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Quem decide o que é arte? SP-Arte Rotas 2026

  • Foto do escritor: Marisa Melo
    Marisa Melo
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

A pergunta que o público faz na saída da feira é a mesma que o mercado de arte carrega desde que Marcel Duchamp colocou um mictório numa galeria em 1917.



Mulher elegante em galeria de arte colorida, com pinturas nas paredes e visitantes ao fundo, em ambiente industrial.
Marisa Melo: curadora, pesquisadora de arte contemporânea e galerista em SP


Depois de visitar uma feira de arte contemporânea, parte do público ainda sai com uma pergunta formulada há mais de um século. A resposta passa pela obra, mas também pelas galerias, curadores, instituições, colecionadores e pelos critérios que constroem reconhecimento no sistema da arte.


A quinta edição da SP-Arte Rotas reuniu cerca de 70 expositores na ARCA, em São Paulo, entre 26 e 30 de agosto. Com direção artística de Bernardo Mosqueira, a edição ampliou a participação latino-americana, recebeu galerias da Argentina, Uruguai e Colômbia e manteve uma característica importante da Rotas dentro do calendário de feiras, a apresentação de projetos curados e inéditos, muitos deles voltados a produções que circulam fora dos centros mais consolidados do mercado brasileiro. Depois da feira, recebi mensagens de artistas que voltaram para casa fazendo perguntas muito semelhantes: “Que arte é essa?” “Isso é arte mesmo?” As perguntas me interessam porque revelam algo recorrente diante da produção contemporânea. Mesmo entre artistas, ainda existe a expectativa de encontrar na obra determinados atributos reconhecíveis, domínio técnico, elaboração formal, habilidade manual, composição, beleza ou uma imagem cuja qualidade possa ser identificada rapidamente. Uma feira como a Rotas coloca esses critérios em discussão.


O que encontramos pertence a um sistema artístico que há muito ampliou suas referências. Pintura e escultura convivem com instalações, objetos, materiais têxteis, documentos, práticas de origem ancestral e trabalhos cuja compreensão depende de informações que vão além daquilo que está imediatamente diante dos olhos. Marcel Duchamp continua sendo uma referência inevitável nessa discussão. Em 1917, apresentou Fountain, um urinol industrial assinado “R. Mutt”, à exposição da Society of Independent Artists, em Nova York. A obra acabou recusada pela própria organização, apesar da proposta declaradamente aberta da exposição. O episódio adquiriu importância histórica porque colocou em questão critérios que até então pareciam mais estáveis. A habilidade necessária para produzir determinado objeto já não bastava para definir seu estatuto artístico, entravam nessa discussão a escolha do artista, o contexto de apresentação e os mecanismos responsáveis por reconhecer alguma coisa como arte. Mais de cem anos depois, essa questão continua ativa, dentro de um sistema muito mais complexo.


Quem decide, então, o que é arte? Nenhum agente possui essa autoridade isoladamente. O artista propõe um trabalho, a galeria seleciona, representa e coloca essa produção em circulação, o curador estabelece recortes e relações, museus e instituições incorporam determinadas obras às suas exposições e coleções, críticos e pesquisadores produzem leitura histórica, colecionadores participam da construção de valor econômico e as feiras criam visibilidade e colocam esses agentes em contato. Ao longo dos anos, essa rede contribui para a construção do reconhecimento de determinadas produções. Estar dentro de uma feira importante tem peso, assim como integrar uma coleção institucional ou receber representação de uma galeria reconhecida, mas nenhuma dessas instâncias encerra sozinha a discussão sobre qualidade artística.


Uma seleção curatorial é uma tomada de posição. Uma representação por galeria também é. Uma aquisição institucional indica que determinada produção foi considerada relevante a partir de critérios específicos, e esses critérios podem ser examinados e revistos. A história da arte registra artistas pouco reconhecidos em seu próprio período e posteriormente reconsiderados, assim como produções que tiveram grande circulação em determinado momento e perderam relevância com o passar dos anos. Por isso, diante de uma obra em uma feira, considero mais produtivo substituir a pergunta “isso é arte?” por outra: por que esta obra está aqui? Quem é o artista, qual pesquisa sustenta esse trabalho, como essa obra se relaciona com sua produção, por que uma galeria decidiu apresentá-la, qual é a proposta daquele estande, quais relações foram estabelecidas pela curadoria, que referências históricas, culturais ou artísticas ajudam a compreender o trabalho? Essas perguntas permitem uma análise mais precisa e retiram a discussão do julgamento baseado exclusivamente na aparência.


