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Uma análise sobre a categoria artística.

Atualizado: Mar 11





O QUADRO E A GELADEIRA



Alguns conceitos seculares regem até hoje o modo como a Arte e o artista são vistos pela sociedade. O Renascimento, mais de cinco séculos atrás, deveu muito aos chamados “mecenas”. Ricos e poderosos, esses comerciantes, nobres e banqueiros investiam na Arte para aumentar seu prestígio. O artista, para poder se dedicar integralmente a seu ofício e ter suas obras conhecidas, precisava dessa ajuda. Sem o apoio dos Médici, as obras de Donatello e Michelangelo não chegariam até nós, ou talvez nem chegassem a existir.


Com o passar do tempo, consolidou-se na cultura ocidental uma valorização absoluta da ciência e da produção. A Arte perde seu status num contexto em que se acredita que podemos viver sem artistas. Mas não podemos viver sem médicos, advogados e engenheiros.


Esse é o cenário histórico que nos leva à concepção de que o trabalho do artista é uma atividade menor, se não supérflua, e de que ele precisa de alguém que o ajude a tirar seu sustento de seu trabalho. A necessidade desse “alguém” justifica a existência de gravadoras, editoras, donos de galerias. Trabalhar com eles não é necessariamente ruim. Mas colocar a carreira na mão de terceiros deixa o artista vulnerável à exploração.


Vejo os artistas como uma categoria que precisa ser mais unida. E se expõem à exploração comercial por uma “elite” que se dedica a vender as obras que não consegue criar.


Acredito que o curador, muito mais que um organizador de exposições, tem a oportunidade de desempenhar um papel de conscientizador, ao abrir os olhos para fatos indiscutíveis que muitos artistas simplesmente ignoram. Trabalhar com arte não nos desconecta das preocupações financeiras. Há uma insegurança, um medo generalizado de dar um preço à obra. Quem fabrica um sapato, um refrigerador ou um carro (todos em linhas de montagem) não tem a menor dificuldade em cobrar seus preços. Por quê com um quadro há esse medo de cobrar?


Parece que esquecemos que um livro, um quadro, uma canção não são fabricados em série, numa fábrica. A Mona Lisa vale menos que uma geladeira? Faz sentido essa comparação?

Pode ser utopia sonhar com políticas públicas de incentivo. Mas a mobilização teria de ir além do mundinho fechado da Arte. E isso é uma questão de cultura popular. Recentemente na França, as bailarinas da Ópera de Paris aderiram a uma greve nacional contra a mudança da idade de aposentadoria. Fizeram uma apresentação gratuita, ao ar livre, do “Lago dos Cisnes” e o povo francês apoiou firmemente, reconhecendo a importância da Arte no cenário cultural francês.


Num cenário em que o artista não acredita no apoio popular e também desconfia de galerias e marchands, cabe aos curadores lembrar que existem, sim, rotas alternativas.

A verdade é que hoje a tecnologia dá os meios para que o artista crie e também divulgue sua obra. Os inúmeros recursos disponíveis, sites, Instagram, quando devidamente trabalhados, podem projetar seu trabalho no Brasil e em todo o mundo. Conhecer esses caminhos, dominar a arte de divulgar com eficiência, são tarefas ao alcance de todos.


Fica o convite para sair da acomodação. Tomar as rédeas da própria carreira é uma decisão crítica para o êxito do artista contemporâneo.


Não é preciso seguir modelos de 500 anos atrás.

Não precisamos da Família Médici para promover os novos Michelangelos.


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