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Entre o talento e a carreira: as escolhas que transformaram minha trajetória

Foto do escritor: Andrea Mariano
Andrea Mariano
há 7 horas
5 min de leitura


Mulher loira pinta em tela num cavalete, em galeria com colunas e azulejos; usa macacão azul e salto vermelho.
Andrea Mariano, Paraiba,2025

  

 

Este é um dos temas mais provocativos e controversos que conheço entre os artistas. Um dia também foi reflexo perturbador em minhas indagações. Deparei-me por várias vezes filosofando nesse sentido e sem que pareça redundante, não fazia sentido algum na época. Por que o talento carece de investimento? Por que ele sozinho não basta? Essas eram algumas das perguntas que iam e vinham em meus pensamentos no início de minha carreira como artista visual. Talvez pela falta de conhecimento sobre o mercado de arte e por, naquela época, não ser devidamente acompanhada por um profissional que pudesse me orientar. Isso me deixava estagnada e sem nenhuma direção. Eram apenas movimentos em círculos, que me deixavam desnorteada e sem crescimento algum. Foi quando conheci a curadora de arte Marisa Melo e a partir desse instante, tudo mudou. Ela me apresentou de uma forma coerente e fundamentada, um mercado exigente e repleto de etapas e requisitos a serem compreendidos. Mas, mesmo assim, os questionamentos ainda lutavam dentro de mim, e a artista amadora queria permanecer com os velhos e conhecidos hábitos, porque eram confortáveis. Mudar não é nada fácil, uma vez que retira a segurança do cotidiano. Então, nosso cérebro prefere aquilo que é conhecido e não exige esforço.


Marisa chegou como um vendaval em minha carreira, apresentando mudanças bruscas, repletas de muita complexidade e que me daria muito trabalho. A princípio, o medo tomou conta de mim, pois tudo que é novo é de difícil aceitação. É muito mais confortável permanecer naquilo a que estamos acostumados, do que enfrentar uma transformação radical, mesmo quando ela pode ser benéfica. Meu desafio maior, na verdade, foi aceitar toda essa proposta de abandono do passado, começar uma carreira diferente e que me daria bastante trabalho. Mas aceitei esse entrave, como era meu entendimento e trilhei esse novo caminho, praticamente do ponto zero.


Oportunidades assim, não surgem todos os dias e digo mais, não é para qualquer artista. Não pelo tamanho do talento, mas pela percepção do poder de enfrentar o desconhecido. Essa última parte da frase é o ponto principal. Ter a capacidade de olhar para trás, fechar a porta, ter consciência da necessidade da mudança para o crescimento e ter coragem de se submeter ao que sua carreira exige, é uma das coisas mais complexas que me dispus a fazer. Assumir um compromisso de seguir rumo ao desconhecido, apenas com a ousadia de perseguir meu sonho, foi uma grande experiência. Com certeza faria tudo de novo. Acreditei que seria possível, enfrentei as desconfianças de quem estava ao meu redor e tive a certeza que conseguiria. Segui sendo guiada por quem realmente podia abrir meus caminhos.


Marisa foi um grande divisor de águas em minha carreira como artista e agora, como escritora. Minhas conquistas, claro, vieram com esforço, paciência e persistência, mas, ao meu lado, estava essa profissional brilhante, capacitada e empenhada a me elevar de patamar, que um dia eu só via esse futuro em meus sonhos. Anos e anos de esforços, dedicação, silêncio e muito aprendizado, que realmente transformaram não só minha carreira, como também minha vida.


Acreditar que você pode alcançar seu objetivo, seja profissional ou não, vai depender apenas de sua coragem e vontade de aceitar o caminho a percorrer. Porque sonhar é fácil. Difícil é aceitar o processo. Ao longo do caminho, sempre vão existir as dificuldades que poderão desencorajar aquela decisão. Mas são provas que servem para medir a resistência de quem sobreviverá. Assim como observamos na própria natureza, sobreviver e avançar também exige capacidade de adaptação às circunstâncias e adversidades. E foi exatamente isso que me propus a fazer. Coloquei-me de coração aberto a proposta radical de Marisa e segui fidedignamente o que me era orientado.


