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marisa melo

Identidade e autoria

  • Foto do escritor: Marisa Melo
    Marisa Melo
  • 23 de abr.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 24 de jun.

Numa era de imagens infinitas, a mão que faz ainda é insubstituível


Estúdio de arte claro; mão pinta faixa preta em tela, com pincéis à frente e pôster com palavras em português na parede.



Existe uma pergunta que voltou a circular com força nos ateliês, nas feiras e nas conversas entre artistas: se uma máquina gera uma imagem, quem é o autor? A questão parece nova, mas não é. O que mudou foi a urgência com que ela chegou à mesa de trabalho de quem produz arte. A inteligência artificial não inventou o problema da autoria. Ela apenas tornou impossível ignorá-lo. Walter Benjamin já havia apontado, em 1935, que a reprodução técnica da obra de arte alterava algo fundamental na relação entre o objeto e quem o faz. Não se tratava apenas de cópias. Tratava-se de um deslocamento na ideia de presença, de origem, do que Benjamin chamou de aura. A obra original carregava uma singularidade ligada ao tempo e ao lugar de sua produção. A reprodução rompia esse vínculo. O que a IA faz hoje é levar esse processo a um ponto que Benjamin não poderia ter antecipado: a imagem gerada não é cópia de nada. Ela é construída a partir de padrões extraídos de milhões de obras humanas, sem que nenhuma delas seja, de fato, a origem. Isso coloca o artista diante de uma pergunta concreta: o que, na sua obra, é insubstituível? A resposta não está na técnica. Está na intenção.


Michel Foucault, em seu ensaio O que é um autor?, publicado em 1969, propôs que o nome do autor não é simplesmente o nome de uma pessoa. É uma função. O autor organiza o sentido de uma obra, delimita sua interpretação, responde por ela perante o leitor e perante o tempo. Foucault estava interessado na literatura, mas o raciocínio se aplica às artes visuais com a mesma precisão. O nome que assina uma tela não é apenas uma assinatura. É um posicionamento. É uma declaração de que alguém, em determinado momento, tomou uma decisão estética e assumiu as consequências dela. Uma ferramenta de IA não toma decisões. Ela calcula probabilidades. A diferença pode parecer sutil, mas é o que separa uma obra de um produto. O problema que os artistas enfrentam agora não é tecnológico. É filosófico e, ao mesmo tempo, bastante prático. Quando um artista usa IA como parte do seu processo, como um pintor usaria um aerógrafo ou um fotógrafo usaria um filtro, a autoria permanece intacta desde que exista uma escolha consciente conduzindo o resultado. O que define a autoria não é a ausência de ferramentas. É a presença de uma voz.


Essa voz se constrói ao longo do tempo, com erros, insistência e uma pesquisa que nenhum algoritmo consegue simular porque nasce de uma vida vivida. Um artista que trabalha com a memória do próprio corpo, com a paisagem do lugar onde cresceu, com a contradição entre o que aprendeu e o que recusa, produz algo que não existe em nenhum banco de dados. Produz singularidade. O mercado já percebeu isso, mesmo que ainda não saiba nomear com clareza. O que os colecionadores buscam não é apenas uma imagem visualmente eficiente. É a evidência de que alguém esteve ali, fez escolhas e deixou uma marca que só poderia partir daquela pessoa. A aura que Benjamin descrevia como ameaçada pela reprodução técnica voltou a ocupar um lugar central na produção artística contemporânea justamente porque agora se tornou possível produzir imagens sem ela.


Há uma consequência direta que o mercado já começa a sinalizar com clareza: o feito à mão voltou a ter peso. O traço visível, a textura da tinta, a imperfeição que só existe porque uma mão humana passou por ali, tudo isso passou a ser lido como evidência de autoria e não como limitação técnica. Feiras, galerias e colecionadores respondem diretamente a essa demanda. Obras em que o processo permanece legível na superfície, em que ainda é possível perceber o tempo dedicado pelo artista à construção da imagem, passaram a receber uma atenção que não aparecia com essa intensidade há décadas. A IA, de maneira paradoxal, tornou o trabalho manual mais raro e, por consequência, mais desejado. Para o artista, isso possui uma implicação direta: aprofundar a própria linguagem não é um exercício de vaidade. É uma estratégia de existência dentro da arte. Quanto mais reconhecível e menos reproduzível for o seu gesto, menor será sua possibilidade de substituição.


A pergunta “quem assina a obra?” talvez não encontre uma resposta jurídica completamente satisfatória quando se trata de imagens geradas por máquina. Mas existe uma resposta bastante clara na arte: assina quem pensa, quem escolhe, quem erra, corrige e constrói uma perspectiva de mundo que não pode ser separada da própria experiência de vida. Isso não é um argumento contra a tecnologia. É um argumento a favor da consciência com que qualquer ferramenta é utilizada e, principalmente, a favor da clareza sobre aquilo que cada artista realmente tem a dizer antes de decidir como irá construir sua imagem.

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