Passaporte para a Imortalidade - Iberê Camargo


A Arte é o espelho da nossa alma. Dorian Gray e Fausto retratam sonhos: beleza, prazer, sabedoria... Oscar Wilde e Goethe souberam captar nosso íntimo, retratar suas épocas e entraram para a História. Esse é o poder da folha, da partitura e da tela em branco. Elas não esperam apenas mais um texto, mais uma canção, mais um quadro. Diante delas, um inglês escreveu “Ser ou não ser”. Um alemão combinou quatro notas mágicas em sua 5ª. Sinfonia. E um italiano pintou um sorriso enigmático. Passaram-se os séculos. E Shakespeare, Beethoven e da Vinci seguem vivos e reverenciados. Nenhum deles planejou isso. Mas ao traduzirem suas almas em suas obras, conquistaram um passaporte para a imortalidade. Quando essa entrega acontece, o observador é conquistado. E aplaude um estilo, que buscará avidamente no próximo quadro. Até criar uma intimidade que lhe permita em segundos relacionar a obra ao autor.

Vamos conversar sobre alguns artistas e seus estilos inconfundíveis.

Hoje conosco, Iberê Camargo.




Das paisagens, da luz, para o denso, para o sombrio. Avesso ao academicismo, buscou a liberdade artística e chegou a ser aclamado como melhor pintor brasileiro da época. O que há por trás dessa guinada visual?

Iberê viveu entre 1914 e 1994. Presença constante em exposições pelo mundo todo, sua obra foi acolhida e aclamada de Lagos a Veneza. Embora tivesse conhecimento de diferentes vertentes estéticas, não se filiou a nenhuma delas. Uma independência e uma busca dos próprios caminhos marcaram uma originalidade que sempre lhe garantiu o êxito junto à crítica e ao público.


A convivência com artistas como Portinari e os anos de estudos e contatos na Europa ajudaram a apurar sua técnica e a marcar com mais clareza um estilo todo seu, onde aparecem com destaque bicicletas e ciclistas.


Mas em sua trajetória há um ponto de inflexão. Um divisor de águas.


Todo artista traduz em formas e cores o que vai em seu íntimo. É impossível dissociar a vida da obra. Não faltam artistas com histórias de vida cheias de atribulações e dificuldades. Na longa lista lembramos de Gauguin, Franz Kline e o destaque maior vai para van Gogh.


As telas revelam de modo inequívoco o estado de espírito do artista.

Por mais que a mensagem e o recado artístico sejam consistentes, a alma do artista está ali, presente em cada pincelada. E as tristezas e alegrias acabam por se escancarar em cada imagem.


Na década de 80, Iberê matou um homem.

Na rua, ele observou um casal discutindo. O marido, incomodado, atravessou a rua para questionar Iberê. Um encontrão e o artista caiu. Sacando então seu revólver e disparando 5 tiros. Preso em flagrante, em menos de dois meses estava livre, graças a suas conexões com o poder e a uma interpretação questionada do conceito de auto-defesa.


A realidade se impõe a nossas generalizações e nossas ideias românticas. Apreciamos os artistas que emprestam seus talentos a causas construtivas. A arte é irmã da paz. Um artista opta conscientemente ao escolher um pincel e não uma arma como seu instrumento de ação social.

Iberê andava armado o tempo todo. Fez cursos de tiro. E não hesitou em disparar num pai de quatro filhos.

É também importante localizar no tempo esse acontecimento. O Brasil, na ocasião, estava em plena ditadura militar. E Iberê tinha amigos nos altos escalões. Que lhe garantiram todas as regalias possíveis em seu curto período de cadeia (28 dias) e lhe proporcionaram uma absolvição que resistiu a recursos graças a amizades e compadrios questionáveis.


Iberê foi libertado. Mas...saiu ileso?

Seus quadros nos gritam que não. As cores leves deram lugar ao marrom escuro, ao preto, ao roxo. Os ambientes iluminados deram lugar a um sombrio mundo de trevas. Ele nunca mais foi o mesmo. Difícil não associar essa escuridão a sentimentos tardios e amargos de remorso e arrependimento.

Não nos cabe julgar. Afinal, sabemos que a divindade brilha em todos nós, sem exceção. Do santo ao assassino, todos trazemos uma chama divina que buscamos evidenciar ao longo dos aprendizados de uma existência.


Mas a obra de Iberê traz ensinamentos que precisam ser assimilados. O preço que pagamos por nossas ações pode até ser atenuado por uma justiça falha, por uma sociedade omissa, pela violência no poder. Mas é sempre cobrado por nossa consciência.


