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Lygia Pape e o gesto que organiza o espaço

Atualizado: 6 de jan.

Forma e corpo como método de criação


Retrato de Lygia Pape em ambiente expositivo, com corte de cabelo geométrico e roupa escura, diante de obra abstrata vermelha, imagem associada ao rigor formal e à pesquisa experimental da arte brasileira do século XX.



Lygia Pape nasceu no Rio de Janeiro, em 1927, e ali encerrou sua trajetória em 2004. A cronologia, embora necessária, diz pouco sobre uma obra que nunca se deixou organizar por categorias estáveis. Desde cedo, sua produção se orienta por uma investigação contínua da forma, não como desenho fechado ou solução visual definitiva, mas como experiência que envolve corpo, espaço e tempo em relação direta com quem observa.


A participação no movimento neoconcreto, ao lado de Hélio Oiticica e Lygia Clark, foi consequência natural dessa postura. Pape não aceitava a redução da arte a esquemas racionais rígidos, nem a submissão da geometria a uma lógica puramente visual. Para ela, o rigor formal não era um limite, mas um ponto de partida que permitia abrir a obra para a experiência sensível. A forma, quando excessivamente controlada, perdia sua capacidade de provocar deslocamento. Era preciso reintroduzir o corpo, o gesto e a percepção como partes ativas do trabalho.


Sua formação em filosofia contribuiu decisivamente para essa compreensão ampliada da arte. Em vez de pensar a obra como objeto isolado, Pape a entendia como situação, como algo que se realiza na relação. Essa visão se reflete na diversidade de meios que atravessam sua produção ao longo das décadas. Gravura, livro-objeto, cinema experimental e proposições espaciais não aparecem como desdobramentos ocasionais, mas como escolhas conscientes de linguagem. Cada suporte era tratado segundo suas possibilidades específicas, sem hierarquia entre eles.


O Livro da Criação, realizado em 1960, é um dos trabalhos que melhor sintetizam esse pensamento. Estruturado como uma sequência de páginas recortadas, coloridas e articuladas, o livro propõe uma leitura que depende do gesto do leitor. Ao virar as páginas, reorganizam-se formas, relações e ritmos. A obra não apresenta uma narrativa pronta, mas um processo em construção. A geometria, nesse caso, deixa de ser sistema fechado e passa a operar como estrutura aberta, em que ação e percepção se confundem.


Essa lógica de participação se intensifica a partir dos anos 1970 e encontra plena maturidade na série Ttéia, desenvolvida ao longo de várias décadas. Com fios metálicos tensionados no espaço e articulados pela luz, Lygia Pape constrói situações visuais instáveis, que se transformam conforme o deslocamento do corpo e a variação do ponto de vista. O que se vê não é um objeto central, mas uma organização espacial que exige atenção contínua. A obra não se entrega de imediato. Ela se revela aos poucos, na relação direta entre espaço, luz e movimento.


A experiência proposta pela Ttéia não é ilustrativa nem simbólica. Trata-se de uma construção precisa, em que a linha abandona o plano e passa a atuar no espaço real. A luz não apenas ilumina, mas desenha. O vazio deixa de ser ausência e passa a funcionar como elemento ativo da composição. Nesse conjunto, Pape demonstra que a abstração pode existir fora do quadro, sem perder rigor nem clareza.


O cinema experimental ocupa lugar igualmente relevante em sua trajetória. Em filmes como Eat Me e O Guarda-Chuva Vermelho, a artista observa o cotidiano brasileiro a partir de escolhas diretas de enquadramento e montagem. O interesse não está na narrativa tradicional, mas na construção de situações visuais que questionam hábitos de ver e consumir imagens. Mesmo no cinema, Pape mantém a mesma preocupação que atravessa toda a sua obra: provocar atenção, deslocar o olhar, evitar a passividade.


Ao longo de sua carreira, Lygia Pape manteve uma coerência rara. Sua produção nunca se acomodou a estilos consolidados nem buscou estabilizar sentidos. Ao contrário, insistiu em criar obras que dependem da participação ativa do público para se realizarem plenamente. Essa postura explica o reconhecimento internacional consolidado por exposições em instituições como o MoMA, em Nova York, e o Museu Reina Sofía, em Madri. Esse reconhecimento não altera a natureza de sua obra, apenas confirma sua relevância.


Lygia Pape conquistou seu passaporte para a imortalidade ao demonstrar que a arte pode manter precisão formal sem se fechar em sistemas rígidos. Sua obra permanece ativa porque continua a exigir envolvimento, atenção e presença. Ao transformar forma em experiência e geometria em relação, Pape construiu uma produção que segue operando no presente, sem perder intensidade nem clareza de pensamento.


No percurso de Lygia Pape, forma e corpo não se separam. A criação acontece como método de relação, em que rigor e experiência caminham juntos. Sua obra não se oferece como objeto a ser decifrado, mas como situação a ser vivida. É nessa recusa de fechamento que reside sua força, a arte como construção ativa, que só se completa no encontro e segue operando no tempo.

Este texto integra a coluna Passaporte para a Imortalidade.




Livro da Criação, (1960)
Livro da Criação, (1960)






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