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Ananias e as abelhas: uma história curiosa do sertão paraibano.

Foto do escritor: Andrea Mariano
Andrea Mariano
há 7 horas
8 min de leitura
Abelhas voam e se agrupam num favo de mel dourado, com flores amarelas e paisagem rural sob céu azul.


Quem não gosta de saborear o mel puro, do próprio favo das abelhas? Pois é, lá no sertão da Paraíba, num tempo que as horas passavam sem pressa, tinha um certo senhor, chamado Ananias, que fazia algo tão estranho, que é difícil até de acreditar.

Era morador do Sítio Portenho, um povoado distante da cidade. Agricultor por profissão, trabalhava com disposição de sol a sol na lavoura, no solo fértil como rendeiro e ainda ajudava a cuidar daquele mundo de gado do patrão. As mãos eram calejadas do cabo da enxada, que freneticamente movimentava sobre a terra, quando apontava uma nuvem fechada de chuva no céu. Ananias não tinha tempo ruim. Entendedor dos sinais da natureza, atentava-se a qualquer modificação do tempo para usar a seu favor. Nada escapava de sua inquestionável sabedoria de vida.


Era um homem moreno, de feições simples e conservava a barba como sua única vaidade. Ninguém ousasse sugerir para ele tirar aquela belezura de seu rosto, que ficava logo aperreado do juízo. Falava embolado e no meio da conversa, soltava de repente, uma gaitada alta, pegando todo mundo de surpresa, quando percebia que não o compreendiam. Quem estivesse envolvido naquele contexto, ficava sem entender nada, inclusive se assustava com a esquisitice do homem, mas abonavam sua maneira de agir por considera-lo com juízo fraco. Ananias, que de besta não tinha nada, mantinha um padrão de comportamento acanhado, para passar melhor: tirava o chapéu, olhava para baixo, coçava a cabeça e a dava uma gaitada, que automaticamente, tomava conta do ambiente. Ele usava todos os artifícios que a vida ensinara, para escapulir de qualquer situação que pudesse lhe trazer qualquer desagrado ou inconveniente.


Por aquelas bandas, o povo acreditava que ele era doido de jogar pedra, por causa das incontáveis atitudes descabidas que, vez ou outra, apresentava. E isso virou uma incógnita para aqueles que o conheciam e até os que hoje, ouvem suas sobre suas histórias. O homem virou lenda! E se ele era doido ou não, o diagnóstico ficou por conta do povo mesmo. Médico nunca chegou a dar qualquer parecer e, como ninguém ousou contestar, ficou valendo a fama. Como toda mentira contada muitas vezes vira uma verdade, assim ocorreu com a vida de Ananias.


Ele tinha muitos hábitos curiosos e acabava influenciando tudo ao seu redor. Qualquer animal que passasse a conviver em sua rotina, parecia que endoidava também. Ele usava um cavalo de porte médio, malhado de tons marrom e branco, que o seu patrão colocara a disposição, com intuito de facilitar a lida com o gado. De tanto tanger os animais em círculo, o equino só conseguia correr dessa forma exata, mesmo sem qualquer animal para cercar. O cavalo ficara condicionado a fazer o mesmo que ele sempre o fizera realizar por anos: correr em círculos sem fim. E qualquer outra pessoa que montasse nele, não tinha jeito, se sofresse de labirintite, subisse sabendo, que pioraria dos sintomas, se não chegasse a cair. Para Ananias, esse era o modo certo de trabalhar na pecuária e ninguém o convencia do contrário. Quem seria mais doido de se trocar com ele?

Por essas e outras pérolas, o povo todo fechava os olhos para as manias daquele sertanejo cabeça dura, tido como doido de corrente.


