Rossana Covarrubias, tessituras
- Marisa Melo

- 2 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 21 de dez. de 2025

Há práticas artísticas que se constroem por decisão clara de seguir fazendo. Não por ambição de imagem final, mas pela insistência em gestos pequenos que, repetidos, passam a organizar o tempo. A pintura de Rossana Covarrubias nasce dessa escolha. Repetir um fio, ajustar uma superfície, voltar a um detalhe até que ele se torne suficiente. A imagem não pede resolução rápida. O fazer segue, mesmo quando o entorno exige reorganização.
Nascida no Chile e radicada no Brasil desde a adolescência, Rossana carrega uma trajetória marcada por deslocamentos que não se apresentam como tema direto. Eles aparecem de forma mais sutil, como modo de relação com o mundo. Sua pintura não narra viagens nem memórias específicas. Ela constrói continuidade por meio do trabalho manual, do retorno ao gesto, da atenção ao que se forma lentamente.
Simone Weil escreveu que a atenção é uma forma de ação. Não como virtude abstrata, mas como exercício concreto. A pintura de Rossana se aproxima dessa ideia. Sua base é figurativa, apoiada em imagens simples e reconhecíveis. Casas, árvores, fachadas, fragmentos do cotidiano. O que transforma essas imagens não é o assunto, mas a forma como ela se aproxima delas. O trabalho avança camada por camada, incorporando materiais que trazem peso, textura e irregularidade.
Fios, folhas secas e massas aplicadas manualmente entram na superfície como partes constitutivas da imagem. Esses elementos tornam visível a insistência do gesto. O olhar não apreende tudo de imediato. Ele precisa percorrer, se ajustar, reconhecer pequenas decisões que se acumulam. Há algo de doméstico nesse processo, no sentido direto do termo, feito à mão, construído pouco a pouco, sem necessidade de conclusão.
A partir do período da pandemia, a produção de Rossana passa a ocupar um lugar central em sua vida. O diagnóstico de Alzheimer da mãe e a Esclerose Múltipla do filho mais velho alteram profundamente a dinâmica cotidiana. A pintura deixa de ser atividade paralela e se torna eixo. Não como refúgio, mas como prática diária. O ateliê se afirma como espaço de ação, onde o gesto simples ganha densidade e sentido.
Na exposição De Onde Eu Vim: Reconstruindo Memórias, Recriando Caminhos, seu trabalho se apresenta com autonomia. As obras não dependem do contexto da mostra para se afirmarem, mas dialogam com o tema de forma orgânica. A ideia de origem aparece menos como ponto fixo e mais como algo construído nas escolhas feitas no presente, no cuidado com o que se mantém em funcionamento.
Árvore da Vida (técnica mista sobre tela, 2021), Rossana organiza a composição a partir de um elemento central. Fios trançados e folhas naturais se destacam sobre um fundo azul profundo. Raízes visíveis e galhos em expansão desenham caminhos irregulares. Nada parece rígido ou definitivo. A árvore não surge como organismo em construção, formado por atenção e cuidado.
Refúgio, a artista apresenta a fachada de uma casa iluminada. Telhas em relevo, vasos, flores, trepadeiras e portas entreabertas compõem uma imagem que se afasta da descrição literal. O interesse não está na fidelidade ao lugar, mas na síntese visual que ele permite. O olhar reconhece algo familiar, sem necessidade de explicação.
Embora diferentes em composição, Árvore da Vida e Refúgio partem de um mesmo impulso. Ambas lidam com a vontade de manter aquilo que importa em funcionamento. Rossana transforma experiências pessoais em imagens que não se fecham em relato individual. Elas se abrem à identificação de quem observa justamente por se apoiarem em gestos simples, vínculos cotidianos e escolhas reiteradas ao longo do tempo.

Visite a exposição!
Exposição: De Onde Eu Vim: Reconstruindo Memórias, Recriando Caminhos
local: Shopping West Plaza, Piso IRua Francisco Matarazzo, s/n, Água Branca, São Paulo
Em cartaz até 25 de julho de 2025
Realização: UP Time Art Gallery
Curadoria: Marisa Melo








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