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Célio Amorth: Fragmento

Atualizado: 21 de dez. de 2025


Pintura em óleo de Célio Amorth com fragmento de mão feminina segurando tecido claro, apresentada na exposição De Onde Eu Vim: Reconstruindo Memórias, Recriando Caminhos, com curadoria de Marisa Melo.
Toque - óleo, 12,5 x 23 cm - Célio Amorth

A pintura de Célio Amorth não se organiza como superfície resolvida. A imagem permanece em estado provisório, como se pudesse se alterar a qualquer instante. A imagem surge sempre em estado provisório, como se pudesse se alterar a qualquer momento. Há contenção, há cuidado, mas não há fechamento. Célio pinta sem teatralidade e sem promessa de conforto. Seu gesto se mantém próximo de um limite em que a imagem ainda está se formando, sem se impor como resposta.


Nascido em 1996, no interior de Mato Grosso, Célio inicia o desenho como recurso, não como projeto. Desenhar surge cedo como uma forma prática de organizar o que não encontrava saída pela fala. Não havia intenção de estilo, nem desejo de afirmação. Havia necessidade. Esse dado orienta todo o seu percurso posterior. O estudo, a técnica e as referências não apagam esse ponto de origem, apenas o deslocam para outras camadas de elaboração.


Entre 2018 e 2020, dedica-se intensamente ao fotorrealismo. O período é marcado por aprendizado rigoroso e disciplina formal, passando por mestres como Charles Laves, Maira Poli, Samuel Torres, Rafael Konishi e Jader Ferrari. O domínio do desenho, o controle da luz, da anatomia e da textura oferecem uma estrutura sólida. Ao mesmo tempo, essa fidelidade excessiva à imagem começa a impor um limite. Quando a mão obedece demais, a pintura perde margem de escolha.


O afastamento do fotorrealismo não acontece como ruptura. É gradual. Célio passa a compreender que a técnica não pode ser o destino da pintura. Ela precisa servir a algo menos previsível. Nesse deslocamento, sua obra se aproxima do figurativo contemporâneo. A figura permanece, mas passa a admitir falhas, interrupções, áreas indefinidas. A nitidez deixa de ser objetivo.


A linguagem que se consolida é construída por contenção. A paleta evita contrastes fáceis. Ocres, tons de pele modulados, brancos gastos e fundos ambarinos criam um ambiente cromático que sustenta a imagem sem conduzir o olhar de forma autoritária. A cor acompanha o gesto, não o dirige. Há refinamento nas escolhas do que não se mostra, no que permanece fora do foco imediato.


O corpo raramente aparece como totalidade. Célio prefere fragmentos, mãos, pulsos, braços, dobras de tecido. O rosto, quando surge, tende a se dissolver na sombra ou no próprio gesto pictórico. Ao retirar o rosto, ele retira também a leitura psicológica direta, deslocando o olhar para zonas menos evidentes da imagem.


Toque, essa construção se apresenta de forma clara. A pequena pintura em óleo, 12,5 x 23 cm, concentra-se em uma mão feminina que segura o tecido do vestido. A referência a John Singer Sargent não aparece como citação literal, mas como compreensão do instante. O gesto é simples, quase cotidiano. O brilho discreto do bracelete, a textura do tecido e a relação entre luz e sombra constroem uma cena que não se encerra em si. A pintura não explica o gesto, ela o mantém em aberto.


A escala reduzida exige economia. Não há excesso de informação. Cada pincelada carrega uma decisão específica. A paleta clara, com brancos perolados e tons quentes, cria uma atmosfera concentrada. O que se vê não esgota a imagem. A pintura se organiza nesse intervalo entre o visível e o sugerido.


Em Autorretrato: Célio I, óleo sobre tela, 20 x 30 cm, a relação com a história da pintura se torna explícita. A referência a Rembrandt surge como estrutura de pensamento, não como exercício de estilo. Célio se coloca dentro dessa tradição para colocá-la à prova. A figura emerge da sombra em pinceladas instáveis, como se estivesse sendo construída no próprio ato de pintar. O rosto não se fixa, permanece em estado de formação.


Esse autorretrato não afirma identidade. Ao contrário, a dilui. Não se trata de dizer quem é o artista, mas de investigar o que resta quando o eu se mistura à história da pintura, quando assume outras temporalidades e outros gestos. A obra é uma encenação controlada, em que o artista se permite ocupar outros lugares sem se perder completamente de si.


O que aproxima Toque e Autorretrato é a relação cuidadosa com o tempo. Célio não pinta cenas resolvidas. Ele pinta estados. A imagem nunca se fecha por completo. Sua maturidade não está apenas no domínio técnico, mas na escolha consciente de não utilizá-lo como demonstração de força.


Célio Amorth integra uma geração que entende a pintura como responsabilidade. Não há interesse virtuosismo vazio. Há compromisso com a honestidade do gesto e com aquilo que a pintura pode sustentar sem recorrer a efeitos fáceis. Sua obra pede atenção e recusa consumo rápido.


Na exposição De Onde Eu Vim: Reconstruindo Memórias, Recriando Caminhos, sua pintura se insere em um conjunto maior, mas preserva autonomia e coerência. Não disputa visibilidade. É justamente nessa contenção que sua força se afirma.


Há artistas que dominam a forma com segurança. Outros preferem negociar com ela. Célio constrói sua pintura nesse acordo instável. Sua obra não oferece respostas prontas. Ela reorganiza o olhar com rigor, cuidado e escolha consciente.



 Autorretrato: Célio I, óleo sobre tela, 20 x 30 cm
 Autorretrato: Célio I, óleo sobre tela, 20 x 30 cm


Visite!


Exposição: De Onde Eu Vim: Reconstruindo Memórias, Recriando Caminhos

Galeria: UP Time Art Gallery

Curadoria: Marisa Melo

Local: Shopping West Plaza, Piso I, São Paulo

Período: até 25 de junho de 2025

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