Ana Marcia Nery: | A exuberância como linguagem

Entre paisagens, elementos vegetais e composições abstratas, a artista encontra na cor e na matéria diferentes possibilidades de interpretação do mundo visível.

Ana Marcia Nery é uma pintora da abundância. Nascida em Salvador, na Bahia, cresceu numa família em que a música, o teatro e as artes visuais faziam parte do cotidiano, embora sua trajetória profissional tenha seguido inicialmente outros caminhos. Foram 26 anos de atuação como executiva e advogada, acompanhados pelo interesse pela criação artística, que encontrou na cerâmica e na pintura em porcelana suas primeiras formas de expressão. A dedicação posterior às telas ampliou esse repertório, reunindo paisagens, vegetações e composições abstratas numa pintura em que a cor e a organização das formas assumem especial importância. Espada de São Jorge oferece um contraponto interessante às superfícies mais densamente preenchidas. A planta aparece isolada diante de um fundo escuro, com folhas eretas que se projetam a partir de um vaso vermelho. A frontalidade recorda a tradição do retrato, enquanto o contraste entre o verde, o vermelho e o azul confere ao vegetal uma presença quase monumental. Familiar aos jardins e quintais brasileiros, a espada-de-são-jorge carrega uma história de crenças populares relacionadas à proteção. A escolha desse elemento cotidiano lhe concede a dignidade de um tema pictórico, numa imagem cuja força depende justamente da economia de elementos.

O Cristo Redentor aparece como uma pequena figura dourada no alto da montanha de Corcovado. A formação rochosa domina a composição, construída por pinceladas fragmentadas que acentuam sua irregularidade e lhe conferem uma aparência quase mineral. O céu claro, com nuvens
brancas, introduz uma pausa diante da movimentação cromática da rocha. A diferença entre essas superfícies estabelece um contraste que valoriza a presença física da montanha. A proporção entre o monumento e a paisagem modifica a hierarquia visual habitual das representações do Rio de Janeiro, nas quais a estátua costuma concentrar a atenção. O Cristo permanece como referência reconhecível, enquanto a montanha assume o protagonismo da pintura, permitindo observar uma paisagem conhecida sob outra perspectiva.
As composições abstratas deslocam o interesse para as relações entre linha, repetição e superfície. Labirinto apresenta formas vermelhas sinuosas, delimitadas por contornos escuros, que percorrem a tela entre áreas preenchidas por pequenos desenhos. O título sugere caminhos e desvios, enquanto a alternância entre gestos amplos e marcas minuciosas estabelece diferentes ritmos de observação. Tesselas parte de outra organização. A referência ao mosaico aparece na reunião de pequenas unidades cromáticas, distribuídas por toda a composição. Cada pincelada conserva diferenças de forma e tonalidade, fazendo com que a continuidade da imagem dependa da convivência entre fragmentos irregulares. A primeira pintura conduz o olhar por trajetos; a segunda solicita uma leitura que circula livremente pela superfície. O interesse está na relação entre o gesto e a estrutura, especialmente na maneira como a repetição produz efeitos visuais diferentes conforme a distribuição dos elementos.


A experiência com a cerâmica oferece uma perspectiva particular sobre a elaboração das pinturas. O trabalho com esmaltes e queimas exige atenção às transformações da matéria, além da disposição para acolher resultados que nem sempre correspondem ao planejamento inicial. A expectativa diante da abertura do forno, lembrada nas conversas sobre sua trajetória, pertence a esse aprendizado. A prática sobre tela conserva uma relação semelhante com a descoberta. A escolha de uma paleta frequentemente antecede a definição do assunto, e a imagem se desenvolve a partir das decisões tomadas durante o trabalho. As cores orientam novas relações, as formas ganham continuidade e a composição passa por alterações conforme a pintura avança. Esse processo permite que a ideia inicial seja reconsiderada, preservando a liberdade de experimentar até que a artista reconheça o momento de concluir a obra.
A pintura de Ana Marcia Nery nasce de uma relação espontânea com a criação, mas alcança questões que vão além do prazer de pintar. Cada tela resulta de escolhas que determinam a convivência entre as formas, a intensidade das cores e o espaço concedido a cada elemento. Paisagens, vegetações e abstrações compartilham uma mesma disposição para explorar as possibilidades da imagem, preservando as particularidades de cada composição. A exuberância encontra,um significado próprio em sua linguagem: uma maneira de compreender a pintura como território de liberdade, invenção e expressão pessoal.




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