Fernando Botero | Passaporte para a Imortalidade
- Marisa Melo

- 10 de out. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 18 de dez. de 2025
O volume como linguagem e tomada de posição

Fernando Botero nasceu em Medellín, Colômbia, em 1932, em uma cidade marcada pela desigualdade social, pela religiosidade intensa e pela força da cultura popular. Seu pai morreu cedo, e a infância foi atravessada por dificuldades materiais, mas também por estímulos que mais tarde emergiriam em sua pintura: procissões religiosas, touradas, festas populares. Antes de dedicar-se integralmente à arte, chegou a estudar para ser toureiro, experiência que abandonou mas que lhe deu sensibilidade para o espetáculo e para o gesto que reaparecem em suas obras.
Na juventude, frequentou a Escola de Belas Artes de Bogotá e logo começou a expor. O prêmio conquistado em um concurso nacional lhe permitiu viajar para a Espanha, onde estudou em Madri e mergulhou nos mestres do Prado, como Velázquez e Goya. Mais tarde, passou temporadas na Itália, aproximando-se do Renascimento, e também no México, onde os muralistas, especialmente Diego Rivera, o inspiraram pela monumentalidade e pelo vínculo com o povo. Esse itinerário de aprendizado moldou um artista cosmopolita que, sem abrir mão de suas raízes, construiu uma linguagem inconfundível.
Essa linguagem ficou conhecida como Boterismo: uma estilização das formas que lhes confere volume exagerado, corpos inflados, objetos transbordantes. Mas engana-se quem reduz esse estilo a caricatura. O que parece apenas humor esconde crítica. O excesso de peso é também peso simbólico: uma sátira à opulência, um comentário sobre o poder, uma ironia sobre os vícios sociais. Botero conseguiu criar um idioma visual que é imediatamente reconhecido em qualquer lugar do mundo, mas que mantém raízes profundas na cultura latino-americana.
Obras emblemáticas
A produção de Botero percorre a pintura e a escultura. Na pintura, suas naturezas-mortas são um universo à parte: frutas inchadas, garrafas monumentais, mesas que parecem prestes a ceder sob o peso da abundância. Nelas, a crítica social se mistura ao prazer estético, revelando a ironia com que o artista olhava para a vida cotidiana. Suas releituras de clássicos da pintura ocidental, a Mona Lisa arredondada, as versões infladas de obras renascentistas ou barrocas, funcionam como homenagens e provocações, lembrando que nenhum cânone é intocável.
Na escultura, Botero conquistou definitivamente o espaço público. Em Medellín, doou dezenas de peças monumentais que transformaram a cidade em um museu a céu aberto. Em Bogotá, Madri, Nova York e Paris, suas figuras volumosas em bronze, cavalos, mulheres, gatos, soldados, convivem com transeuntes e se tornaram parte do imaginário urbano. Poucos artistas do século XX conseguiram colocar sua obra tão perto da vida comum.
Entre suas séries mais impactantes está a dedicada ao escândalo da prisão de Abu Ghraib, revelado nos anos 2000. Nessas obras, Botero usou seu vocabulário característico para representar prisioneiros submetidos à tortura. O resultado é perturbador: corpos inflados e vulneráveis, transformados em monumentos do sofrimento humano. Ao dar escala monumental a vítimas anônimas, o artista inverteu a lógica da humilhação, devolvendo dignidade por meio da arte.
Além disso, Botero explorou temas religiosos e políticos. Padres, bispos, generais e presidentes surgem em suas telas com a mesma volumetria irônica, denunciando o excesso de poder e a hipocrisia institucional. Essa coerência temática reforça que seu estilo não era mero recurso formal, mas ferramenta crítica.
Ao longo da vida, Botero enfrentou críticas de quem o acusava de repetição. Mas sua insistência em um mesmo vocabulário visual deve ser lida como fidelidade. Ele não buscava a variedade da novidade efêmera, mas a consistência de um universo próprio. Essa coerência fez dele um dos artistas latino-americanos mais reconhecidos do mundo, com presença em coleções e museus de todos os continentes.
Fernando Botero conquistou seu passaporte para a imortalidade porque transformou o excesso em metáfora. Suas figuras volumosas revelam a fragilidade, a vaidade, a opulência e a ternura humanas. Sua obra permanece porque fala tanto ao olhar popular quanto ao erudito, porque é simples de reconhecer e profunda de interpretar.
Ao caminhar diante de uma escultura sua em praça pública, ao ver uma tela em que a cor e a forma parecem transbordar do quadro, percebemos que o artista colombiano nos deu mais do que um estilo: nos deu uma maneira de ver o mundo em grande escala. Essa é a marca que garante a ele, sem dúvida, um lugar entre aqueles que transformaram sua visão pessoal em patrimônio universal.













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