Ele não era violento nem tomava qualquer remédio para cabeça, mas não aperreasse seu juízo, que ele se enfezava. A raiva era passageira, causava alvoroço com quem mexesse com ele, até o outro ceder as suas vontades. Quando isso acontecia, soltava logo uma risada de cabeça baixa, com aquela coceirinha tímida e proposital, corriqueira pelos cabelos crespos, salpicados de grisalho, como se estivesse satisfeito com a conquista. Em sua boca faltavam vários dentes e os que restavam, iriam permanecer ali por pouco tempo, por estarem apodrecidos. O hálito era um verdadeiro horror de embrulhar o estômago. A sua higiene pessoal era abaixo de precária, se existir lugar para isso, a catinga era sentida até nos ambientes abertos e com distância. A pessoa precisava de muita coragem e fôlego para abraçá-lo, pois permaneceria com o cheiro impregnado por muitos dias e infelizmente, nenhum perfume seria capaz de afastar o trauma daquela memória olfativa. As roupas não eram quase nunca lavadas. As crostas de sujeira, mesmo em sua pele morena, se destacavam aos olhos de quem chegasse há alguma distância dele. Banho mesmo só quando a chuva o pegava desprevenido e quando não dava para ele se abrigar debaixo de nenhum pé de pau. Naquele tempo, o povo do sítio tinha o costume de lavar apenas o rosto e os pés, mesmo depois de um dia exaustivo de serviço sob o sol escaldante e com o suor brotando como água de fonte, mas Ananias nem isso fazia. Usava, ironicamente, sempre camisa branca de mangas cumpridas, dobradas nos punhos e uma calça de cor bege pouco folgada, com um cinto bem apertado ao cós, para que aquela não mostrasse mais do que devia, despencando de vez, onde estivesse. Além de todo o trabalho fora do lar, também era responsável, por boa parte dos afazeres da casa, não por desejo, mas por necessidade.


A esposa de Ananias chamava-se como uma flor, Jasmim, mas de cheirosa só o nome mesmo e olhe lá. Ela não ficava atrás de seu marido em quase nada. Como se diz por aí “a tampa e a panela”. Eles eram tão parecidos, que realmente haviam nascido um para o outro.

Jasmim mantinha os cabelos tão sujos, que chegavam a ficar endurecidos. Nenhuma ventania tinha força de mover um só cacho de coloração opaca. Ela era conhecida na região como o famoso apelido de sibito baleada, de tão magra, mas não era de fome. Tinha sua identidade marcada pela indisposição para quaisquer serviços domésticos e para piorar a situação, ainda possuía uma dúzia de filhos, que iam se criando de todo jeito. Apresentava-se sempre de pés descalços, usando apenas com um vestido claro pela cor, levemente florido, que lhe chegava um pouco abaixo dos joelhos. Na pele, a falta total de higiene era tão evidente, que a sujeira parecia tatuagem. O odor também era bem semelhante ao do esposo. E o mais interessante, é que diferentemente de Ananias, ela recepcionava os visitantes de modo caloroso, abraçava-os demoradamente. Era um abraço tão apertado, que quem recebia cordialmente o afago, rezava para faltar o ar naquele momento. Depois, de repente, da mesma forma do marido, soltava a gargalhada sem motivos aparentes, deixando o visitante perturbado, tanto com a catinga, quanto com a gaitada fora de tempo.


A casa que essa família morava estava mais para um chiqueiro, considerando que nem todo criadouro de porcos é tão sujo como aquele. Mas incrivelmente, Jasmim sorria tanto e o tempo inteiro, que a pele do seu rosto ficava igual a um fole de sanfona de tão enrugada, mas ela transbordava de felicidade em meio aquele caos. A esposa de Ananias era muito mais fraca do juízo que ele, e talvez tenha sido esse o motivo de tanto amor e felicidade entre os dois. Nunca se ouviu falar por aquelas bandas, que aquele casal tivesse ao menos um pequeno desentendimento. Ela, quase nunca saia do sítio. Ficava dando voltas e mais voltas, de dentro para fora da casa, procurando algo que só aquela mente perturbada sabia. Ananias ainda arranjava tempo para cozinhar todas as refeições de sua família, já que a mulher só não apresentava nenhuma condição. Eram todos atípicos para a sociedade, mas típicos entre eles. Havia mais amor do que em qualquer outro lugar. Ali, ninguém se importava muito com a sujeira ou precariedade, tinham comida, paz e amor. Família reunida e unida.


