Jackson Pollock
- Marisa Melo

- 4 de abr. de 2023
- 3 min de leitura
Quando a pintura deixa de representar para se tornar ação, gesto e acontecimento no tempo.

Falar de Jackson Pollock é entrar num momento em que a pintura deixa de querer explicar algo e passa a se comportar como acontecimento. Não se trata apenas de um gesto radical, mas de uma mudança de posição. A tela deixa de ser um lugar estável. Com Pollock, ela passa a receber o corpo em movimento, o tempo gasto, a insistência do gesto. Pintar já não é organizar algo para ser visto depois, é permanecer ali enquanto a pintura acontece.
Jackson Pollock nasceu em Cody, Wyoming, em 1912, e morreu em 1956, aos 44 anos, num acidente de carro. Quase sempre sua história é contada a partir do excesso, da bebida, da instabilidade emocional. Esse caminho é fácil, mas raso. Ele pouco ajuda a entender o alcance de sua obra. O que sustenta Pollock não é o drama pessoal, mas a persistência de um trabalho que mudou, passo a passo, a maneira de pintar no século XX.
Formado em Nova York, sob a orientação de Thomas Hart Benton, Pollock parte de uma base figurativa consistente, próxima do muralismo e de uma composição marcada pelo movimento. Esse início importa porque desmonta a ideia de ruptura imediata. Antes da virada, houve disciplina, estudo, confronto com modelos existentes. A transformação não acontece por rejeição súbita, mas pelo esgotamento de um caminho que já não respondia às suas perguntas.
A mudança decisiva ocorre quando Pollock abandona o cavalete e passa a trabalhar com a tela no chão. Esse gesto altera tudo. O corpo deixa de ficar diante da pintura e passa a circular ao redor dela. Aproxima, afasta, contorna. A tinta não é mais aplicada com delicadeza, mas lançada, pingada, arrastada. A pintura se constrói no chão, no tempo do corpo, no ritmo da ação.
O chamado dripping não inaugura o acaso. Essa é uma leitura apressada. Pollock não entrega a pintura ao improviso desordenado. Suas telas revelam atenção constante à densidade, à repetição, aos intervalos entre um gesto e outro. Há insistência, há pausa, há retorno. O que parece excesso nasce de uma construção prolongada, feita de decisões tomadas no tempo.
Com Pollock, o espaço pictórico perde centro e hierarquia. Não existe figura principal, nem ponto privilegiado de observação. A imagem se espalha, sem direção única, exigindo do olhar um movimento contínuo. Ver um Pollock não é reconhecer uma forma, é acompanhar um percurso. O olho circula, se perde, volta, sem encontrar repouso definitivo.
Inserido no contexto do Expressionismo Abstrato, Pollock leva ao limite a ideia de que a pintura pode existir como experiência direta. Diferente de outros artistas do grupo, sua obra não se organiza em campos cromáticos estáveis ou estruturas fechadas. O que sustenta a imagem é o rastro do gesto. Pintar, aqui, não é representar um estado interno, mas deixar visível um processo.
Essa mudança tem consequências profundas. A pintura deixa de ser apenas imagem e passa a funcionar como vestígio. O quadro guarda o tempo da ação, o deslocamento do corpo, a repetição insistente do gesto. Essa compreensão amplia o campo da arte e influencia práticas posteriores como a performance, a arte processual e certas abordagens conceituais. A pintura deixa de ser fim e passa a ser registro de um acontecimento.
É importante afastar a leitura romantizada que reduz Pollock à expressão emocional pura. Sua obra não é confissão. Há método. O gesto não é desabafo, é linguagem construída. Cada camada de tinta resulta de uma relação direta entre corpo, material e duração. A pintura pensa sem recorrer à palavra, pensa pela ação que a produz.
Ao conquistar seu Passaporte para a Imortalidade, Jackson Pollock o faz por ter deslocado definitivamente a pintura do território da representação para o da experiência. Sua obra continua ativa porque ainda nos coloca diante de uma pergunta incômoda e aberta: o que acontece quando a pintura deixa de mostrar algo e passa a acontecer diante de nós? Pollock não oferece respostas visuais fechadas. Ele mantém a pintura em estado de risco, de exposição, de movimento contínuo.
Na obra de Jackson Pollock, pintar não é organizar uma imagem, é sustentar um acontecimento no tempo. A pintura nasce do contato direto entre corpo e matéria, gesto e duração. Ao transformar ação em estrutura, Pollock redefine a experiência pictórica e mantém sua obra ativa, instável e exigente, ainda hoje.
Este texto integra a coluna Passaporte para a Imortalidade.






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