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A dor afinada de um beijo sem volta



Eu tinha 13 anos, quando ouvi Maria Bethânia na voz de Jessé e Nelson Gonçalves pela primeira vez. Não era só a música que me tocava, era a forma como eles diziam cada palavra, como se arrancassem aquilo de um lugar sem volta. Havia algo além da beleza da letra: era entrega. Uma entrega sem filtro, sem cálculo, sem intenção de agradar. Eles cantavam como quem viveu demais. E eu, reconheci naquela dor um espelho antecipado do que viria.


Nelson Gonçalves tinha a rouquidão de quem engoliu o mundo a seco. Jessé, por outro lado, era precisão lírica, voz limpa cortando o ar como navalha afiada. Juntos, criavam uma atmosfera densa, onde o amor não era promessa, era sentença. O que cantavam não era sobre romance, era sobre sobrevivência. Sobre a insistência de amar mesmo quando o mundo já nos havia endurecido por dentro.


Há um verso que diz: “Te dei um beijo com esplendor e com dor”. Não é uma frase poética qualquer, é um corte. Um beijo com esplendor e dor não é romântico, é brutal. É o gesto de quem ama com a carne exposta, de quem entrega tudo sabendo que vai doer, mas entrega mesmo assim. É o tipo de beijo que não se repete, porque marca, porque queima, porque exige demais. Só beija com esplendor e dor quem está disposto a morrer um pouco, na boca do outro. E Jessé e Nelson Gonçalves sabiam disso. Suas vozes não tocam a superfície da música, elas a rasgam.


Cantam esse verso como quem revive um abismo, como quem sangra com elegância. É uma entrega que não aceita ser chamada de bonita. É crua. É a beleza que machuca. A dor que não pede desculpa. O esplendor que queima.

A música me pegou no corpo todo, ficou impregnada. Não como lembrança bonita, mas como reconhecimento imediato. Era como se eles colocassem voz em algo que eu ainda não sabia organizar. Aquela interpretação me mostrou cedo que amor não existe apenas para acalmar. Às vezes ele desarruma tudo. Há beijos que confortam, mas há outros que arrasam o terreno inteiro e, ainda assim, não deixam de ser verdade.


Ouvir Maria Bethânia naquele tempo era um ritual. Eu fechava os olhos e deixava as vozes me carregarem para dentro de uma história que, embora não fosse minha, já me pertencia. Porque o amor, quando é vivido até o limite, tem o mesmo rosto em qualquer boca. E naquela música, tudo era excesso: de desejo, de dor, de verdade. Era isso que me encantava. A ausência de máscara. A coragem de cantar algo que sangra.


Hoje, quando escuto de novo, ainda sinto o impacto. Não como quem lembra, mas como quem revive. Porque certas músicas não passam, permanecem em carne viva. E se há um lugar onde o amor ainda sobrevive com dignidade, é nesse tipo de canção: onde cada sílaba é uma cicatriz, e cada pausa, um luto.



"Escrevo para não desaparecer. Se algo em mim tocou algo em você, então já não estamos tão sós. " MM

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© 2016 por Marisa Melo

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