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A anatomia do olhar

Foto do escritor: Marisa Melo
Marisa Melo
há 1 hora
3 min de leitura

Das estruturas naturais à figura humana, a pesquisa pictórica de Cirlete Knupp explora as relações entre matéria, cor e percepção.




Pintura de uma grande árvore frondosa sobre lago, com céu azul e folhagem verde; há uma assinatura discreta na base.
Cirlete Knupp, 2023


Uma árvore pode ser observada durante anos e continuar oferecendo aspectos desconhecidos. A transformação das folhas, as irregularidades da casca, o crescimento dos galhos e as alterações produzidas pelo clima fazem parte de uma história que se desenvolve diante de nossos olhos, embora raramente lhe dediquemos atenção. A primeira pintura de Cirlete Knupp é justamente uma árvore, obra que a artista conserva em sua casa e que permite reconhecer um interesse que acompanha sua produção desde o início. Nascida no Rio de Janeiro, em 1959, e graduada em Matemática, Cirlete constrói sua formação artística por meio da prática, de estudos e de experiências compartilhadas com outros profissionais. Sua pintura encontra na natureza uma variedade de assuntos que inclui paisagens, troncos, florações e fragmentos de cascas. A escolha dessas referências permite examinar uma questão que interessa particularmente à sua pesquisa: como a pintura modifica a maneira de perceber aquilo que conhecemos pela experiência cotidiana? A resposta aparece na diversidade de tratamentos que cada assunto recebe, desde composições reconhecíveis até imagens nas quais formas e cores adquirem características abstratas.





  • Renovação, 2022 - acrílica sobre tela 80x100 cm
  • Raízes da Terra, 2022 - acrílica sobre tela 80x100 cm
  • Memórias do tronco, 2025 - 90-x54 cm acrílica sobre tela


Na série Natureza Estrutural, Cirlete Knupp encontra nas cascas das árvores uma complexidade que a paisagem, vista à distância, dificilmente permite perceber. Fissuras, relevos e variações de cor ganham outra intensidade quando ampliados e trabalhados com massas e pigmentos. A artista explora a aparência da madeira com liberdade, criando superfícies densas, nas quais a irregularidade natural encontra correspondência na matéria pictórica. Algumas composições chegam a sugerir paisagens inteiras dentro de um fragmento de tronco. A escala confunde nossas referências, e aquilo que parecia um detalhe passa a exigir um olhar demorado. É nesse deslocamento que a série encontra sua força: a natureza oferece formas que a pintura reorganiza, intensifica e apresenta sob uma perspectiva inesperada.


A fotografia autoral amplia o repertório visual da artista e estabelece um diálogo particular com sua pintura. O enquadramento recorta a paisagem, seleciona detalhes e oferece imagens que encontram outros desdobramentos no ateliê. Na série Ciclos e Transformações, a água, as alterações da luz e as variações cromáticas conferem à natureza uma aparência mutável. Reflexos e movimentos dissolvem contornos, enquanto a intensidade das cores acentua a instabilidade das imagens. As composições exploram essa mobilidade, especialmente quando água e vegetação parecem compartilhar uma mesma superfície. A paisagem adquire uma fluidez que desafia sua aparência habitual e sugere o caráter transitório daquilo que observamos.







A figura humana também faz parte de sua pesquisa. Para a exposição 1,000 Faces, realizada em 2024, na Bay 200 Gallery, no complexo The Silos at Sawyer Yards, em Houston, nos Estados Unidos, a artista desenvolve uma série de retratos que alternam a observação de pessoas reais com a criação de rostos imaginários. O papelão, escolhido como suporte, imprime sua textura e tonalidade às pinturas, conferindo unidade visual a um conjunto de fisionomias bastante diversas. Olhares incisivos, feições peculiares e variações cromáticas individualizam os personagens, enquanto a espontaneidade do desenho acrescenta vitalidade às imagens. Sob curadoria de Tony Paraná, o projeto reuniu dez artistas de diferentes nacionalidades, cada um responsável pela criação de mais de cem retratos. A reunião dessas figuras estabelece um inventário humano no qual a multiplicidade de semblantes ganha interesse pela maneira como cada rosto é concebido, entre a observação e a invenção.


Em 2026, Cirlete Knupp teve seu primeiro livro publicado pelo Selo Celeste, integrante da coleção Primeiro Capítulo, com texto crítico de Marisa Melo, curadora e proprietária da UP Time Art Gallery. Apresentada durante a SP-Arte, a publicação oferece ao leitor a oportunidade de conhecer uma trajetória construída ao longo de mais de duas décadas. O lançamento representa um reconhecimento editorial de sua produção e amplia o acesso à pesquisa artística que vem desenvolvendo.


A experiência diante dessas pinturas permite considerar uma questão sobre a maneira como reconhecemos o mundo por meio das imagens. A natureza oferece referências que associamos a formas conhecidas, enquanto a figura humana desperta interpretações construídas a partir da aparência. Cirlete trabalha com esses assuntos por meio de escolhas que interferem na percepção inicial, explorando características que podem adquirir importância diferente quando transferidas para a pintura. A variedade de sua produção permite acompanhar uma artista interessada nas relações entre aquilo que observa e aquilo que constrói, encontrando na prática pictórica um meio para desenvolver interpretações próprias.




Pintura de folha dourada gigante sobre fundo de folhas coloridas de outono; assinatura no canto inferior direito.



Pintura de floresta com árvore de copa vermelha sob céu azul, troncos altos e tons outonais.
Longevidade, 2023 - acrílica sobre tela 80x100 cm


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