Uma conversa com Ana Marcia Nery: arte, repertório e liberdade criativa

Marisa Melo entrevista a artista sobre sua trajetória, as referências culturais e as escolhas que orientam sua produção artística.

Nascida em Salvador, na Bahia, Ana Marcia Nery vive e trabalha entre Fortaleza e a Bahia. Sua trajetória reúne uma formação acadêmica diversificada, uma carreira de 26 anos como executiva e advogada em empresas multinacionais e uma relação com as artes cultivada desde a infância. Caçula de uma família de nove irmãos, cresceu em um ambiente de intensa atividade cultural, entre música, teatro, literatura, pintura e trabalhos artesanais. A mãe, dedicada à escultura e a diferentes ofícios manuais, teve participação especial nesse cotidiano, em que cores, tecidos, tintas e materiais faziam parte da vida doméstica.
Antes de concentrar sua produção na pintura, Ana Márcia dedicou-se à cerâmica e à pintura em porcelana, experiências que ampliaram seu interesse pela matéria, pela cor e pelos processos de criação. Hoje, trabalha principalmente com tinta acrílica e óleo em bastão, desenvolvendo composições figurativas e abstratas. Sua pintura tem exuberância cromática e um repertório alimentado pelas viagens, pelas visitas a museus e pelo contato com diferentes manifestações culturais.

Nesta entrevista conduzida por Marisa Melo, Ana Marcia fala sobre as memórias que despertaram seu interesse pela arte, a passagem da vida corporativa para uma dedicação maior ao ateliê e a importância da liberdade em seu processo criativo. Ao comentar a experiência com a cerâmica, as decisões que acompanham cada pintura e o prazer que encontra no trabalho artístico, a artista oferece uma perspectiva pessoal sobre sua trajetória e sobre aquilo que continua a despertar sua curiosidade.
MM. Como a arte entrou em sua vida e em que momento você começou a desenvolver seu próprio trabalho artístico?
AMN. Interessante que não havia pensado em "como" a arte entrou na minha vida, talvez tivesse pensado “quando” . Creio que veio através de estímulos em minha infância, das brincadeiras na rua, da curiosidade nas histórias contadas, das leituras, das massinhas de modelar, lápis de cor, gibis, de observar a rotina de minha casa, com minha mãe sempre rodeada de cores, pinceis, pedaços de tecidos, tintas e linhas, a casa sempre florida e perfumada, os estofados e cortinas coloridos e cheios de texturas e ela preparando diariamente os materiais para que pudesse desenvolver suas artesanias. Somado a isso tive um irmão ator, que vivia declamando poemas e com figurinos extravagantes, passando textos em voz alta, se preparando para o teatro. Também ao ver minha irmã escolhendo cenários e figurinos para seus musicais, sem esquecer inúmeras revistas, vinis e livros com desenhos, gravuras coloridas espalhadas pelas estantes, dos artesanatos, de tudo isso que me chamava muito a atenção. Ficava verdadeiramente fascinada pela música que tocava diariamente na vitrola e me lembro sempre observando as conversas, as cores e a decoração simples, mas alegre da minha casa.
Eu fui uma criança muito ligada e sensível a estímulos visuais, visitava museus, bibliotecas, parques e teatros infantis. Me encantava as formas das coisas e suas funções. Minha arte iniciou através das letras. Amava ler e escrever sobre todos os assuntos indistintamente, mas com uma atração especial em histórias vividas ou criadas por minha mente criativa de criança.
Depois atuei em teatro, dança e já adulta me apaixonei pela pintura em porcelana e por cerâmica, que amava criá-las e esmaltá-las para somente depois descobrir o que o forno a 1240° C me entregaria como resultado. A pintura em tela veio mais tarde, após a aposentadoria como uma maneira, não intencional, de preencher espaços que me pareciam vagos ao me perceber com o meu “ninho vazio” com o crescimento e saída dos filhos e também após momentos desafiadores de saúde. Pude então, encontrar na pintura momentos de muita tranquilidade, reencontro e vibração.
MM. Sua história familiar reúne diferentes manifestações artísticas. De que maneira esse convívio desde a infância contribuiu para a relação que você estabelece hoje com a arte?
AMN. Creio que a rotina rodeada de diversas expressões artísticas me motivou sobremaneira a admirar o belo, impulsionando minha criatividade e promovendo, mais tarde, a arte pictórica como forma de comunicação

