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Arshile Gorky

Pintar para reorganizar o mundo quando ele já não se sustenta



Retrato em preto e branco de Arshile Gorky sentado, usando terno, em pose pensativa, mãos apoiadas sobre a perna, fundo neutro de estúdio, imagem que destaca a postura introspectiva do artista.


Falar de Arshile Gorky é falar de um artista que transforma a pintura em instrumento de reconstrução. Sua obra não nasce do desejo de inovação formal isolada, mas da necessidade de dar forma a uma experiência marcada por perda, deslocamento e memória fragmentada. Em Gorky, pintar não é afirmar identidade, é tentar recompor algo que se desfez.


Arshile Gorky nasceu em 1904, na então Armênia Otomana, e morreu em 1948, nos Estados Unidos, onde viveu grande parte da vida adulta. Sobrevivente do genocídio armênio, emigrou ainda jovem para os Estados Unidos, carregando uma experiência de ruptura que atravessa toda a sua produção. A pintura surge como modo de reorganizar o vivido, não como relato direto, mas como elaboração sensível de uma memória que não se apresenta de forma linear.


Nos Estados Unidos, Gorky constrói sua formação de maneira obstinada. Estuda, copia e assimila profundamente a tradição moderna europeia. Cézanne, Picasso e Miró aparecem como referências claras em diferentes momentos, mas nunca como modelo a ser seguido de forma literal. Gorky aprende copiando para depois desestabilizar, insistindo até que a forma deixe de ser empréstimo e passe a responder à sua própria experiência.


Durante os anos 1930, sua pintura ainda mantém vínculos com a figuração, mas já revela uma instabilidade formal que anuncia o caminho seguinte. As figuras começam a se dissolver, o desenho deixa de contornar com precisão e a cor passa a operar de maneira mais livre. Nada se fixa completamente. A imagem parece sempre em transformação, como se estivesse sendo construída e desfeita ao mesmo tempo.


A partir dos anos 1940, essa instabilidade se torna linguagem. Linhas orgânicas se espalham pela superfície, cores diluídas se sobrepõem e as formas passam a flutuar, sem hierarquia evidente. O desenho não organiza, sugere. A cor não define, tensiona. A pintura deixa de oferecer leitura imediata e passa a exigir um olhar que aceite a demora e a ambiguidade.


Em obras como The Liver Is the Cock’s Comb e The Betrothal, a memória aparece não como narrativa, mas como estrutura sensível. Não há cenas reconhecíveis nem símbolos fixos. A lembrança se manifesta como fragmento, como relação entre forma, cor e gesto. Pintar, para Gorky, não é recordar, é reorganizar visualmente aquilo que não pode ser dito de forma direta.


Embora frequentemente associado ao expressionismo abstrato, Gorky ocupa uma posição singular. Diferente de artistas que enfatizam o gesto expansivo ou a afirmação corporal direta, sua pintura mantém uma tensão constante entre delicadeza e conflito. O gesto não explode, hesita. A linha se prolonga como busca, não como afirmação. Essa característica torna sua obra decisiva para a consolidação de uma abstração mais complexa na arte americana.


Nos últimos anos de vida, dificuldades pessoais e de saúde se acumulam. Um incêndio destrói parte de seu ateliê, um acidente o deixa debilitado e perdas afetivas se somam. Em 1948, Gorky tira a própria vida. Esse desfecho trágico não define sua obra. O que define Gorky é a persistência em pintar, mesmo quando tudo ao redor parece instável demais para sustentar qualquer certeza.


A importância de Arshile Gorky está justamente nesse lugar intermediário que ele constrói. Ele não rompe de maneira abrupta com a tradição, nem se acomoda a ela. Sua pintura articula memória, forma e processo, abrindo caminho para que a abstração americana pudesse lidar com subjetividade sem perder densidade formal. Sem Gorky, o expressionismo abstrato se tornaria mais pobre em complexidade e nuance.


Ao conquistar seu Passaporte para a Imortalidade, Arshile Gorky o faz por ter afirmado a pintura como espaço de elaboração contínua da experiência. Sua obra segue atual porque não oferece soluções fechadas. Ela insiste no processo, na tentativa, na imagem como construção sempre provisória.


Na obra de Arshile Gorky, pintar é um modo de permanecer elaborando o mundo quando ele já não se apresenta como inteiro. A forma surge da memória, mas não para ilustrá-la. Surge para reorganizá-la. Entre gesto contido e cor instável, sua pintura mantém vivo um pensamento que se constrói no tempo, sem prometer síntese nem conclusão.

Este texto integra a coluna Passaporte para a Imortalidade.






Obras emblemáticas de Arshile Gorky


1. The Artist and His Mother, c. 1926–1936

Óleo sobre tela

Obra central de sua trajetória. A figura materna aparece como memória estruturante, não como retrato afetivo. A rigidez formal e a contenção do gesto revelam a tensão entre lembrança, perda e construção da imagem.


2. Garden in Sochi, 1941–1943

Óleo sobre tela

A memória da infância surge como organização visual, não como narrativa. A paisagem se dissolve em formas orgânicas, antecipando o deslocamento definitivo da figuração para a abstração.


3. Water of the Flowery Mill, 1944

Óleo sobre tela

Desenho e cor operam em equilíbrio instável. A imagem parece sempre em formação, característica essencial da pintura de Gorky nesse período de maturidade.


4. The Liver Is the Cock’s Comb, 1944

Óleo sobre tela

Obra-chave de sua produção. As formas flutuantes e a cor diluída articulam memória e invenção, afirmando uma linguagem própria entre o surrealismo e a abstração.


5. The Betrothal II, 1947

Óleo sobre tela

Uma das obras finais. A pintura se organiza por linhas delicadas e campos cromáticos suspensos, consolidando a abstração como espaço de elaboração sensível.

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