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O discurso de seu Luizin | Conto

Foto do escritor: Andrea Mariano
Andrea Mariano
há 11 minutos
3 min de leitura
Homem de chapéu fala em caminhão azul num campo, cercado por agricultores com mãos erguidas; clima rural e animado.


Seu Luizin tinha um grande sonho: ser vereador e, finalmente, assumir uma cadeira no Legislativo Municipal. Lá pela década de 1950, pelas bandas do alto Sertão da Paraíba, ele criou coragem e se candidatou pelo partido da situação, tendo a certeza,

em seu coração, de que a vitória era certa. Muito bem-quisto pela população, ou pelo menos assim se considerava, passava horas imaginando a cena ideal: discursando em cima do palanque, que, na verdade seria uma carroceria de um caminhão, prometendo tudo à vontade, o que podia e até o que não podia fazer. E o melhor: sendo eleito.


Na cabeça de Seu Luizin, ele sempre fora um grande político, pois acreditava ter qualidades fundamentais para tal cargo: disposição para falar, coragem para aparecer e opinião sobre absolutamente tudo. Só que havia um grande problema: quase ninguémsabia o que ele realmente queria dizer.


Mesmo assim, Seu Luizin não desistia.

Com a proximidade das eleições, a campanha fervia a todo vapor e a

oportunidade finalmente chegara para aquele homem, que mal sabia assinar o nome.


Preparou o discurso pessoalmente, repetindo-o inúmeras vezes diante do espelho, já que só podia contar com a sua memória para a tão esperada estreia política. E foi aí que a confusão se fez presente. O povo já achava engraçada a abordagem pelo boca a boca dos assuntos que ele trazia para implantar, caso fosse eleito. Era um converseiro sem futuro. Falava, falava, falava, mas ninguém tinha coragem de lhe dizer a verdade. O pessoal o escutava atentamente, com expressão séria e até o incentivava enquanto estava

presente. Mas, quando ele saía do ambiente, a risada era geral. Ninguém aguentava escutar os converseiros de Seu Luizin.


Na data e hora marcadas para o tão sonhado discurso de estreia, Seu Luizin se ajeitou todo. Colocou a camisa nova, branca, de mangas cumpridas, passou o cinto entre as arriatas, suspendendo a calça até quase a altura do peito, puxou o cós de um lado para o outro e, em seguida, apertou o cinto sobre o barrigão. Depois, pegou o chapéu, colocou-o sobre a cabeça e, em posição de vencedor, sorriu para própria imagem refletida. Caminhou em direção à Rua Grande, no centro da cidade, pronto para brilhar.


O povo o esperava ansiosamente, pois, no dia a dia, da boca daquele homem só saíam pérolas. Tinham absoluta certeza que seria um espetáculo de comédia como nunca se vira antes, e ninguém poderia perder.


O palanque estava cheio. Um a um, os políticos presentes faziam seus discursos, mas a verdadeira estrela ainda não havia se pronunciado. O povo se espremia e se apertava. O cheiro do suor, sob o sol de meio-dia, subia. O vento passava longe, mas

todos esperavam fervorosamente Seu Luizin tomar a palavra. Quando seu nome foi anunciado ao público, foi uma loucura. Foram gritos, aplausos, risadas, pulos, tudo ao mesmo tempo e a autoestima do candidato, que já era bem elevada, subiu igual a um foguete. E Ele começou:

- Minhas senhoras e meus senhores...

- Meu povo e minha pova!

O povo aplaudia! Incentivava! Gritava:

- Muito bem, Seu Luizin!


E ele continuava:

- “Eu ajudo a fazer a estrada nova e tapo o buraco das véia...”

E a criatividade se soltava ainda mais:

- “Eu sou um cabra humilde, mas deixo de comer meu feijão bom, para comer o furado de vocês!”


O povo ia ao delírio e não deixava ele parar. A cada frase a animação aumentava.

- Muito bem, Seu Luizin!

- “Meus amigo, mais vale uma rapadura salgada do que uma promessa doce!”


As gargalhadas, os aplausos e os gritos de apoio aumentavam ainda mais, vindos da plateia, que chamavam por seu nome naquele local de temperatura escaldante.

Seu Luizin ficava todo envaidecido, acenava de um lado para o outro com as mãos erguidas e os dedos em forma de “V” em sinal de vitória. Mas isso não era tudo.

Ainda tinha o grande final! Seu luizin não deixava o palanque sem antes terminar com chave de ouro!


Continuava, olhava para o povo agitado de felicidade e gritava lá de cima:

- “Eu vou pular!”

O povo não aguentava de tanto rir e respondia:

- Pula, seu Luizin, pula! Nós segura o senhor!

E ele inflamava ainda mais a multidão ao som do seu próprio gogó:

- “Eu pulo ou não pulo?”


E o povo berrava:

- “Pula seu Luizin! Pula sim! Pula Seu Luizin! Nós pega o senhor!”

E ele repetia até o povo cansar de tanto rir. E pulava!


O público jogava aquele homem idoso e pesado para cima e para baixo,

chacoalhando-o de braço em braço até ele cansar. E todo discurso daquele candidato era assim: animado e festivo. Ele acreditava veementemente que havia nascido para a oratória, mas o povo o elegeu pela comédia.



Andrea Mariano | Escritora, advogada, faz parte da Acadêmia de Letras de Princesa Isabel-Paraíba, artista visual.

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