MM. Depois de uma longa trajetória profissional como executiva e advogada, a produção artística ganhou espaço em sua vida. Como aconteceu essa mudança e o que a levou a dedicar mais tempo à criação?
AMN. Certamente toda minha trajetória executiva ajudou a expandir minha visão criativa, ao me permitir visitar museus, galerias, exposições, ter contato com artistas das mais diversas vertentes (quando trabalhei na área de Comunicação e Marketing de uma multinacional) e -principalmente, conviver com pessoas de diversas áreas e objetivos abriu meu olhar para o mundo e para minha própria história possibilitando pavimentar meu momento atual, de aposentadoria profissional, para usufruir de mais tempo para estudar e me dedicar à minha arte.
MM. Você viaja com frequência e costuma visitar museus, galerias e exposições em diferentes países. O que procura nessas experiências e como o contato com a produção de outros artistas participa da construção do seu repertório?
AMN. Estas visitas são o principal motivo de toda e qualquer viagem. Sempre priorizei a parte cultural e aprendi que diversão está intrinsecamente conectada à exploração das produções artísticas, e gastronômicas e culturais de forma geral.
Enriqueço o meu repertório observando as obras e produções de todos os artistas renomados ou desconhecidos. Todas as formas de expressão artística me interessam. Fundamental observar a obra pronta, mas saber ou perceber o processo me instiga. Imaginar o que o autor pensou, decidiu, viu é fascinante. Ver novas técnicas, texturas, pinceladas, instalações, instrumentos me deslumbra. Me entrego ao tempo que for necessário para ter este prazer e é dele que alimento minha alma criativa, que enriqueço meu repertório.

MM. Sua produção transita entre a abstração e a figuração, com uma paleta intensa e escolhas intuitivas. Como começa uma pintura e o que orienta suas decisões durante o processo criativo?
AMN. Começo minha pintura decidindo uma paleta de cores básica e tamanho da tela. À medida que inicio as camadas (que geralmente são muitas), as texturas se vão formando e acumulando. Ali já estou completamente envolvida com o processo. Num dado momento me afasto (só fisicamente) um pouco da obra e retorno após alguns dias, (mas ela não sai da minha mente, pois fico imaginando-a muito potente na minha parede) e somente aí decido o tema ou o desenvolvimento, e geralmente a paleta se amplia e o traço também. Por vezes, chego com uma pesquisa, ainda que incipiente e defino (minimamente) o tema, a paleta de cores, os tamanhos e quantidade de telas. Mas a priori, deixo a emoção, o pulsar e o desejo me guiarem.
MM. Você costuma dizer que pinta aquilo de que gosta e que a arte precisa ser uma atividade prazerosa. Como essa liberdade se manifesta em sua produção e qual é a importância de manter uma relação espontânea com a pintura?
AMN. Sim, para mim o desejo e o prazer são indissociáveis nas minhas obras. Não consigo conceber fazer uma arte sob demanda ou que eu não goste ou acredite. Entendo que existam artistas assim, mas não é o meu caso sob nenhuma hipótese. Todas as obras que exponho as teria na minha casa. Todas. Elas podem, obviamente, não agradar a todos e isso faz parte da arte e da vida e não é pretensão minha ser unanimidade, mas ela terá, obrigatoriamente, que me fazer feliz com o resultado. Creio que isso se reflete em quem as vê e as adquire. Sou feliz com meu oficio e essa felicidade vai em cada tela que pinto.
MM. A cerâmica e a porcelana também fazem parte da sua trajetória. O que a experiência com esses materiais acrescentou à sua maneira de compreender a forma, a cor e a composição?
AMN. Na porcelana eu pintava e tinha uma relação muito lúdica. Já com a Cerâmica minha relação é muito intensa, completa, potente. Imaginar a origem do barro, manuseá-lo, amassa-lo, trocar energia com a argila, torneá-lo, vigiar a secagem, fazer pequenos reparos quando necessário, preparar a primeira queima, ver surgir o “biscoito”(primeira queima a 940°C), a surpresa da abertura do forno, esfriar e somente depois da lixagem, pintar. Daí inicia uma nova fase de secagem e ajustes antes de ir novamente de volta ao forno a 1240/1300°C, aguardar 72h para abrir o forno e somente aí ter a peça pronta. Percebe o processo? É muito tempo e a emoção de pegar a peça pronta é proporcional. Ter uma profunda relação com o barro, que comprovadamente é medicinal e ao mesmo tempo entender dos esmaltes (como se chama a tinta da Cerâmica) e suas misturas infinitas é uma alquimia quase divina. Toda essa experiência que a Cerâmica e a porcelana me proporcionaram, eu procuro trazer para as telas, numa relação de tranquilidade e respeito aos materiais, ao tempo, às suas funcionalidades e resultados.
MM. Considerando sua experiência de vida e o contato frequente com a arte, quais questões despertam hoje seu interesse e o que deseja investigar nos próximos trabalhos?
AMN. A arte, como reflexo da vida e do caminhar da humanidade, me inspira a sempre querer mais, a buscar novas técnicas, novas linguagens e possibilidades. Me encoraja a tentar atingir o “estado da arte” no que for possível e no que não for possível, que eu consiga o suficiente para ser feliz e transmitir esta alegria e satisfação através dela.





Comentários