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Aterrar: Dani Xavier

Atualizado: 6 de jan.

Dani Xavier constrói superfícies que organizam o tempo do fazer.



Detalhe da série Aterrar, de Dani Xavier, acrílica sobre papel com gestos repetidos em tons terrosos e ocres, curadoria e texto crítico de Marisa Melo.

Aterrar é uma palavra que carrega peso. Não apenas físico. Há nela a ideia de organizar o corpo quando tudo parece excessivo, de encontrar um ritmo possível quando a imagem não se resolve de imediato. Talvez por isso a repetição seja tão central na série de Dani Xavier. Não como escolha estética, mas como maneira de seguir trabalhando quando a forma não pede conclusão.


A repetição nunca é idêntica. Ela retorna com pequenas diferenças, quase imperceptíveis, mas suficientes para alterar o conjunto. Esse tipo de insistência não busca variação expressiva, busca continuidade. É um modo de permanecer no fazer sem precisar justificar cada gesto.


Em algum momento, Gaston Bachelard escreveu que a matéria responde ao gesto que a trabalha. Não como metáfora, mas como constatação. A pintura devolve algo a quem insiste nela. A série Aterrar parece confirmar isso. Cada marca devolve uma resposta ligeiramente diferente, mesmo quando o movimento se repete. O gesto aprende com a superfície, e a superfície se organiza a partir dessa aprendizagem.


Dani Xavier trabalha com acrílica sobre papel. Um suporte que absorve rápido, que não permite correções longas, que registra com clareza o tempo. Não há espaço para ilusão de controle. A pintura se constrói por acúmulo, por retorno, por atenção ao que já foi feito. O papel guarda as marcas, as camadas, as pequenas decisões que se somam ao longo do processo.


A paleta se mantém próxima da terra. Ocres, amarelos queimados, marrons, variações de laranja. Não há contraste brusco nem cores que se imponham isoladamente. A cor aparece como massa, organizada e estruturada pelo ritmo das pinceladas. O olhar não encontra um centro. Circula. Volta. Reconhece padrões e, logo depois, percebe que eles não se repetem exatamente.


Algumas obras concentram as marcas, criando áreas mais densas, quase compactas. Outras permitem espaçamentos maiores, deixando a superfície respirar por intervalos irregulares. Em certos trabalhos, o gesto se curva, criando fluxos que conduzem o olhar sem direção rígida.


Há algo de muito simples nesse procedimento, e ao mesmo tempo exigente. Seguir fazendo. Voltar ao mesmo gesto. Aceitar que a imagem não se fecha rapidamente. Aterrar não apresenta respostas visuais prontas. Ela propõe um tempo diferente de relação com a pintura, um tempo que não se mede pela novidade, mas pela constância.


Talvez seja isso que a série oferece. Não uma imagem para ser consumida, mas uma experiência de aproximação. Um convite a acompanhar o modo como pequenas diferenças constroem um todo. Um trabalho que não resolve a pintura, mas se mantém dentro dela.




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