece com o espaço e pelas questões formuladas por cada pesquisa. Um material associado durante séculos ao fazer manual ganhou novas leituras sem perder a história acumulada em seus procedimentos.
Brasileira radicada na Holanda, Frida Bell trabalha há mais de dez anos com tapeçaria. Nesse percurso, a geometria e a cor adquiriram continuidade e estabeleceram um repertório facilmente reconhecível. Círculos, curvas, faixas e grandes áreas geométricas organizam as obras, enquanto relevos, franjas e fios alteram a regularidade das superfícies. A intensidade cromática reforça essa característica: são trabalhos visualmente expansivos, construídos a partir de formas precisas sem assumir a austeridade frequentemente relacionada à abstração geométrica.
Série Tramas cromáricas IV , 2021 - Tapeçaria, fios de algodão e lã - 120 × 80 cm Série Tramas cromáricas , 2021 - Tapeçaria, fios de algodão e lã - 120 × 80 cm
Geometria e exuberância
A abstração geométrica construiu parte de sua história sobre formas depuradas, superfícies regulares e relações calculadas. Nas tapeçarias de Frida, a geometria segue uma direção mais exuberante. As formas crescem, alcançam as bordas, mudam de escala e recebem cores intensas. O rigor permanece perceptível na organização do conjunto, mas não impõe contenção. Há uma relação afirmativa com a cor, usada em grandes extensões e em contrastes que dão às obras uma identidade imediata.
Tufting, ponto russo e latch hook podem aparecer combinados em uma mesma peça. As diferenças entre os procedimentos são percebidas no relevo, na densidade das superfícies e nos fios que, em alguns trabalhos, prolongam o desenho para além de seus limites mais definidos. Anos de prática permitem transitar entre essas técnicas com naturalidade. A execução deixa de chamar atenção por si mesma e passa a integrar decisões tomadas durante a elaboração de cada obra.
A cor estabelece hierarquias, cria ritmos e modifica o peso visual de cada área. Tonalidades intensas são colocadas lado a lado sem a preocupação de suavizar contrastes ou buscar combinações previsíveis. Um círculo pode ganhar maior força em relação ao fundo, uma faixa pode dividir extensões cromáticas ou uma curva alterar a direção do olhar. A geometria oferece uma estrutura, enquanto a cor modifica continuamente a maneira como essa estrutura é percebida.
“Eu sempre gostei muito de cor. É muito intuitivo para mim e geralmente é por onde começo. Vou experimentando combinações, formas, vendo o que acontece e deixando o trabalho me mostrar alguns caminhos. A tapeçaria entrou na minha vida há muitos anos e foi ficando, porque me identifico com o contato com os fios e com tudo o que posso criar a partir deles. Cada trabalho acaba trazendo uma descoberta diferente, e acho que é isso que ainda me mantém tão envolvida com o que faço.”
O têxtil na contemporaneidade
Quando o interesse pela arte têxtil se intensificou no circuito contemporâneo, a tapeçaria já fazia parte da vida artística de Frida havia anos. Seu repertório havia sido construído ao longo desse percurso, com formas que retornam, combinações cromáticas que se transformam e procedimentos utilizados com crescente liberdade. Essas recorrências estabelecem uma identidade reconhecível sem transformar o trabalho em repetição.
A projeção alcançada pelo têxtil nos últimos anos oferece, porém, um contexto favorável para compreender a atual circulação dessas obras. Tapeçarias, bordados e trabalhos realizados com fibras aparecem hoje com frequência em acervos, exposições e pesquisas curatoriais. A discussão já não se concentra em decidir a qual categoria essas práticas pertencem. O que ganha importância é a maneira como cada artista utiliza um repertório técnico e histórico para formular sua própria pesquisa.
Depois de mais de uma década dedicada à tapeçaria, Frida chega a esse momento com escolhas já amadurecidas. A geometria não foi transferida de outro suporte para o tecido; foi desenvolvida dentro dele. O mesmo pode ser dito da cor, dos relevos e dos fios que por vezes escapam dos limites das formas. Sua abstração nasceu da tapeçaria e encontrou nela os recursos necessários para adquirir uma identidade própria.




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