Nossas palavras podem contar uma história atenuada.

Mas outro artista já nos revelou que certas coisas não se escondem.

John Lennon em uma de suas canções nos diz que existe algo que não conseguimos esconder: quando estamos mal “por dentro”.


É o resgate de uma humanidade às vezes esquecida. Sim, o artista é como nós.

E é justamente aí que ganha importância a sinceridade artística. Que permite ao observador se identificar com uma obra, mas também com outro ser humano.

Que também sonha, também erra e também sofre.







Passport to Immortality – Iberê Camargo


Art is the mirror of our soul. Dorian Gray and Faust portray dreams: beauty, pleasure, wisdom... Oscar Wilde and Goethe knew how to capture our intimate, how to portray their times and made History. This is the power of the sheet, the score and the blank canvas. They don't expect just another text, another song, another picture. In front of them, an Englishman wrote “To be or not to be”. A German combined four magic notes on his 5th. Symphony. And an Italian painted an enigmatic smile. Centuries went by. And Shakespeare, Beethoven and da Vinci remain alive and revered. None of them planned this. But in translating their souls into their works, they won a passport to immortality. When this surrender takes place, the observer is won over. And he applauds a style, which he will eagerly seek in the next painting. Till is created an intimacy that allows him to relate the work to the author in seconds.

Let's talk about some artists and their unmistakable styles.

Today with us, Iberê Camargo.


Iberê Camargo

From landscapes, from light, to the dense, to the gloomy. Averse to academicism, he sought artistic freedom and came to be acclaimed as the best Brazilian painter of the time. What is behind this visual shift?


Iberê lived between 1914 and 1994. Constant presence in exhibitions all over the world, his work was welcomed and acclaimed from Lagos to Venice. Although he was aware of different aesthetic lines, he did not join any of them. An independence and a search for his own paths marked an originality that has always guaranteed him success with critics and the public.


The coexistence with artists like Portinari and the years of studies and contacts in Europe helped to refine his technique and to mark more clearly his own style, where bicycles and cyclists appear prominently.


But in his trajectory there is a turning point. A watershed.


Every artist translates what goes into his heart into shapes and colors. It is impossible to dissociate life from the work. There are many artists with life stories full of tribulations and difficulties. In the long list we remember Gauguin, Franz Kline and the biggest highlight goes to van Gogh.


The canvases unequivocally reveal the artist's state of mind.

As consistent as the artistic message is, the artist's soul is there, present in each brushstroke. And the sadness and joy end up in every image.


In the 1980s, Iberê killed a man.

On the street, he observed a couple arguing. The husband, uncomfortable, crossed the street to question Iberê. A bump and the artist fell. Then drawing his revolver and firing 5 shots. Caught in the act, in less than two months he was free, thanks to his connections to power and a questioned interpretation of the concept of self-defense.


Reality imposes itself on our generalizations and our romantic ideas. We appreciate artists who lend their talents to constructive causes. Art is the sister of peace. An artist consciously chooses a brush and not a weapon as his instrument of social action.

Iberê was always armed. He took courses in shooting. And he did not hesitate to shoot a father of four.

It is also important to locate this event in time. Brazil, at the time, was under a military dictatorship. And Iberê had friends at the top. That guaranteed him all the perks possible in his short period of jail (28 days) and provided him with an acquittal that resisted appeals thanks to questionable friendships.


Iberê was released. But ... did he come out unscathed?

His pictures scream at us not. The light colors gave way to dark brown, black, purple. The illuminated environments gave way to a gloomy world of darkness. He was never the same again. It is difficult not to associate this darkness with late and bitter feelings of remorse and regret.

It is not for us to judge. After all, we know that divinity shines in all of us, without exception. From the saint to the murderer, we all bring a divine flame that we seek to show throughout the learning of an existence.


But Iberê's work brings teachings that need to be assimilated. The price we pay for our actions can even be mitigated by a flawed justice, by an omissive society, by violence in power. But it is always demanded by our conscience that resists to be silent. We suffer from the conviction that we have not done and are not doing what it takes to rise, to mark our passage on the planet as a journey of improvement.


Our words can tell an attenuated story.

But another artist has already revealed to us that certain things can’t be hidden.

John Lennon in one of his songs tells us that one thing we cannot hide: when we are feeling bad "inside".


It is the rescue of a sometimes-forgotten humanity. Yes, the artist is like us.

And that is exactly where artistic sincerity takes on importance. Which allows the observer to identify himself with a work, but also with another human being.

Who also dreams, makes mistakes and suffers.

















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