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Ana Marcia Nery: | A exuberância como linguagem

Foto do escritor: Marisa Melo
Marisa Melo
15 de set.
3 min de leitura

Entre paisagens, elementos vegetais e composições abstratas, a artista encontra na cor e na matéria diferentes possibilidades de interpretação do mundo visível.



Ilustração de espada-de-são-jorge em vaso vermelho sobre fundo azul e preto, com folhas verdes listradas.
Espada de São Jorge, 2026 - de Ana Marcia Nery


Ana Marcia Nery é uma pintora da abundância. Nascida em Salvador, na Bahia, cresceu numa família em que a música, o teatro e as artes visuais faziam parte do cotidiano, embora sua trajetória profissional tenha seguido inicialmente outros caminhos. Foram 26 anos de atuação como executiva e advogada, acompanhados pelo interesse pela criação artística, que encontrou na cerâmica e na pintura em porcelana suas primeiras formas de expressão. A dedicação posterior às telas ampliou esse repertório, reunindo paisagens, vegetações e composições abstratas numa pintura em que a cor e a organização das formas assumem especial importância. Espada de São Jorge oferece um contraponto interessante às superfícies mais densamente preenchidas. A planta aparece isolada diante de um fundo escuro, com folhas eretas que se projetam a partir de um vaso vermelho. A frontalidade recorda a tradição do retrato, enquanto o contraste entre o verde, o vermelho e o azul confere ao vegetal uma presença quase monumental. Familiar aos jardins e quintais brasileiros, a espada-de-são-jorge carrega uma história de crenças populares relacionadas à proteção. A escolha desse elemento cotidiano lhe concede a dignidade de um tema pictórico, numa imagem cuja força depende justamente da economia de elementos.





Pintura de telhado de igreja com cruz dourada no topo, sob céu azul com nuvens brancas.
Cristo redentor, 2026

O Cristo Redentor aparece como uma pequena figura dourada no alto da montanha de Corcovado. A formação rochosa domina a composição, construída por pinceladas fragmentadas que acentuam sua irregularidade e lhe conferem uma aparência quase mineral. O céu claro, com nuvens




brancas, introduz uma pausa diante da movimentação cromática da rocha. A diferença entre essas superfícies estabelece um contraste que valoriza a presença física da montanha. A proporção entre o monumento e a paisagem modifica a hierarquia visual habitual das representações do Rio de Janeiro, nas quais a estátua costuma concentrar a atenção. O Cristo permanece como referência reconhecível, enquanto a montanha assume o protagonismo da pintura, permitindo observar uma paisagem conhecida sob outra perspectiva.


As composições abstratas deslocam o interesse para as relações entre linha, repetição e superfície. Labirinto apresenta formas vermelhas sinuosas, delimitadas por contornos escuros, que percorrem a tela entre áreas preenchidas por pequenos desenhos. O título sugere caminhos e desvios, enquanto a alternância entre gestos amplos e marcas minuciosas estabelece diferentes ritmos de observação. Tesselas parte de outra organização. A referência ao mosaico aparece na reunião de pequenas unidades cromáticas, distribuídas por toda a composição. Cada pincelada conserva diferenças de forma e tonalidade, fazendo com que a continuidade da imagem dependa da convivência entre fragmentos irregulares. A primeira pintura conduz o olhar por trajetos; a segunda solicita uma leitura que circula livremente pela superfície. O interesse está na relação entre o gesto e a estrutura, especialmente na maneira como a repetição produz efeitos visuais diferentes conforme a distribuição dos elementos.




Abstrato colorido com pequenos blocos de tinta em vermelho, azul, amarelo, verde e rosa, formando um mosaico vibrante.
Tesselas, 2026 - Acrílica sobre tela_50x70cm
Arte abstrata com formas onduladas vermelhas e contornos pretos sobre fundo branco com padrões finos em espiral.
Labirinto, 2026 - Técnica mista sobre tela_50x70cm

A experiência com a cerâmica oferece uma perspectiva particular sobre a elaboração das pinturas. O trabalho com esmaltes e queimas exige atenção às transformações da matéria, além da disposição para acolher resultados que nem sempre correspondem ao planejamento inicial. A expectativa diante da abertura do forno, lembrada nas conversas sobre sua trajetória, pertence a esse aprendizado. A prática sobre tela conserva uma relação semelhante com a descoberta. A escolha de uma paleta frequentemente antecede a definição do assunto, e a imagem se desenvolve a partir das decisões tomadas durante o trabalho. As cores orientam novas relações, as formas ganham continuidade e a composição passa por alterações conforme a pintura avança. Esse processo permite que a ideia inicial seja reconsiderada, preservando a liberdade de experimentar até que a artista reconheça o momento de concluir a obra.


A pintura de Ana Marcia Nery nasce de uma relação espontânea com a criação, mas alcança questões que vão além do prazer de pintar. Cada tela resulta de escolhas que determinam a convivência entre as formas, a intensidade das cores e o espaço concedido a cada elemento. Paisagens, vegetações e abstrações compartilham uma mesma disposição para explorar as possibilidades da imagem, preservando as particularidades de cada composição. A exuberância encontra,um significado próprio em sua linguagem: uma maneira de compreender a pintura como território de liberdade, invenção e expressão pessoal.

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