Uma conversa com Mônica Ruggiero, sobre o modo como uma linguagem visual se consolida por meio da pesquisa, da continuidade e da construção de um repertório próprio
- Marisa Melo

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MARISA MELO

Nascida em São Carlos, interior de São Paulo, Mônica Maria Margarido Ruggiero Penteado construiu sua trajetória entre a Arquitetura e as Artes Visuais. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (FAU-PUCCAMP), retomou sua formação artística em 2003 ao ingressar no curso de Artes Plásticas da Faculdade de Educação São Luís, em Jaboticabal. Essa dupla formação permanece presente em sua produção, na qual pintura, espaço, matéria e percepção constituem partes de uma mesma investigação.
Ao longo da história da arte, a construção de uma linguagem própria sempre distinguiu a produção que permanece daquela que apenas acompanha seu tempo. Nenhum artista inicia esse percurso do zero. A formação, as referências e o repertório visual e técnico constituem o ponto de partida de uma pesquisa que, em determinado momento, precisa deixar de responder ao que já existe para formular suas próprias questões.
Essa transformação raramente se revela de maneira imediata. Ela resulta de anos de estudo, experimentação e revisão contínua da própria prática. É nesse processo que o artista reconhece recorrências, depura escolhas e compreende que a coerência de uma pesquisa não depende da repetição de imagens, mas da permanência de uma questão capaz de produzir novos desdobramentos.
Nesta entrevista, arquitetura, pintura e investigação visual aparecem como partes de um mesmo percurso. A conversa aborda a construção da série Ancestralidade, a presença da mitologia em sua pesquisa, o papel do desenho na elaboração das obras e, sobretudo, a autonomia conquistada quando a pintura passa a responder às próprias perguntas.
Você tem formação em Arquitetura e Urbanismo e em Artes Visuais. Como essas duas áreas se relacionam na sua produção atual?
Nos primórdios da Arquitetura, pintura, escultura e construção faziam parte de um mesmo campo de conhecimento. A arquitetura podia ser compreendida como uma escultura destinada à habitação, enquanto as imagens também desempenhavam funções de comunicação, formação e transmissão de conhecimento. Ao longo da história, essas linguagens seguiram caminhos próprios, mas conservaram um princípio comum: produzir formas capazes de alterar nossa percepção do mundo.
Hoje, a relação entre Arquitetura e Artes Visuais acontece sobretudo no plano conceitual, sensorial e fenomenológico. Em ambas, o desafio não consiste apenas em construir um objeto ou uma imagem, mas em criar uma experiência perceptiva. Gosto da ideia de que o papel da arte é "fazer ver". Não apenas mostrar, mas provocar um olhar que ultrapasse o reconhecimento imediato daquilo que está diante de nós.
É nesse ponto que minha formação em Arquitetura permanece presente na pintura. As duas áreas compartilham uma preocupação com espaço, matéria, ritmo, luz e construção do olhar. A poiesis, a fenomenologia e a criticidade fazem parte desse processo. Cada obra nasce da tentativa de organizar esses elementos para produzir uma experiência que convide o observador a perceber aquilo que normalmente passaria despercebido.

Ao longo desses quase dois anos de trabalho conjunto, o que mudou na forma como você apresenta e posiciona sua obra?
O principal aprendizado foi compreender que uma linguagem artística precisa ser construída a partir do repertório que desenvolvemos ao longo da própria trajetória. Hoje, minhas referências deixam de funcionar como um ponto de apoio permanente e passam a integrar um repertório já assimilado, que me permite trabalhar com maior autonomia.
Também compreendi que uma pesquisa exige ordem, continuidade e coerência. Nem toda ideia que surge deve ser imediatamente levada para a tela. Antes disso, ela precisa encontrar lugar dentro da investigação que venho desenvolvendo. Essa compreensão fortaleceu minha linguagem pictórica e a maneira como organizo cada série.
Permanece para mim a ideia de "fazer ver". A pintura não consiste apenas em representar aquilo que já conhecemos, mas em construir uma realidade na qual forma, cor e matéria organizam uma experiência perceptiva própria. Nesse sentido, a frase de Paul Klee continua sintetizando aquilo que procuro na pintura: "Pintar não é reproduzir o visível, mas tornar visível".