Ananias levava uma vida muito mais movimentada que a de seu clã. Vez ou outra, ia na casa do patrão, na cidade e aproveitava para almoçar as delícias preparadas naquele lugar. Mas ele não ia de mãos abanando. Levava um presentinho para agradar a patroa, que era cozinheira de forno a fogão e ele apreciava muito os seus comes e bebes. Agradava toda a família de uma só vez com uma iguaria: o mel. Chegava carregado de favos de mel, que retirava dos enxames que encontrava pelo sítio. Mas não se sabia como ele conseguia com tanta facilidade e abundância aquela delícia produzida pelas abelhas. Na verdade, esse detalhe era insignificante, já que daria para saborear durante toda a semana aquele mimo trazido por Ananias. Então, como aquele homem chegava justamente na hora do almoço e se fazendo de convidado especial, botava as normas na mesa da casa do patrão. Quando a patroa colocava o feijão na mesa, ele se adiantava e dizia logo:


 - Olhe comadre, não é por nada não, mas se fosse para comer feijão, eu tinha ficado em casa. Não quero comer feijão não. Só vou comer as outras comidas boas. Traga só as outras comidas.

Todos achavam graça da coragem dele. E assim era feito. Comia tudo até cansar, menos o bendito feijão. Todos já estavam acostumados as suas risadas repentinas de sempre, que nunca faltavam e sempre comia como se não houvesse amanhã. Quando a sobremesa era servida, só dava praticamente para ele. Tinha um apetite de leão. Depois, do bucho ficar bem cheio, não esperava nem a comida sentar, subia no cavalo e seguia seu rumo ao sítio Algodão. Todos admiravam muito aquele homem, pelo esforço que fazia para sustentar os seus. Apesar da loucura que lhe atribuíam, era trabalhador e honesto como nenhum outro naquela região.


Um dia, o patrão chegando lá pelas cinco horas da manhã a casa de Ananias, para fazer a vistoria no sítio, como era de costume, foi convidado pelo anfitrião, para acompanhá-lo a retirar o famosos mel de um determinado enxame que tinha avistado há alguns dias. O patrão ficou feliz e, ao mesmo tempo perplexo pelo convite, pois esse era um grande mistério a técnica, que o morador guardava a sete chaves e com muito orgulho. Como retirar tanto mel, sem perder praticamente nada e principalmente, o que chamava mais atenção do povo por ali, sem ser atacado pelas abelhas. Lembrando que era um tempo onde não haviam roupas especiais de proteção ou maiores cuidados na coleta daquela delícia. Então, supostamente, era uma atividade extremamente perigosa para quem não tivesse tal habilidade. Mas não para Ananias. Como todas as loucuras e manias dele, também, tinha uma específica para esse caso e o patrão estava ansioso para poder finalmente conhecer a facilidade e talvez, até colocá-la em prática. Chegando ao local do enxame, pediu ao patrão que ficasse afastado por alguns metros de distância, em segurança, já que não dominava aquela habilidade, mas de onde pudesse vê-lo coletar tranquilamente o mel tão estimado. Assim o patrão o fez. Ficou atrás de uma moita apenas observando com muita atenção e mantendo o silêncio. Ananias começou seu ritual secreto: tirou completamente todas as suas roupas, ficando completamente pelado. Em seguida, pegou uma vara longa, pois o enxame estava no alto de uma árvore, e amarrou na ponta dela uma pequena quantidade de palha e folhas secas, ateou fogo, apenas para fazer fumaça espessa e aproximar-se cuidadosamente das abelhas. E aos poucos, elas iam se afastando, facilitando o trabalho de Ananias, que aproveitava a situação, para retirar os favos, acomodando-os numa vasilha com bastante atenção. O patrão, que estava com os olhos arregalados diante da imagem tenebrosa do seu morador sem roupa, ficou ainda mais espantado ao perceber que, nenhuma abelha se atrevia a picá-lo. Por um instante, chegou a pensar que as abelhas seriam muito espertas em não encostar naquele homem por causa de todo grude espalhado por sua pele. Logo após a retirada completa das favos, vestiu-se e foi ao encontro do patrão, que estava incrédulo com o que presenciara. Naquele dia, finalmente, foi desvendado o grande mistério, que Ananias mantinha guardado com tanto cuidado. Talvez, porque se contasse, ninguém iria acreditar e passaria por mais doido ainda. O patrão, por sua vez, vendo com seus próprios olhos aquela façanha do morador, não sabia se ficava mais chocado em ter presenciado vê-lo como havia nascido ou descobrir que até as abelhas tiveram o bom senso de não chegar perto de todo aquele grude.




 

 

 

 

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