Cada artista tem uma identidade própria na maneira de produzir seu trabalho e isso quase ninguém entende. Os curiosos criticam sem compreender o escopo da relevância da visão de quem cria, mas o curador de arte enxerga o que é enigma para muitos. Quanto a medida do talento, não acredito que exista um maior, menor ou melhor. Cada artista tem suas próprias habilidades particulares e uma forma própria de expressão. Agora, qual estilo o espectador mais se identifica é uma outra questão. O importante é o artista valorizar o que sabe fazer bem feito, sem a obsessão de pensar só na finalidade do retorno financeiro. Este é consequência do trabalho de excelência. Dar o seu melhor e empenhar-se a criar algo que fortaleça a sua história, é essencial. O desprendimento de algumas certezas para obter o crescimento foi, talvez, o meu maior problema e creio, que também é o de muitos artistas. Alguns acreditam tanto no poder do seu talento, que imaginam que ele, por si só, é mais que suficiente. Mas não é bem assim. Crescer exige muito mais que ter um determinado talento: exige maturidade, experiência, compreensão, estudo, disposição, humildade e abertura para evoluir.


Hoje, com a experiência profissional que adquiri, compreendo que investir no aprendizado é parte essencial do processo de desenvolvimento. É algo indispensável e inquestionável. Afastei-me das crenças que limitavam minha mente e o meu trabalho, passando a me dedicar a essa nova jornada que me levaria, anos depois, a lugares relevantes no mundo da arte. Tudo começou a acontecer realmente quando aqueles desafios provocados por Marisa foram sendo executados, um a um, sem desculpas. Muitas horas de dedicação exclusiva e exaustiva, a um sonho que descrevo com muita alegria: chegar ao mercado internacional com minha arte.




Série: Sertão com nome de Mulher,2025





Quanto às críticas dirigidas ao meu trabalho como artista visual, diferencio aquelas que contribuem para o meu crescimento daquelas que têm apenas a intenção de desmerecer. As primeiras, eu as escuto, não me envaideço e avalio, quando pertinentes, transformo-as em aprendizado. As demais considero apenas pequenas e sem importância. Nunca me abalei com nenhuma delas, e faço questão de registrar, porque aprendi a enfrentar essas situações com muita leveza, compreendendo que, infelizmente, a inveja às vezes, se coloca como uma presença invasora em nosso caminho, mesmo que não a queiramos por perto.


A preparação contínua me fez ver, que à medida que um trabalho ganha visibilidade e ocupa novos espaços, nem todos os olhares serão generosos. E isso, também faz parte da caminhada. O importante, é ter a consciência que o crescimento só chega com uma direção orientada por um profissional experiente e disposto a construir a sua carreira. Do contrário, o amadorismo será sua sombra por muito tempo ou talvez, para sempre.


Construir uma carreira é algo que se deve priorizar, mesmo que o curador não esteja presente. Nem todo artista visual terá o privilégio e oportunidade de ter um, mas isso não significa caminhar sem direção. Existem outros recursos acessíveis, que direcionará o criador de arte a melhorar sua trajetória. Mentorias, cursos, pesquisas, estudos, leituras, participação em exposições, entre tantas outras fontes, também são mecanismos que promovem o crescimento. Mas é preciso ter o entendimento que tudo isso representa um investimento na própria carreira e pode contribuir para um melhor posicionamento no mercado de arte.


Outro equívoco que percebo em muitos criadores de arte é manter o foco apenas no retorno financeiro. É claro que vender é importante e faz parte do trabalho, mas construir uma trajetória vai muito além disso. Quando se acredita que a habilidade, por si só, é o bastante para se manter no mercado de arte, deixam-se de lado outros aspectos fundamentais para consolidar uma identidade sólida.

             

Sendo espectadora da minha própria trajetória, compreendo claramente que o meu talento foi apenas o ponto de partida. Tudo que veio depois foi fruto de meu trabalho sério, dedicado e direcionado. Nada me foi facilitado, tampouco fui amparada por privilégios, como muitos afirmam. O que conquistei foi com escolhas bem feitas e a partir delas, abracei as oportunidades.

 

 

 

Série: Olhares,2020


Pintura em close-up de olhos azuis de uma mulher, com lenço laranja cobrindo o rosto e expressão enigmática.
Pintura de mulher com olhos maquiados, coberta por véu verde; assinatura no canto inferior, fundo escuro, olhar intenso.

 

 


Realismos


  • Desenho realista sobre papel

 

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