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Uma conversa com Ana Marcia Nery: arte, repertório e liberdade criativa

Foto do escritor: Marisa Melo
Marisa Melo
há 22 horas
6 min de leitura

Marisa Melo entrevista a artista sobre sua trajetória, as referências culturais e as escolhas que orientam sua produção artística.



Arte abstrata vermelho, preto e branco com curvas onduladas e linhas finas, lembrando tecido artístico.
Labirinto, 2026 - Técnica mista_50x70cm


Nascida em Salvador, na Bahia, Ana Marcia Nery vive e trabalha entre Fortaleza e a Bahia. Sua trajetória reúne uma formação acadêmica diversificada, uma carreira de 26 anos como executiva e advogada em empresas multinacionais e uma relação com as artes cultivada desde a infância. Caçula de uma família de nove irmãos, cresceu em um ambiente de intensa atividade cultural, entre música, teatro, literatura, pintura e trabalhos artesanais. A mãe, dedicada à escultura e a diferentes ofícios manuais, teve participação especial nesse cotidiano, em que cores, tecidos, tintas e materiais faziam parte da vida doméstica.


Antes de concentrar sua produção na pintura, Ana Márcia dedicou-se à cerâmica e à pintura em porcelana, experiências que ampliaram seu interesse pela matéria, pela cor e pelos processos de criação. Hoje, trabalha principalmente com tinta acrílica e óleo em bastão, desenvolvendo composições figurativas e abstratas. Sua pintura tem exuberância cromática e um repertório alimentado pelas viagens, pelas visitas a museus e pelo contato com diferentes manifestações culturais.




Mulher loira de blusa preta e colar dourado posa em ambiente interno moderno, com expressão séria.
Ana Marcia Nery

Nesta entrevista conduzida por Marisa Melo, Ana Marcia fala sobre as memórias que despertaram seu interesse pela arte, a passagem da vida corporativa para uma dedicação maior ao ateliê e a importância da liberdade em seu processo criativo. Ao comentar a experiência com a cerâmica, as decisões que acompanham cada pintura e o prazer que encontra no trabalho artístico, a artista oferece uma perspectiva pessoal sobre sua trajetória e sobre aquilo que continua a despertar sua curiosidade.






MM. Como a arte entrou em sua vida e em que momento você começou a desenvolver seu próprio trabalho artístico?


AMN. Interessante que não havia pensado em "como" a arte entrou na minha vida, talvez tivesse pensado “quando” . Creio que veio através de estímulos em minha infância, das brincadeiras na rua, da curiosidade nas histórias contadas, das leituras, das massinhas de modelar, lápis de cor, gibis, de observar a rotina de minha casa, com minha mãe sempre rodeada de cores, pinceis, pedaços de tecidos, tintas e linhas, a casa sempre florida e perfumada, os estofados e cortinas coloridos e cheios de texturas e ela preparando diariamente os materiais para que pudesse desenvolver suas artesanias. Somado a isso tive um irmão ator, que vivia declamando poemas e com figurinos extravagantes, passando textos em voz alta, se preparando para o teatro. Também ao ver minha irmã escolhendo cenários e figurinos para seus musicais, sem esquecer inúmeras revistas, vinis e livros com desenhos, gravuras coloridas espalhadas pelas estantes, dos artesanatos, de tudo isso que me chamava muito a atenção. Ficava verdadeiramente fascinada pela música que tocava diariamente na vitrola e me lembro sempre observando as conversas, as cores e a decoração simples, mas alegre da minha casa.

 

Eu fui uma criança muito ligada e sensível a estímulos visuais, visitava museus, bibliotecas, parques e teatros infantis. Me encantava as formas das coisas e suas funções. Minha arte iniciou através das letras. Amava ler e escrever sobre todos os assuntos indistintamente, mas com uma atração especial em histórias vividas ou criadas por minha mente criativa de criança.

 

Depois atuei em teatro, dança e já adulta me apaixonei pela pintura em porcelana e por cerâmica, que amava criá-las e esmaltá-las para somente depois descobrir o que o forno a 1240° C me entregaria como resultado.  A pintura em tela veio mais tarde, após a aposentadoria como uma maneira, não intencional, de preencher espaços que me pareciam vagos ao me perceber com o meu “ninho vazio” com o crescimento e saída dos filhos e também após momentos desafiadores de saúde. Pude então, encontrar na pintura momentos de muita tranquilidade, reencontro e vibração. 

 

 

 

MM. Sua história familiar reúne diferentes manifestações artísticas. De que maneira esse convívio desde a infância contribuiu para a relação que você estabelece hoje com a arte?

 

AMN. Creio que a rotina rodeada de diversas expressões artísticas me motivou sobremaneira a admirar o belo, impulsionando minha criatividade e promovendo, mais tarde, a arte pictórica como forma de comunicação 




Pintura abstrata com pequenos blocos coloridos em vermelho, azul, amarelo, verde e rosa, criando padrão vibrante e caótico.
Tessela, 2026 - Acrílica sobre tela_50x70cm


MM. Depois de uma longa trajetória profissional como executiva e advogada, a produção artística ganhou espaço em sua vida. Como aconteceu essa mudança e o que a levou a dedicar mais tempo à criação?