Repertório também não deve servir como instrumento de intimidação. O visitante não precisa conhecer previamente todos os artistas de uma feira, dominar teoria da arte ou aceitar uma obra porque existe um texto curatorial ao lado dela. Conhecimento oferece instrumentos para formular um julgamento melhor. Depois de conhecer o contexto e a pesquisa, continua sendo possível considerar uma obra frágil, derivativa ou pouco desenvolvida. Esse ponto me parece especialmente importante porque existe uma tendência de tratar qualquer dificuldade de compreensão como deficiência do público, quando o próprio trabalho também precisa sustentar aquilo que propõe. O circuito pode legitimar uma produção, oferecer visibilidade e construir valor, mas isso não elimina a análise crítica.


Na Rotas, essa discussão ganha relevância porque a feira foi concebida para ampliar a circulação de produções provenientes de vários lugares do Brasil e, em 2026, reforçou o intercâmbio com a América Latina. Essa ampliação coloca o visitante diante de pesquisas formadas por referências culturais, materiais e históricas variadas, e um único padrão visual passa a ser insuficiente para avaliar tudo o que aparece nos estandes. É nesse ponto que considero importante falar em formação do olhar. Formar o olhar significa adquirir condições para distinguir preferência pessoal de análise. Posso não desejar determinada obra para minha coleção e ainda reconhecer sua qualidade. Posso admirar uma execução técnica extraordinária e perceber que o trabalho pouco desenvolve para além dela. Também posso encontrar uma obra que inicialmente me causa estranhamento e, depois de conhecer a trajetória do artista e compreender aquela produção dentro de um conjunto maior, rever minha primeira leitura.


Para os próprios artistas, essa distinção é especialmente importante. Quando um artista visita uma feira e pergunta “como isso pode estar aqui?”, vale observar o que está sendo comparado. Técnica, pesquisa, trajetória, representação, inserção institucional, pertinência ao projeto apresentado pela galeria e circulação de mercado são critérios que atuam simultaneamente, mas não são equivalentes. Conhecer essa estrutura ajuda também a compreender por que dois trabalhos aparentemente incomparáveis podem estar na mesma feira e ocupar posições semelhantes dentro do circuito. A análise deixa de depender apenas do gosto e passa a considerar como aquela produção foi construída, apresentada e inserida profissionalmente.


Isso também exige reconhecer que o sistema da arte possui interesses econômicos, relações profissionais e disputas por visibilidade. Galerias fazem escolhas curatoriais e comerciais, curadores trabalham a partir de seus próprios critérios, instituições estabelecem políticas de aquisição, feiras selecionam participantes e colecionadores interferem diretamente na circulação e valorização de determinados artistas. Tendências recebem grande atenção em certos períodos, determinados assuntos ganham espaço e algumas produções encontram condições de circulação melhores do que outras. Compreender essa estrutura permite observar o circuito com maior precisão e construir um julgamento próprio, inclusive quando esse julgamento diverge das escolhas feitas pelas instituições que participam dele.


Talvez seja justamente por isso que a pergunta “quem decide o que é arte?” continue produtiva. O que chamamos de reconhecimento artístico resulta de uma rede de escolhas realizadas por artistas, galerias, curadores, instituições, pesquisadores, críticos e colecionadores, submetida também à revisão histórica. Ao sair de uma feira como a SP-Arte Rotas, diante de uma obra que provoca estranhamento, eu levaria comigo uma pergunta um pouco mais exigente: o que eu preciso conhecer sobre este trabalho antes de avaliá-lo? A resposta pode confirmar a primeira impressão ou obrigar a revê-la. Nos dois casos, já existe um olhar mais preparado para lidar com a arte contemporânea.




MARISA MELO

Curadora de Arte, Pesquisadora e Galerista

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