As Histórias que herdamos: Como as memórias moldam nossa identidade
- Andrea Mariano

- 24 de jun.
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de jun.

Quando nascemos, começamos a escrever o nosso repertório de vida. Todos os acontecimentos vão moldando a escultura final de quem realmente nos tornaremos. Desde muito pequenos, nos são passados valores e princípios esculpidos no pretérito, como uma forma válida de viver em sociedade e em nós mesmos. Muitas dessas memórias transmitidas oralmente são referências estampadas no tecido dos costumes, onde a linha do tempo faz percurso seguro, pela comprovação de vivências dos que não estão mais para contar suas próprias histórias. São experiências que servem de aprendizado, encontros que se tornam resgates e por fim, apenas uma mistura de cenas e emoções que permanecem silenciosamente guardados, no mais profundo de seu íntimo, num lugar que só você tem o poder de acessar, e o melhor, quando quiser. Esses fatos armazenados na memória, um dia e dependendo da situação, revisitados para reviver um pouco mais do que se foi e não volta mais. As saudades de pessoas que nos fazem falta, uma época que deixou de existir e agora podem ser evocados pelos gatilhos de alguma situação lhe recrutar tal instante. Assim é a composição das nossas recordações, que se transformam em heranças vivas e vão desenhando cada traço da nossa identidade. Esses espólios são muito mais significativos do que os bens materiais, pois estes podem findar-se, enquanto aqueles não.
Herdamos histórias que ouvimos, lembranças que não são diretamente nossas de todas as narrativas que nos foram apresentadas, atravessando o tempo sem pedir permissão. Elas nos encontram em determinado momento e costuram, como uma roupa nova, um incrível banco de memórias que só conhecemos de ouvir contar. Mas ali se forma uma nova história, entrelaçada por meio do passado, como uma ponte que une os dois universos: o de quem viveu e o de quem ouviu.
Essa nova versão recriada a partir da escuta, nasce no olhar de quem a recebe e será passada, como uma correnteza forte de um rio. E esse é o ponto interessante: Quando aquilo que só foi vivido pela emoção da escuta, por meio da narrativa de um bom contador de histórias, transporta o ouvinte para dentro da cena, elevando o papel de apenas pertencer a plateia, para se tornar também um protagonista.
Na infância somos apresentados as múltiplas recordações que constroem a percepção da nossa própria identidade. São inúmeras informações provenientes de vários ascendentes, com uma gama edições distintas, inclusive até das mesmas narrativas, que passam a fazer parte de nosso enredo. Ali, ficam impregnadas em nossas memórias, para nunca mais saírem. O que faremos com esses tesouros, só o tempo determinará, mas o certo é que, essa reinterpretação nos entrega uma variação de oportunidades, para acrescentarmos aos capítulos de nosso legado. Outra vertente não menos importante, é a atenção precisa ao parente que se posiciona em transmitir a mensagem, refazendo em nossa mente, um modelo totalmente atualizado dos acontecimentos. Cada vez que revisitamos o nosso patrimônio de lembranças, é um pedaço de nós que se concebe nas entranhas das memórias, que teimam em serem preservadas.
Ao analisar esse tema antes de escrever, passei pelas páginas de minha própria experiência e mantive-me atenta em cada detalhe escrito pelos capítulos da oralidade de minha avó paterna, que insistia em me fazer uma ouvinte atenta de suas “viagens ao tempo” durante minha infância e juventude. Ela enfatizava a relevância, como uma certa urgência, em deixar que aqueles fatos não morressem com ela, como se sua existência, de alguma forma, se mantivesse viva entoando as notas de uma melodia escrita pelas linhas da vida.
Então, tempos depois entendi, o quanto importante cada narrativa que saia de sua boca seria necessária ser registrada, pois fortaleceria nossas raízes e criaria um laço entre o que se foi e o que está sendo. Essa interligação profunda da simples oralidade de memórias, depositaria nas gerações futuras, um resgate do repertório proferido e deixado como espólio mais valioso de pertencimento e identidade.
Para muitos, onde tudo é efêmero, o conhecimento da maravilhosa aventura proporcionada pela conexão desse universo chamado passado, juntamente com seu poder transformador de causar significativas mudanças nos dias atuais, é realmente inspirador. Particularmente, usei dessa estratégia em minha trajetória profissional como escritora e percebo que mais de cem anos resgatados a partir de minhas recordações escritas num livro, já levaram muitos
, de minha própria família, a se aprofundar nas águas das vidas dos que já não estão mais aqui conosco.
Então, a prova de que as memórias reescrevem a rota de nossa história e identidade, independente do momento que ela chega, é determinada pelo envolvimento afetivo de quem a recebe e escolhe predominantemente sustentá-la, com uma compreensão de quem somos e qual é o nosso lugar no mundo. A caminhada percorrida por passos silenciosos da inexistência, deixados como um pretérito sem importância, desvaloriza a essência humana, pois nenhuma história é construída apenas por conquistas, mas pelo que deixou de existir e foi apagado pelo tempo. Compreendendo que o passado se faz presente no momento de modificar o futuro, resgatamos mais de nós mesmos em nossas origens. Por isso, contar histórias seja um ato tão humano e transformador, pois passamos a ser guardiões das heranças que preservam a identidade de um povo, com poder de manifestar o cuidado da proteção de uma história, que peleja em ser passada e não apenas ser enterrada pelo tempo.
Muitos dos meus momentos de convivência com minha avó Lindaura, foram tão ricos, que me influenciaram em decidir manter viva as histórias que me contava insistentemente. Eu, de alguma forma percebia que aqueles momentos não poderiam ser deixados de lado.
Ignorar a contribuição de uma vida não pode ser uma opção apenas porque ela esta separada por séculos de distância. Desacreditar que o passado não oferece ensinamentos capazes de melhorar o presente e orientar o futuro é, acima de tudo, uma profunda desconexão de quem somos. Os acontecimentos que nos trouxeram até aqui, sendo você conhecedor ou não, estão lá, compondo os fatos que nos antecedem. E, se a oportunidade lhe agarrar a mão, conte-a, pois sempre haverá alguém esperando para escutá-la da forma como você decidir registrá-la.



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