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Amar Não É Ilusão: Uma Resposta a Schopenhauer



Arthur Schopenhauer enxergava o amor como um engano engenhoso da natureza. Em sua leitura, a paixão não passaria de um artifício biológico, um impulso disfarçado de afeto, criado para garantir a continuidade da espécie. O indivíduo acredita escolher, mas é escolhido. Ama, mas serve. O casamento, surge como a etapa posterior do erro, quando o véu cai e o que resta é a convivência entre expectativas frustradas. Há dureza nessa visão, mas também há inteligência. Schopenhauer não falava por ingenuidade, falava por observação.


É inegável que muitas relações confirmam parte dessa percepção. Promessas que se dissolvem, desejos que se transformam em cobrança, intimidade que se converte em hábito mecânico. O filósofo percebeu algo real, a facilidade com que o amor é confundido com projeção, carência ou desejo de posse. O problema começa quando essa constatação é tomada como definição total do amor. Ao fazer isso, um fracasso recorrente passa a valer como essência, como se a falha humana fosse prova da inexistência do sentimento.


Talvez o equívoco esteja aí. Amar não é um estado garantido nem um acontecimento espontâneo que se sustenta sozinho. Amor não é impulso nem entusiasmo. Ele exige decisão, lucidez e trabalho emocional. Quando essas camadas são ignoradas, o vínculo se fragiliza. Não porque o amor seja falso, mas porque foi tratado como algo que dispensa cuidado e responsabilidade. O que falha, na maioria das vezes, não é o amor, é a recusa em lidar com o que ele exige depois do encantamento inicial.


Schopenhauer via a vontade como força cega, repetitiva, interessada apenas em se perpetuar. Mas há algo que escapa a essa lógica quando o amor amadurece. Em sua forma mais consciente, amar deixa de ser apenas desejo e passa a ser escolha. Escolha de permanecer, de considerar o outro, de negociar diferenças sem tentar anulá-las. Não se trata apenas de biologia. Quando amadurece, o amor passa a ser construção e responsabilidade.


O amor que decepciona Schopenhauer é aquele vivido como promessa de satisfação total. Esse amor realmente fracassa. Mas existe outro, menos idealizado e mais exigente, que não promete felicidade constante nem blindagem contra o desgaste. Ele admite imperfeição, conflito e mudança. Não transforma o outro em solução, nem a relação em refúgio definitivo.


Amar, não é ilusão. É risco consciente. Um gesto que só se afirma quando abandona a fantasia da completude e assume a complexidade de dois indivíduos que escolhem dividir a vida sem se apoiar em expectativas irreais. Schopenhauer tinha razão ao desconfiar das promessas fáceis. Onde talvez tenha sido severo demais foi em negar a possibilidade de um amor que não se mantém por engano, mas por decisão.

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© 2016 por Marisa Melo

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