Até onde a família define quem somos? Dovunque Al Mondo
- Marisa Melo

- há 1 dia
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Atualizado: há 17 horas
Júlia Dalcastagné transforma a semelhança familiar em uma anatomia improvável para examinar identidade, projeção e expectativa.

Dovunque Al Mondo é uma das obras apresentadas em Estranhas Familiaridades, exposição individual de Júlia Dalcastagné, atualmente em exibição na UP Time Art Gallery, com curadoria de Marisa Melo. A pintura parte de um hábito comum entre familiares, reconhecer no outro os traços do pai, da mãe, de um irmão ou de alguém que veio antes. A obra observa o que acontece quando essa comparação avança sobre a personalidade. A semelhança física começa a alimentar expectativas sobre comportamento, escolhas e trajetória, principalmente quando o familiar usado como referência ocupa um lugar de admiração.
Essa situação aparece na própria anatomia da personagem. Duas cabeças surgem de um único corpo. Em vez de representar duas pessoas semelhantes, a composição elimina a separação física entre elas e transforma a comparação em imagem. O recurso integra a estranheza recorrente na produção da artista, corpos reconhecíveis aparecem alterados, proporções são deslocadas e elementos familiares assumem combinações improváveis. Em Dovunque Al Mondo, a deformação mostra o quanto duas identidades podem ser confundidas quando uma delas passa a ser percebida como continuidade da outra.
Os olhos são geralmente o primeiro elemento que encontramos nessas pinturas. Grandes, frontais e incisivos, encaram diretamente quem observa. Há neles o olhar venenoso que caracteriza suas personagens e impede uma leitura dócil dessas figuras. Nesta obra, são justamente os olhos que desfazem a unidade sugerida pelo corpo.
Existem duas expressões, duas maneiras de encarar e duas personalidades dentro de uma anatomia que insiste em reuni-las. Flores, velas, folhas, dourados e o pequeno leão ampliam essa diferenciação e participam da construção visual de duas identidades que reivindicam o direito de existir por si.
É nesse ponto que a obra encontra seu lugar em Estranhas Familiaridades. A comparação entre pessoas da mesma família, algo facilmente reconhecível, adquire uma configuração impossível. O estranho surge dentro de uma relação cotidiana, justamente quando a semelhança passa a determinar quem o outro deveria ser. Duas pessoas podem compartilhar traços, origem e história familiar sem que uma precise repetir a outra. Ao reuni-las no mesmo corpo e diferenciá-las pelo olhar, Júlia transforma a expectativa de semelhança em uma questão sobre identidade e projeção.
VISITE A EXPOSIÇÃO!
Estranhas Familiaridades
Julia Dalcastagné
Realização: UP Time Art Gallery
Curadoria: Marisa Melo
Shopping West Plaza, Piso 2 - Bloco B
Até 18 de setembro, 2026




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