SERTÃO COM NOME DE MULHER | ARQUIVO DE QUEM PERTENCE AO LUGAR
- Marisa Melo

- há 5 dias
- 3 min de leitura
Atualizado: há 1 dia

Em O Auto da Compadecida, Ariano Suassuna constrói um universo em que a cultura popular nordestina aparece como matéria narrativa. O sertão, a fé, o cangaço e o cotidiano das pessoas simples do interior paraibano recebem o mesmo grau de atenção e conhecimento. Ariano conhecia o sertão por experiência direta antes de transformá-lo em literatura, e essa diferença aparece em cada personagem, em cada situação e em cada detalhe retirado da vida cotidiana da Paraíba. Natural de Princesa Isabel, Andrea Mariano desenvolve sua produção a partir dessa mesma proximidade com o lugar retratado. Artista visual e escritora, ocupa uma cadeira na Academia Princesense de Letras e Artes, instituição fundada em 2019 para preservar e difundir o patrimônio cultural de uma das cidades mais importantes do interior paraibano. A atuação simultânea na literatura e nas artes visuais revela como sua pesquisa se organiza: escrita e imagem registram o mesmo universo por caminhos diferentes, mantendo o sertão e a experiência feminina como eixo central da produção.
Quem cresce num lugar acumula um repertório de detalhes que nenhuma pesquisa documental consegue reproduzir com a mesma precisão. A escolha do que entra numa composição, o enquadramento de uma figura, a proporção entre os elementos de uma cena, tudo nasce de um olhar construído pela convivência direta com aquele ambiente. Esse repertório aparece ao longo de toda a trajetória da artista. Desenho, pintura, conto e ilustração surgem como formas distintas de examinar o mesmo universo. Cada etapa modifica a abordagem sem alterar o eixo principal da produção. O livro Sertão com Nome de Mulher, lançado em março de 2025, nasce das conversas com a avó. As histórias ouvidas desde a infância foram anotadas ao longo dos anos, movidas pela percepção de que certos relatos desaparecem junto das pessoas que os carregam. Depois da morte da avó, esse conjunto de lembranças passa a organizar o livro. As personagens femininas, as situações e os episódios do interior paraibano surgem dessas histórias preservadas ao longo do tempo.

O livro foi escrito e ilustrado pela própria artista. Os desenhos autorais que acompanham a narrativa também passam a existir fora do contexto editorial, transformando-se em obras independentes sem perder unidade visual. A escrita desenvolve a narrativa pela duração da prosa. O desenho trabalha pela síntese do traço. Nas ilustrações, o recurso central é o contorno a lápis: silhuetas que definem a figura pelo limite externo enquanto o interior da forma permanece branco. Essa escolha concentra a informação na postura do corpo, no gesto e na construção da figura. A forma delimitada basta para identificar uma mulher, uma situação e um lugar. As figuras femininas carregam marcas de trabalho, religiosidade e vida cotidiana típicas do interior paraibano. O uso recorrente da silhueta desloca a atenção da feição para o corpo, transformando cada personagem em representação coletiva.
Nas pinturas em acrílica, a iconografia do sertão aparece com a familiaridade de quem cresceu entre esses elementos. Indumentária, animais do campo e a arquitetura simples das cidades do interior organizam cenas imediatamente reconhecíveis. O realismo permanece na base da construção das figuras, no tratamento da luz e na atenção ao detalhe concreto. Essa referência continua mesmo quando a composição avança para soluções mais sintéticas, indicando domínio suficiente para alternar linguagens sem perder unidade visual. Grande parte da produção começa em esboços e desenhos antes de chegar à tela. A restauração de obras sacras também amplia seu domínio técnico da pintura e reforça o interesse pela preservação da imagem e da cultura material. A paleta acompanha a temperatura visual do sertão. Tons terrosos, ocres e verdes secos da caatinga pertencem ao ambiente retratado e reproduzem a atmosfera do interior paraibano. Quando a cor ganha intensidade nas festas populares e nas indumentárias, esse aquecimento também nasce da experiência direta do lugar.
Ao longo da trajetória, Andrea Mariano desenvolveu um registro visual e literário do interior da Paraíba, das mulheres que vivem e trabalham nesse ambiente e das histórias transmitidas entre gerações. Ariano Suassuna defendia que a arte nordestina possuía personalidade própria e dispensava justificativa. O olhar presente nessa produção confirma essa afirmação.
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