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Miró e a permanência do moderno num circuito voltado ao contemporâneo

  • Foto do escritor: Marisa Melo
    Marisa Melo
  • há 7 horas
  • 4 min de leitura


Galeria de arte com esculturas coloridas e quadros nas paredes, piso escuro brilhante e uma tela iluminada ao fundo.
Crédito de imagem: Veja|São Paulo

Em um circuito de arte cada vez mais voltado à produção contemporânea e à revisão das narrativas da história da arte, os grandes nomes do modernismo europeu continuam mobilizando um público expressivo. Miró: Mestre das Formas, em cartaz no MAB FAAP, em São Paulo, até 12 de outubro de 2026, oferece um bom ponto de partida para pensar essa relação. A exposição apresenta 140 obras originais de Joan Miró em 1.200 m², entre pinturas, gravuras, esculturas, tapeçarias e fotografias, com trabalhos inéditos no Brasil e um percurso que acompanha mais de seis décadas de produção. A curadoria é de Jordi J. Clavero e o conjunto reúne peças provenientes da Fundació Joan Miró, em Barcelona, da Fundació Pilar i Joan Miró, em Maiorca, do Es Baluard Museu d’Art Contemporani de Palma, de coleções particulares e da família do artista. Miró, porém, já esteve no centro de uma grande exposição brasileira recente: em 2015, o Instituto Tomie Ohtake apresentou Joan Miró: A Força da Matéria, realizada em parceria com a fundação de Barcelona. Onze anos depois, seu retorno em uma mostra dessa amplitude permite uma pergunta que vai além do artista: por que a arte moderna europeia continua despertando tamanho interesse em um circuito que dedica cada vez mais espaço à produção contemporânea? 


Parte da resposta está na formação do repertório. Miró pertence a um grupo de artistas cujas imagens circulam há décadas em livros, escolas, exposições, documentários e reproduções. Mesmo quem conhece pouco sua trajetória provavelmente reconhece alguma coisa de seu vocabulário visual. O visitante chega ao museu com uma referência anterior, e esse reconhecimento tem força. Em 2025, A Ecologia de Monet, no MASP, reuniu apenas 32 pinturas e recebeu 502.642 visitantes, tornando-se a exposição mais visitada da história do museu e superando Tarsila Popular, de 2019, que havia recebido cerca de 402 mil pessoas. São números que não autorizam concluir que o público brasileiro prefira a arte moderna à contemporânea, mas mostram a capacidade de mobilização de artistas que já integram um repertório amplamente compartilhado. Nossas referências artísticas também são construídas pela frequência com que determinadas obras e determinados nomes nos são apresentados. Museus, escolas, livros, crítica, mercado e meios de comunicação participam desse processo e, depois de décadas de circulação, alguns artistas chegam a uma exposição acompanhados por uma familiaridade que outros ainda não possuem.


É justamente por isso que rever Miró pode ser mais interessante do que simplesmente reencontrar um nome consagrado. A imagem facilmente reconhecível de sua obra corresponde apenas a uma parte de uma produção extensa e experimental. A exposição atual reúne suportes diversos e permite acompanhar mudanças ocorridas ao longo de mais de seis décadas. Em 2015, A Força da Matéria já apresentava um Miró interessado em procedimentos técnicos e materiais diversos e recuperava sua conhecida intenção, formulada no final dos anos 1920, de romper com a concepção tradicional da pintura de cavalete. Olhar para essa produção em 2026 ajuda a compreender transformações ocorridas na arte do século XX que alteraram a relação do artista com materiais, suportes e convenções. Isso não exige atualizar artificialmente sua obra nem afirmar que Miró seria contemporâneo.


Miró é moderno. Sua importância para o público atual está também na possibilidade de compreender antecedentes de questões e liberdades que hoje encontramos incorporadas à produção artística.

Há, entretanto, outra questão nessa permanência. Se exposições de artistas historicamente consagrados conseguem mobilizar centenas de milhares de pessoas enquanto grande parte da produção contemporânea ainda circula entre públicos restritos, precisamos considerar o papel do próprio repertório nessa diferença. Como desenvolver interesse por artistas com os quais raramente se tem contato? Reconhecimento é resultado de circulação, exposições, publicações, pesquisa, crítica, aquisições institucionais e mercado. Os artistas que hoje parecem referências incontestáveis também passaram por longos processos de legitimação. A familiaridade que beneficia Miró foi construída ao longo de décadas. Para a produção contemporânea, especialmente aquela que ainda está fora dos grandes centros de legitimação, a possibilidade de ampliar público também depende da continuidade com que esses trabalhos são apresentados, estudados e colocados em circulação.


A permanência do moderno na programação cultural também revela como se forma o olhar do público. Trazer Miró ao Brasil oferece acesso a obras importantes da história da arte, mas o repertório não deveria terminar nos nomes que já aprendemos a reconhecer. Se parte do desejo de visitar uma exposição nasce da familiaridade construída anteriormente, formar público para a arte contemporânea exige ampliar também aquilo que lhe oferecemos como referência. Talvez a questão não seja por que ainda queremos ver Miró, mas quais artistas estamos apresentando hoje com continuidade para que também façam parte do repertório das próximas gerações.



Serviço


Miró: Mestre das Formas

Curadoria: Jordi J. Clavero

Período: 7 de agosto a 12 de outubro de 2026

Local: Museu de Arte Brasileira da FAAP, MAB FAAP

Endereço: Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo,SP

Visitação: terça a domingo, das 9h às 20h, com última entrada às 19h. Fechada às segundas-feiras, com exceção dos feriados de 7 de setembro e 12 de outubro.

Ingressos: terça a sexta, R$ 50 inteira e R$ 25 meia-entrada; sábados, domingos e feriados, R$ 60 inteira e R$ 30 meia-entrada.

Classificação: livre

Duração estimada da visita: aproximadamente 60 minutos.

Acessibilidade: espaço acessível para pessoas com mobilidade reduzida e recurso de audiodescrição.

Bilheteria física: MAB FAAP, Prédio 1, subsolo, sem taxa de conveniência.

Estacionamento: disponível no local mediante pagamento.

Realização: Instituto Totex, por meio da Lei Rouanet e do Ministério da Cultura, em colaboração com a Fundação Joan Miró e parceria institucional com a FAAP e o MAB FAAP.


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