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Identidade e Autoria

Numa era de imagens infinitas, a mão que faz ainda é insubstituível


Pintura de paisagem em cavalete, com pincéis e tintas ao redor, ao lado de um computador exibindo uma versão digital da mesma cena, sugerindo o contraste entre criação artística manual e geração por inteligência artificial em um estúdio.

Existe uma pergunta que voltou a circular com força nos ateliês, nas feiras e nas conversas entre artistas: se uma máquina gera uma imagem, quem é o autor? A questão parece nova, mas não é. O que mudou foi a urgência com que ela chegou à mesa de trabalho de quem produz arte.


A inteligência artificial não inventou o problema da autoria. Ela apenas tornou impossível ignorá-lo.


Walter Benjamin já havia apontado, em 1935, que a reprodução técnica da obra de arte alterava algo fundamental na relação entre o objeto e quem o faz. Não se tratava apenas de cópias. Tratava-se de um deslocamento na ideia de presença, de origem, do que Benjamin chamou de aura. A obra original carregava uma singularidade ligada ao tempo e ao lugar de sua produção. A reprodução rompia esse vínculo. O que a IA faz hoje é levar esse processo a um ponto que Benjamin não poderia ter antecipado: a imagem gerada não é cópia de nada. Ela é construída a partir de padrões extraídos de milhões de obras humanas, sem que nenhuma delas seja, de fato, a origem.


Isso coloca o artista diante de uma pergunta concreta: o que, na sua obra, é insubstituível?

A resposta não está na técnica. Está na intenção.


Michel Foucault, em seu ensaio "O que é um autor?", publicado em 1969, propôs que o nome do autor não é simplesmente o nome de uma pessoa. É uma função. O autor organiza o sentido de uma obra, delimita sua interpretação, responde por ela perante o leitor e perante o tempo. Foucault estava interessado na literatura, mas o raciocínio se aplica às artes visuais com a mesma precisão. O nome que assina uma tela não é apenas uma assinatura. É um posicionamento. É uma declaração de que alguém, em determinado momento, tomou uma decisão estética e assumiu as consequências dela.


Uma ferramenta de IA não toma decisões. Ela calcula probabilidades. A diferença pode parecer sutil, mas é o que separa uma obra de um produto.

O problema que os artistas enfrentam agora não é tecnológico. É filosófico e, ao mesmo tempo, bastante prático. Quando um artista usa IA como parte do seu processo, como um pintor usaria um aerógrafo ou um fotógrafo usaria um filtro, a autoria permanece intacta desde que haja uma escolha consciente conduzindo o resultado. O que define a autoria não é a ausência de ferramentas. É a presença de uma voz.


Essa voz se constrói ao longo do tempo, com erros, com insistência, com uma pesquisa que nenhum algoritmo consegue simular porque ela nasce de uma vida vivida. Um artista que trabalha com a memória do próprio corpo, com a paisagem do lugar onde cresceu, com a contradição entre o que aprendeu e o que recusa, está produzindo algo que não existe em nenhum banco de dados. Está produzindo singularidade.


O mercado já percebeu isso, mesmo que ainda não saiba nomear com clareza. O que os colecionadores buscam, não é uma imagem bonita. É a evidência de que alguém esteve ali, fez escolhas, e deixou uma marca que só poderia ser daquela pessoa. A aura que Benjamin descrevia como algo ameaçado pela reprodução técnica voltou a ser o bem mais valioso da produção artística contemporânea, precisamente porque agora é possível produzir imagens sem ela.


Há uma consequência direta que o mercado já está sinalizando com clareza: o feito à mão voltou a ter peso. O traço visível, a textura da tinta, a imperfeição que só existe porque uma mão humana passou por ali, tudo isso passou a ser lido como evidência de autoria, não como limitação técnica. Feiras, galerias e colecionadores estão respondendo a essa demanda. Obras onde o processo é legível na superfície, onde é possível sentir o tempo que o artista dedicou a cada centímetro da tela, estão sendo valorizadas de forma que não se via com essa intensidade há décadas. A IA, paradoxalmente, fez o trabalho manual ficar mais raro e, portanto, mais desejado.


Para o artista, isso tem uma implicação direta: aprofundar a própria linguagem não é um exercício de vaidade. É uma estratégia de existência no campo da arte. Quanto mais reconhecível e irreproduzível for o seu gesto, menos substituível você será.


A pergunta "quem assina a obra?" não tem uma resposta jurídica satisfatória quando se trata de arte gerada por máquina. Mas tem uma resposta poética muito clara: assina quem pensa, quem escolhe, quem erra e corrige, quem carrega na obra uma perspectiva de mundo que só existe porque aquela pessoa existiu.


Isso não é um argumento contra a tecnologia. É um argumento a favor da consciência com que se usa qualquer ferramenta. E, sobretudo, é um argumento a favor de conhecer bem o que você tem a dizer antes de decidir como vai dizer.

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© 2016 por Marisa Melo

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