Memórias do sertão paraibano em livro, exposição e pintura
- Marisa Melo

- 12 de jun.
- 6 min de leitura
Nesta entrevista, Andrea Mariano fala sobre a origem de Sertão com Nome de Mulher, a relação entre literatura e artes visuais em seu trabalho, o papel da memória na construção de sua pesquisa e a recepção do livro junto a leitores de diferentes regiões do país. A artista também comenta a importância da preservação da cultura nordestina e os próximos caminhos de uma produção que continua encontrando novas formas de narrar o sertão brasileiro.
Andrea Mariano construiu sua trajetória nas artes visuais desenvolvendo uma produção dedicada ao sertão nordestino, às experiências cotidianas de sua região e às histórias que atravessam diferentes gerações. Recentemente, essa pesquisa encontrou uma nova forma de expressão com o lançamento de Sertão com Nome de Mulher, obra literária inspirada em memórias familiares, relatos transmitidos por sua avó e uma extensa investigação sobre o contexto social e cultural do sertão paraibano no início do século XX.
O livro amplia questões que já estavam presentes em sua produção artística. A publicação reúne texto, ilustrações e uma série de pinturas desenvolvidas especialmente para o projeto, estabelecendo um diálogo entre palavra e imagem em torno das mulheres sertanejas, da força das tradições regionais e das transformações vividas ao longo do tempo.

