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marisa melo

A Revolução da Arte Têxtil: Legado e Influências de Magdalena Abakanowicz e Sheila Hicks

  • Foto do escritor: Marisa Melo
    Marisa Melo
  • 27 de mai.
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 6 dias


Magdalena Abakanowicz cresceu na Polônia marcada pela guerra. Sheila Hicks desenvolveu sua formação nos Estados Unidos e encontrou nas tradições têxteis da América Latina uma fonte permanente de investigação. Por caminhos distintos, ambas ampliaram os limites da arte têxtil e contribuíram para transformar fibras, tecidos e tramas em uma das linguagens mais relevantes da arte contemporânea.


Sheila Hicks
Sheila Hicks

Durante séculos, tecidos, bordados, tapeçarias e tecelagens ocuparam uma posição periférica na história da arte ocidental. Enquanto pintura e escultura consolidavam seu prestígio dentro das academias, dos museus e das coleções, os trabalhos realizados com fibras permaneciam frequentemente associados ao artesanato, à decoração e à produção utilitária. Essa divisão não estava ligada à complexidade técnica ou à qualidade estética dessas práticas, mas a uma hierarquia construída historicamente que separava as chamadas belas-artes das artes aplicadas. A segunda metade do século XX começou a alterar esse cenário de forma decisiva. O tecido deixou de ser compreendido apenas como suporte e passou a ocupar o espaço expositivo como linguagem autônoma. Entre os nomes responsáveis por essa transformação, poucas artistas tiveram papel tão determinante quanto Magdalena Abakanowicz e Sheila Hicks.


Nascida em 1930, numa família aristocrática da Polônia, Magdalena Abakanowicz viveu a infância durante a Segunda Guerra Mundial e testemunhou as profundas transformações políticas que marcaram o país nas décadas seguintes. Sua formação ocorreu em Varsóvia, num contexto de reconstrução social e material que influenciou sua relação com a matéria. Ao longo dos anos 1960, desenvolveu os trabalhos que a tornariam internacionalmente conhecida: os Abakans. Produzidas com fibras, cordas e tecidos, essas estruturas monumentais abandonavam completamente a lógica tradicional da tapeçaria. Em vez de permanecerem presas à parede, ocupavam o espaço, suspendiam-se do teto e alteravam a circulação do público. As formas orgânicas, muitas vezes associadas a organismos vivos, casulos ou estruturas corporais, criavam uma experiência física incomum para a época.


A força desses trabalhos não estava apenas na escala. As superfícies revelavam costuras aparentes, irregularidades, dobras e densidades que enfatizavam a materialidade do tecido. Nada era escondido. O processo construtivo permanecia visível e fazia parte da linguagem da obra. Ao observar fotografias das exposições históricas dos Abakans, percebe-se que essas estruturas transformavam completamente os ambientes que ocupavam. Não funcionavam como objetos isolados, mas como corpos instalados no espaço. Nas décadas seguintes, a artista ampliou essa investigação em séries compostas por figuras humanas agrupadas, fragmentadas e privadas de individualidade. Trabalhos como Crowd, Backs e Agora apresentam multidões de corpos semelhantes, organizados em conjuntos que transformam a repetição em elemento visual. Essas instalações ampliaram questões já presentes nos Abakans e ajudaram a consolidar uma das pesquisas mais influentes da escultura produzida na segunda metade do século XX




Magdalena Abakanowicz


Dois caminhos para reinventar a matéria têxtil


Se a produção da artista polonesa é marcada pela fisicalidade, pelo peso e pela relação com o corpo, Sheila Hicks construiu sua trajetória a partir de uma investigação concentrada na cor, na textura e nas possibilidades estruturais do fio. Nascida em Nebraska, nos Estados Unidos, em 1934, formou-se na Universidade de Yale, onde estudou com Josef Albers. O contato com suas pesquisas sobre cor foi importante, mas uma parte decisiva de sua formação aconteceu fora da universidade. Durante viagens pela América Latina, entrou em contato com técnicas têxteis desenvolvidas por culturas pré-colombianas e por comunidades que preservavam tradições ancestrais de tecelagem. Essas experiências ampliaram sua compreensão sobre o potencial artístico das fibras e permaneceram como uma referência constante ao longo de sua trajetória.


Ao longo de mais de seis décadas de trabalho, construiu uma pesquisa com grande liberdade formal. Fios enrolados, tecidos comprimidos, feixes de fibras, estruturas suspensas e grandes instalações convivem com pequenas peças produzidas em dimensões intimistas. Em muitas exposições, a cor assume protagonismo absoluto. Vermelhos intensos, amarelos luminosos, azuis profundos e combinações cromáticas vibrantes transformam os materiais têxteis em elementos escultóricos. Diferentemente da monumentalidade encontrada em parte da produção de Abakanowicz, suas instalações exploram movimento, leveza e expansão visual.


Em exposições realizadas nas últimas décadas, suas obras passaram a ocupar museus e instituições de grandes proporções, transformando paredes, pisos e áreas de circulação em extensões da própria linguagem têxtil. Agrupamentos de fibras pendem do teto, acumulam-se em grandes volumes ou percorrem a arquitetura como linhas desenhadas no espaço. Essa liberdade permitiu que transitasse entre pequenas peças e instalações monumentais sem abandonar o interesse pelas qualidades físicas do material. Independentemente do tamanho da obra, o fio permanece no centro de sua pesquisa.



Sheila Hicks


As aproximações entre as duas artistas terminam justamente onde suas linguagens começam a se diferenciar. Enquanto Magdalena Abakanowicz construiu formas densas, orgânicas e frequentemente associadas ao corpo, Sheila Hicks desenvolveu uma pesquisa orientada pela cor, pela estrutura e pelas possibilidades construtivas do fio. Uma trabalha a partir do volume e da massa. A outra explora agrupamentos, torções, compressões e relações cromáticas. Essas diferenças ampliam a importância de suas contribuições. Não existe um único caminho para a arte têxtil contemporânea. As duas artistas demonstram que um mesmo material pode produzir resultados radicalmente distintos.


A presença crescente da arte têxtil em museus, bienais e grandes exposições internacionais demonstra que essa linguagem ocupa hoje uma posição muito diferente daquela observada há poucas décadas. Bordados, tecelagens, fibras vegetais, tecidos industriais e técnicas tradicionais passaram a integrar projetos curatoriais dedicados a temas como identidade, território, migração, memória e questões ambientais. Esse interesse renovado não surgiu de forma espontânea. Ele foi construído por artistas que ampliaram as possibilidades do tecido dentro da arte contemporânea e abriram caminhos para novas gerações. Ao observar esse movimento, torna-se impossível ignorar a contribuição de Magdalena Abakanowicz e Sheila Hicks, cujas obras continuam presentes nas discussões que definem a produção artística do nosso tempo.

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