AMN. Certamente toda minha trajetória executiva ajudou a expandir minha visão criativa, ao me permitir visitar museus, galerias, exposições, ter contato com artistas das mais diversas vertentes (quando trabalhei na área de Comunicação e Marketing de uma multinacional) e -principalmente, conviver com pessoas de diversas áreas e objetivos abriu meu olhar para o mundo e para minha própria história possibilitando pavimentar meu momento atual, de aposentadoria profissional, para usufruir de mais tempo para estudar e me dedicar à minha arte. 



 

MM. Você viaja com frequência e costuma visitar museus, galerias e exposições em diferentes países. O que procura nessas experiências e como o contato com a produção de outros artistas participa da construção do seu repertório?

 

AMN. Estas visitas são o principal motivo de toda e qualquer viagem. Sempre priorizei a parte cultural e aprendi que diversão está intrinsecamente conectada à exploração das produções artísticas, e gastronômicas e culturais de forma geral. 

Enriqueço o meu repertório observando as obras e produções de todos os artistas renomados ou desconhecidos. Todas as formas de expressão artística me interessam. Fundamental observar a obra pronta, mas saber ou perceber o processo me instiga. Imaginar o que o autor pensou, decidiu, viu é fascinante. Ver novas técnicas, texturas, pinceladas, instalações, instrumentos me deslumbra. Me entrego ao tempo que for necessário para ter este prazer e é dele que alimento minha alma criativa, que enriqueço meu repertório. 





Teto de igreja pintado em tons de verde e dourado, com cruz no topo sob céu azul com nuvens.
Corcovado, 2025 - Acrílica sobre tela_100x120cm

 


MM. Sua produção transita entre a abstração e a figuração, com uma paleta intensa e escolhas intuitivas. Como começa uma pintura e o que orienta suas decisões durante o processo criativo?

 

AMN. Começo minha pintura decidindo uma paleta de cores básica e tamanho da tela. À medida que inicio as camadas (que geralmente são muitas), as texturas se vão formando e acumulando. Ali já estou completamente envolvida com o processo. Num dado momento me afasto (só fisicamente) um pouco da obra e retorno após alguns dias, (mas ela não sai da minha mente, pois fico imaginando-a muito potente na minha parede) e somente aí decido o tema ou o desenvolvimento, e geralmente a paleta se amplia e o traço também. Por vezes, chego com uma pesquisa, ainda que incipiente e defino (minimamente) o tema, a paleta de cores, os tamanhos e quantidade de telas. Mas a priori, deixo a emoção, o pulsar e o desejo me guiarem. 


 

 

MM. Você costuma dizer que pinta aquilo de que gosta e que a arte precisa ser uma atividade prazerosa. Como essa liberdade se manifesta em sua produção e qual é a importância de manter uma relação espontânea com a pintura?

 

AMN. Sim, para mim o desejo e o prazer são indissociáveis nas minhas obras. Não consigo conceber fazer uma arte sob demanda ou que eu não goste ou acredite. Entendo que existam artistas assim, mas não é o meu caso sob nenhuma hipótese. Todas as obras que exponho as teria na minha casa. Todas. Elas podem, obviamente, não agradar a todos e isso faz parte da arte e da vida e não é pretensão minha ser unanimidade, mas ela terá, obrigatoriamente, que me fazer feliz com o resultado. Creio que isso se reflete em quem as vê e as adquire. Sou feliz com meu oficio e essa felicidade vai em cada tela que pinto. 



 

MM. A cerâmica e a porcelana também fazem parte da sua trajetória. O que a experiência com esses materiais acrescentou à sua maneira de compreender a forma, a cor e a composição?


AMN. Na porcelana eu pintava e tinha uma relação muito lúdica. Já com a Cerâmica minha relação é muito intensa, completa, potente. Imaginar a origem do barro, manuseá-lo, amassa-lo, trocar energia com a argila, torneá-lo, vigiar a secagem, fazer pequenos reparos quando necessário, preparar a primeira queima, ver surgir o “biscoito”(primeira queima a 940°C), a surpresa da abertura do forno, esfriar e somente depois da lixagem, pintar. Daí inicia uma nova fase de secagem e ajustes antes de ir novamente de volta ao forno a 1240/1300°C, aguardar 72h para abrir o forno e somente aí ter a peça pronta. Percebe o processo? É muito tempo e a emoção de pegar a peça pronta é proporcional. Ter uma profunda relação com o barro, que comprovadamente é medicinal e ao mesmo tempo entender dos esmaltes (como se chama a tinta da Cerâmica) e suas misturas infinitas é uma alquimia quase divina. Toda essa experiência que a Cerâmica e a porcelana me proporcionaram, eu procuro trazer para as telas, numa relação de tranquilidade e respeito aos materiais, ao tempo, às suas funcionalidades e resultados.



 

MM. Considerando sua experiência de vida e o contato frequente com a arte, quais questões despertam hoje seu interesse e o que deseja investigar nos próximos trabalhos?


AMN. A arte, como reflexo da vida e do caminhar da humanidade, me inspira a sempre querer mais, a buscar novas técnicas, novas linguagens e possibilidades. Me encoraja a tentar atingir o “estado da arte” no que for possível e no que não for possível, que eu consiga o suficiente para ser feliz e transmitir esta alegria e satisfação através dela. 


 


Planta de folhas verdes listradas em vaso vermelho sobre mesa azul, com fundo preto; pintura vibrante e estilizada.
Espada de São Jorge, 2026 - Acrílica sobre tela_20x30cm


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