MM- Sua trajetória começa nas artes visuais. Em que momento surgiu a vontade de escrever Sertão com Nome de Mulher e como aconteceu a passagem da pintura para a literatura?
AM- Sertão com nome de mulher nasceu como necessidade de imortalizar uma época, de um passado que persistia se manter presente pelas minhas lembranças. Foi então, que decidi retirar do baú das minhas memórias, a coragem para desenterrar todos os detalhes a mim confiados dessa narrativa real, emocionante e envolvente. Vivências fortes, que ao meu ver, não deviam ficar escondidas, mas transformadas em renascimento para serem conhecidos pelos leitores, que apreciam um bom romance nordestino. Uma história concebida de uma ouvinte atenta e por uma boa contadora de memórias, minha avó, que embora nem imaginasse o desfecho daquelas conversas, confiou a mim tais fatos. A ênfase nas mulheres, no sertão enquanto personagem, que interage diretamente no destino de cada pessoa, nas ricas experiências do cotidiano e no regionalismo forte, somaram a vontade de eternizar essas memórias, agora não apenas pelos pinceis, mas também pelas palavras em forma de livro. Uma união resultante da cultura nordestina enraizada nas tradições, fé e força de um povo.
MM- As histórias reunidas no livro nasceram de lembranças pessoais, de pesquisas ou de encontros que marcaram sua trajetória?
AM- A obra foi o resultado de memórias afetivas de minha avó paterna passadas para mim por meio de narrações detalhadas por anos. É uma história real do início do século XX, combinada a uma séria pesquisa sobre a época, fidelidade ao regionalismo nordestino e as minhas experiências decorrentes dessa vivência. O meu intuito foi manter o máximo de veracidade e respeito sobre essas memórias, para eternizá-las nesse livro, preservando todo o contexto a mim transmitido.
MM- Além dos textos, você criou as obras que ilustram a publicação e desenvolveu uma série de pinturas em acrílica apresentada em exposição. Como essas diferentes formas de expressão se encontram dentro do projeto?
AM- A minha intenção foi apresentar para meu futuro leitor, um conjunto de experiências relacionadas não só a literatura forte nordestina, mas levá-los a percepção da emoção pelas diversas formas de arte relacionadas a esse projeto, como os desenhos que antecedem os capítulos e a exposição de obras de arte voltados ao tema do Nordeste. Impactar o leitor com as linguagens artísticas que trabalho, foi um verdadeiro desafio, mas entendo que tanto as artes plásticas quanto a literatura se entrelaçam, dialogando o tempo inteiro com um mesmo objetivo. O projeto foi pensado para se ter uma vivência artística completa e empolgante, na qual a imagem e a palavra refletissem a emoção da história.
MM- O sertão paraibano acompanha seu trabalho há muitos anos. O que continua despertando seu interesse nesse tema e nas histórias das mulheres que vivem nessa região?
AM- O sertão é um tema extremamente inspirador, devido sua capacidade de resistência e beleza. Foi meu primeiro laboratório nas artes visuais. É interessante, que com passar dos anos, esse personagem continua sendo um atrativo para minhas comunicações culturais, sejam pela escrita ou pelas artes. A sua riqueza aguça todos os meus sentidos, reescrevendo a minha primeira impressão lá do passado quando eu ainda era criança, de surpresa pela sua diversidade de oportunidades que podem ser aproveitadas.
As mulheres sertanejas são corajosas e com grande poder transformador. Essa frequência que emanam, contagiam tudo em sua volta, pois suas histórias são banhadas de extremos em seus cotidianos, que fazem qualquer espectador se inspirar. As dores, perdas, sacrifícios, superação, alegria e sorrisos, se misturam como uma receita saborosa e repleta de expectativa no que há por vir. Essas mulheres fazem parte do meu livro não apenas como simples personagens que compõe a história, mas como grandes estrelas apresentadas num grande palco sertanejo iluminado. Até no título de minha obra literária faz referência direta ao mérito merecido as mulheres, principalmente, aquelas que viveram numa época em que o machismo preponderava e elas sobreviveram para contar suas histórias.
MM- Como integrante da Academia de Letras e Cultura de Princesa Isabel, você participa da valorização da produção cultural local. Qual a importância desse trabalho para a preservação da memória e da identidade da região?
AM- Pela relevância da instituição a que pertenço, preservar a memória é uma responsabilidade grandiosa, pois é por meio dela que mantemos as nossas próprias histórias vivas, costumes, tradições e valores. É como alinhar-se ao tempo, registrando e difundindo o patrimônio cultural imaterial e contribuindo acima de tudo, para que as futuras gerações sejam agraciadas pela herança literária e artística. A identidade do regionalismo se reproduz como riqueza cultural sertaneja, fortalecendo cada vez mais o sentimento de pertencimento e valorizando a voz do sertão e sobretudo da mulher.
MM- Sertão com Nome de Mulher chegou a livrarias da Paraíba e de São Paulo. Como tem sido o retorno dos leitores e o contato com públicos de diferentes regiões do país?
AM- O retorno tem sido maior do que minhas expectativas e vem se tornando uma emocionante cadeia de leitores voltados ao tema nordestino feminino. O mais interessante na verdade, foi a aceitação da diversidade de público em várias regiões do país que vem consumindo essa história profundamente enraizada no sertão paraibano. A maior surpresa não foi só sobre a diversidade regional, mas se destaca na questão etária, ganhando força entre os jovens. Muitos se reconhecem e se conectam as relações familiares, nas emoções, nos conflitos, nos amores, perdas, alegria e tristezas. Isso fortalece as memórias locais e provam a dimensão universal. Recebo mensagens de leitores curiosos comentando sobre os personagens, os locais dos acontecimentos da história, de opiniões sobre algumas protagonistas pontuais e encantados com o regionalismo entre as conversas que ocorrem na obra literária. Isso reforça a certeza de que, quanto mais autêntica e verdadeira é uma história, maior é a capacidade de envolver e emocionar as pessoas. Ver Sertão com nome de mulher sendo acolhido é, sem dúvida, uma das maiores alegrias que podia ter nesse projeto.
Lançamento
MM- Sua obra já foi apresentada em exposições internacionais. Como o público de outros países recebe as imagens, as histórias e as referências culturais ligadas ao sertão paraibano?
A percepção que tenho é que as obras com embasamento nordestino são aceitas com muito entusiasmo por outras culturas internacionais. Minhas obras despertam muita curiosidade pela alegria, história, autenticidade da riqueza cultural que represento. São linguagens e informações diferentes do que o público específico conhece e essa identidade peculiar cativa qualquer espectador. Sinto que, ao ultrapassar fronteiras a cultura nordestina leva consigo narrativas e sentimentos para o cenário internacional, mergulhando o observador num mar de humanidade, memória e pertencimento, além das emoções que dialogam diretamente pela própria espontaneidade da obra. O resultado é sempre reconhecimento e valorização em cada traço, atraindo a admiração pela riqueza cultural estonteante e conectando pessoas.
MM- Depois do livro, da exposição e da circulação do projeto, quais são os próximos caminhos que você pretende seguir na literatura e nas artes visuais?
AM- O livro realmente me projetou para um caminho mais amplo e ambicioso do que geralmente trabalhava. Pretendo continuar desenvolvendo projetos que integrem a literatura e as artes visuais, expandindo o diálogo entre essas linguagens. Desejo dar sequência ao universo de Sertão com nome de mulher em breve, engajando mais leitores ao aprofundamento dessa história cercada de curiosidade nordestina, regionalismo, personagens ainda mais fortes e com desfecho inesperado.
As exposições serão voltadas a essa temática da obra literária, seguindo os passos do sertão repleto de memórias vivas e conquistando públicos que não foram alcançados.
Meu maior objetivo é seguir contribuindo para a cultura nordestina e mostrar, por meio da arte, que o sertão tem personalidade, voz, história e sobretudo, nome de mulher.

































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