A autenticidade nasce justamente desse processo. Se o objetivo fosse apenas reproduzir a realidade, bastaria uma fotografia. O que me interessa é construir uma pintura capaz de produzir um modo particular de olhar.
Qual foi o momento em que você sentiu que sua linguagem visual estava mais definida?
Acredito que esse momento aconteceu quando percebi que já havia construído um repertório técnico e visual suficiente para desenvolver uma pesquisa com maior autonomia. Até então, as referências exerciam um papel importante na minha formação. Com o tempo, deixaram de funcionar como um ponto de partida permanente e passaram a integrar um repertório que já fazia parte da minha própria maneira de pensar a pintura.
Essa mudança alterou profundamente minha prática. Passei a confiar mais no processo, nas perguntas que surgiam durante a pesquisa e naquilo que a própria pintura começava a revelar. Em vez de buscar soluções fora do trabalho, compreendi que elas poderiam ser encontradas dentro da investigação que vinha desenvolvendo ao longo dos anos.
Foi nesse momento que me dediquei à série Ancestralidade. A pergunta que orientava essa pesquisa sempre esteve presente de alguma forma: quem veio antes de mim e quais heranças, visíveis ou invisíveis, continuam presentes naquilo que somos? A partir dessa questão, encontrei um caminho que me permitiu reunir pesquisa, desenho, pintura e imaginação dentro de uma mesma linguagem.
Mais do que definir uma identidade visual, esse processo consolidou uma forma de pensar a pintura. Percebi que minha linguagem não surgia da repetição de determinadas imagens ou soluções formais, mas da continuidade das perguntas que sustentam minha pesquisa. É essa continuidade que hoje reconheço como o eixo da minha produção.
Os desenhos revelam que a pintura nasce muito antes da aplicação da primeira camada de tinta. Neles, a artista estabelece a arquitetura da composição, experimenta a posição das figuras, organiza os símbolos e define o percurso visual da obra. A passagem para a tela não representa uma mudança de direção, mas o aprofundamento de uma estrutura já concebida. A pintura acrescenta densidade cromática, materialidade e ritmo, preservando a lógica que orientou o desenho desde o início.
Como você descreve sua pesquisa para alguém que ainda não conhece seu trabalho?
Toda obra ou série que desenvolvo parte de uma pergunta. Nada é aleatório, mesmo quando se trata de uma pintura única. Aprendi ainda na Arquitetura que cada decisão precisa ter uma razão de existir. Minha professora Sofia Telles costumava perguntar: "Por que essa linha está aqui e não ali?". Se não havia uma justificativa, ela poderia estar em qualquer lugar. Esse princípio permaneceu comigo e hoje orienta toda a minha produção artística.
Antes de iniciar uma pintura, procuro compreender profundamente o tema que desejo investigar. A pesquisa antecede a imagem. Leio, desenho, escrevo e organizo referências até que a ideia adquira consistência suficiente para ser transformada em linguagem pictórica. O que chega à tela é resultado de um processo de elaboração que começa muito antes do ato de pintar.
Na série Ancestralidade, a questão que orienta essa investigação nasce de uma inquietação antiga: quem veio antes de mim e quais heranças continuam presentes naquilo que somos? Essa pergunta me levou a estudar diferentes sentidos da ancestralidade, compreendida em suas dimensões biológica, cultural e espiritual. Neste primeiro momento, minha pesquisa concentra-se sobretudo na herança cultural, tendo a mitologia greco-romana como um dos seus principais referenciais.
Entendo a mitologia como uma das primeiras formas encontradas pela humanidade para atribuir imagens, narrativas e sentido às forças da natureza, ao tempo e à própria existência. Mais do que ilustrar esses relatos, procuro compreender como eles continuam oferecendo estruturas simbólicas capazes de atravessar diferentes épocas e culturas.
As figuras em minhas pinturas surgem desse encontro entre pesquisa e imaginação. Corpos, árvores, raízes, paisagens e elementos naturais deixam de aparecer como entidades separadas e passam a integrar uma mesma construção visual. As curvas das composições e a fusão entre figura humana e natureza procuram sugerir um estado primordial, no qual essas fronteiras ainda não estavam plenamente definidas. É nesse espaço que minha pintura se desenvolve, buscando construir uma linguagem capaz de articular pensamento, memória e imaginação.
