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O SILÊNCIO COMO LINGUAGEM: A FILOSOFIA DO NÃO DITO

Atualizado: há 2 dias

Nem toda obra se constrói pelo que apresenta. Muitas vezes, é pelo que decide omitir que a obra encontra sua força, porque o olhar precisa permanecer mais tempo, e é nesse tempo que a arte realmente acontece.



Pintura Room in New York de Edward Hopper, 1932, mostrando um homem lendo jornal e uma mulher ao piano no mesmo ambiente, exemplo de silêncio e narrativa construída pelo não dito na arte.
 Edward Hopper - Romm in New York_1932 Óleo sobre tela | Realismo americano

Maurice Merleau-Ponty parte da ideia de que ver não é apenas receber uma imagem pronta, mas construir aquilo que se vê enquanto se olha. Essa mudança altera profundamente a maneira como a arte pode ser compreendida. A obra deixa de apresentar uma cena totalmente resolvida e passa a depender da participação ativa de quem observa. Entre a imagem e o olhar existe um espaço de construção que não pode ser preenchido apenas pela pintura. Parte da experiência se organiza na memória, nas associações e naquilo que cada pessoa carrega diante da obra. Quando a arte é construída dessa maneira, aquilo que não aparece completamente deixa de ser ausência e passa a participar diretamente da linguagem. Uma imagem totalmente resolvida tende a se esgotar rapidamente. Já uma obra que mantém zonas incompletas, cortes, retenções e áreas menos explicadas prolonga o tempo do olhar. A pintura continua sendo pensada mesmo depois que o observador deixa de estar diante dela.


A história da arte também pode ser lida como uma longa transformação da relação entre excesso e redução. Durante séculos, a pintura esteve ligada à descrição completa da cena. A grande pintura histórica, o retrato oficial e a pintura religiosa dependiam da organização detalhada do espaço e da clareza narrativa. A imagem precisava explicar personagens, acontecimentos e hierarquias visuais. A virada moderna modifica esse problema. Édouard Manet comprime o espaço, Paul Cézanne desmonta a perspectiva tradicional e Edgar Degas corta figuras e cenas como se a imagem continuasse além da tela. A mudança não surge por perda de capacidade técnica. Surge porque a pintura deixa de ter como principal questão a reprodução do mundo visível e passa a concentrar atenção na construção do olhar. Em muitos casos, isso exige retirar informação. Retirar não significa empobrecer a imagem. Significa editar. Degas constrói cenas em que corpos aparecem interrompidos, figuras saem parcialmente do enquadramento e o espaço parece continuar para além da tela. O observador completa mentalmente aquilo que não vê. Muito antes disso, Diego Velázquez já havia criado algo semelhante em Las Meninas. A pintura organiza espelhos, olhares e posições sem explicar completamente o que acontece. O observador tenta se localizar dentro da cena, mas a imagem nunca se resolve de forma definitiva.


No século XX, essa redução se torna ainda mais radical. Mark Rothko praticamente elimina a figura e trabalha com grandes campos de cor. À primeira vista, parece existir muito pouco para observar. Depois de algum tempo diante da pintura, a percepção muda. A relação entre cor, escala e duração altera o ritmo do olhar. A pintura reduz elementos, mas amplia tempo de observação. Giorgio Morandi constrói outra relação com a redução. Durante décadas, pinta garrafas, caixas e potes muito semelhantes entre si. O interesse não está nos objetos isolados, mas nas pequenas alterações entre eles. Distância, peso visual, intervalo e posição reorganizam a composição constantemente. Já Edward Hopper trabalha com retenção narrativa. Em Room in New York, um homem lê jornal enquanto uma mulher toca algumas notas no piano. A pintura não explica quem são, o que aconteceu antes ou o que acontecerá depois. O espaço entre os corpos organiza a cena com mais força do que qualquer ação explícita. A imagem permanece aberta.


Na fotografia, essa relação talvez apareça de maneira ainda mais evidente. Fotografar significa escolher um enquadramento e aceitar que todo o restante ficará fora da imagem. O corte faz parte da própria estrutura fotográfica. O fotógrafo decide aquilo que permanece visível e aquilo que desaparece. Muitas vezes, aquilo que fica fora do enquadramento é justamente o que amplia a força da imagem porque cria continuidade mental para quem observa. Em todos esses casos, o vazio não aparece como falta. Existe diferença entre uma obra sem construção e uma obra construída a partir da redução. Quando o artista elimina o excesso, a imagem passa a depender mais diretamente de ritmo, intervalo, superfície e retenção visual. Isso exige clareza formal, domínio da linguagem e capacidade de decidir o que realmente precisa permanecer na obra.


Talvez uma das diferenças mais visíveis entre um artista iniciante e um artista maduro esteja justamente nessa relação com a redução. No início, muitos artistas tentam explicar demais a imagem, preencher completamente a superfície e demonstrar domínio técnico em todas as áreas da composição. Com o tempo, a relação muda. A experiência mostra que a obra não precisa resolver tudo nem responder imediatamente ao observador. Em um ambiente saturado por imagens rápidas, excesso de informação e leitura acelerada, trabalhos que mantêm retenção visual produzem outro tempo de observação. Algumas obras permanecem na memória justamente porque não entregam tudo no primeiro contato. Muitas vezes, aquilo que continua sendo pensado depois nasce exatamente do que a imagem decidiu não mostrar completamente.

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