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marisa melo

O Contemporâneo e o Anacronismo

  • Foto do escritor: Marisa Melo
    Marisa Melo
  • Há alguns segundos
  • 3 min de leitura

Atualizado: 1 de jun.



Uma reflexão sobre tempo, imagem e deslocamentos na arte atual




Pintura figurativa com arquitetura geométrica, duas figuras humanas em primeiro plano e um barco à vela sob céu azul esverdeado.
Giorgio-de-Chirico-Lenigma-dellarrivo-e-del-pomeriggio-1911

Giorgio Agamben escreve que contemporâneo é aquele que consegue perceber a escuridão do próprio tempo. A frase ajuda a pensar uma questão recorrente na arte atual. Grande parte da produção contemporânea parece organizada pela necessidade de demonstrar atualização imediata. As imagens circulam rapidamente, repetem estruturas semelhantes e incorporam temas que se espalham quase ao mesmo tempo por feiras, galerias e instituições. Existe uma velocidade muito grande na assimilação visual do presente. Em pouco tempo, muitas dessas obras começam a envelhecer porque permanecem excessivamente dependentes da lógica do próprio período em que surgiram.


Talvez por isso o anacronismo continue produzindo imagens tão fortes. Algumas obras permanecem abertas diante do olhar justamente porque carregam tempos diferentes convivendo dentro da mesma construção visual. O passado aparece reorganizado dentro do presente sem se transformar em nostalgia ou reconstrução histórica ilustrativa. Penso em Giorgio de Chirico e em L’enigma dell’arrivo e del pomeriggio, de 1911. A pintura parece deslocada até hoje. As arcadas vazias, a perspectiva alongada, a luz imóvel e a sensação de suspensão criam uma imagem que não se ajusta completamente ao seu próprio período histórico. Existe algo de clássico, moderno e arcaico acontecendo ao mesmo tempo naquela superfície. O espaço parece conhecido e estranho simultaneamente. A cidade construída por De Chirico não pertence inteiramente a nenhum tempo específico.


Essa sensação altera a maneira como a obra permanece diante do olhar mais de um século depois. A pintura não depende apenas do momento histórico em que foi produzida. Ela continua ativa porque existe nela uma temporalidade irregular. As referências à arquitetura renascentista convivem com uma atmosfera quase cinematográfica. As sombras muito longas criam uma sensação física de espera. As figuras humanas aparecem reduzidas a pequenas presenças silenciosas dentro de um espaço monumental e vazio. Nada na imagem tenta produzir identificação imediata com o presente de 1911. Talvez esteja justamente aí a força da pintura. Ela não responde rapidamente ao seu tempo. Ela cria distância suficiente para olhar o próprio período de maneira deslocada.


Hoje vejo muitas obras preocupadas em demonstrar pertencimento imediato ao presente. A imagem já chega organizada por referências reconhecíveis, discursos previsíveis e construções visuais muito alinhadas ao fluxo contemporâneo de circulação. Em pouco tempo, parte dessa produção perde força porque dependia diretamente da atualização contínua daquele mesmo repertório visual. Algumas obras parecem feitas para circular rapidamente dentro da lógica das imagens atuais. Quando essa lógica muda, grande parte da imagem envelhece junto com ela.


O anacronismo produz outra duração. Certos artistas continuam trabalhando pintura figurativa, referências clássicas, técnicas antigas ou construções históricas sem transformar a obra em exercício nostálgico. O passado aparece reorganizado dentro da linguagem contemporânea e cria uma relação menos obediente com o presente. Em muitos casos, são justamente essas fraturas temporais que impedem a obra de se resolver rapidamente. A imagem permanece ativa porque nunca pertence completamente a um único tempo.


Penso em Georges Didi-Huberman quando escreve sobre a sobrevivência das imagens. Certas formas retornam continuamente porque carregam tempos acumulados dentro da própria matéria visual. Talvez seja justamente isso que diferencia uma obra construída apenas para responder ao presente de uma obra que continua produzindo leitura décadas depois. O contemporâneo talvez apareça exatamente nesse ponto, quando a imagem consegue criar distância suficiente para não repetir imediatamente o próprio tempo.

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