Série: Ancestralidade
Existe uma série ou obra que você considera um divisor na sua trajetória?
Sim. Considero que a série Ancestralidade representa um divisor na minha trajetória porque foi nela que consegui reunir, de forma mais consciente, os temas que há muito tempo despertam meu interesse e organizá-los dentro de uma pesquisa contínua. Ao mesmo tempo, percebo que ela se conecta naturalmente à série De onde eu vim.
Quando observo essas duas séries como partes de um mesmo percurso, vejo uma linha do tempo que começa na figura ancestral, representada pela mulher geradora, e avança até minhas próprias memórias de infância. Embora cada série tenha sua identidade, ambas investigam a origem, a herança e aquilo que permanece presente ao longo das gerações.
Ainda reconheço diferenças entre elas. A paleta cromática estabelece uma continuidade, mas percebo transformações no desenho, na construção das formas e na maneira como organizo a composição. Em vez de entender essas mudanças como uma ruptura, vejo nelas o amadurecimento natural da pesquisa. Cada série amplia questões que já estavam presentes na anterior e prepara o caminho para a seguinte.
Talvez seja justamente esse aspecto que lhes atribua maior importância para mim. Elas falam sobre quem eu sou, sobre as heranças que constituem minha trajetória e sobre as perguntas que continuam orientando minha pintura. Se De onde eu vim investiga minhas origens e Ancestralidade amplia essa investigação para uma dimensão simbólica e cultural, acredito que as próximas séries surgirão como desdobramentos desse mesmo percurso, acompanhando as novas questões que ainda desejo compreender.
Série: De Onde Eu Vim
Como você organiza seu processo criativo, da ideia até a obra concluída?
Meu processo criativo começa muito antes da tela. Costumo carregar comigo um caderno no qual registro desenhos, anotações, leituras e reflexões relacionadas às pesquisas que estou desenvolvendo. É nesse espaço que as ideias começam a ganhar forma, ainda livres da necessidade de se transformar imediatamente em pintura.
O caderno funciona como um laboratório de investigação. Nele experimento composições, faço estudos, relaciono referências, escrevo perguntas e organizo pensamentos que, muitas vezes, ainda estão em processo de amadurecimento. Não procuro respostas imediatas. Procuro compreender quais imagens permanecem, quais questões continuam retornando e quais delas têm força suficiente para sustentar uma série.
Quando percebo que uma ideia alcançou clareza e coerência dentro da pesquisa, ela passa para a tela. A pintura não nasce como um gesto espontâneo ou isolado, mas como a continuidade de um percurso que já começou muito antes, no desenho e na reflexão. Isso me permite trabalhar com maior consciência das escolhas formais e conceituais que estou fazendo.
Vejo esse caderno como um espaço de liberdade. É ali que razão e intuição convivem sem a pressão do resultado final. Antes de qualquer julgamento, é nele que a pesquisa se organiza, a linguagem se desenvolve e a pintura começa, mesmo quando ainda não existe tinta sobre a tela.
Para onde você quer levar seu trabalho nos próximos anos?
Meu desejo é que meu trabalho alcance reconhecimento internacional, mas não como um objetivo desvinculado da pintura. Quero que esse reconhecimento seja consequência de uma pesquisa consistente, construída ao longo do tempo e identificável pela sua própria linguagem.
Por isso, procuro preservar aquilo que considero essencial na minha prática: a autoria. Sou eu quem desenha, desenvolve os esboços, constrói cada composição e define todas as etapas da pintura. Gosto desse processo porque ele me desafia continuamente e mantém uma relação direta entre pensamento, gesto e realização.
Não utilizo projetores, cópias carbonadas ou outros recursos que substituam esse percurso. O desenho faz parte da pesquisa e a pintura se desenvolve a partir dele. Cada obra nasce desse trabalho paciente de elaboração, no qual forma, composição, cor e matéria são construídas gradualmente.
Espero continuar ampliando essa pesquisa, desenvolvendo novas séries e aprofundando as questões que hoje orientam minha produção. Mais do que alcançar visibilidade, quero construir uma trajetória reconhecida pela coerência da linguagem, pela consistência da pesquisa e pela autenticidade de cada obra.


























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